Com Musk à frente, Vale do Silício se inclina à direita

Por muito tempo considerado como alguém sem posição política definida, Musk mostra agora uma visão linha-dura de direita

Com Musk à frente, Vale do Silício se inclina à direita

A pergunta que não quer calar é se o magnata Elon Musk utilizará sua fortuna e influência para ajudar Trump a voltar à Casa Branca. Foto: Michael M. Santiago

Desde sua polêmica aquisição do Twitter, Elon Musk fez um claro giro político à direita, desafiando a tradição do Vale do Silício como um bastião de liberais endinheirados comprometidos com o Partido Democrata nos Estados Unidos.

Por muito tempo considerado como alguém sem posição política definida, Musk mostra agora uma visão linha-dura de direita. Em sua plataforma X, dá vida aos temas favoritos da emissora Fox News, dos setores mais conservadores da rádio e dos movimentos de extrema direita do país.

Um exemplo recente foi quando Musk publicou na semana passada que o presidente Joe Biden estava importando imigrantes por votos, assentando as bases de “algo muito pior do que o 11 de setembro”, uma teoria da conspiração que circula nas salas virtuais de bate-papo da extrema direita.

Contudo, para além de suas publicações, muitos se perguntam se o segundo homem mais rico do mundo usará sua influência e riqueza para ajudar Trump a voltar à Casa Branca.

Os rumores aumentaram quando o jornal The New York Times informou que os dois tiveram uma reunião junto a doadores republicanos na Flórida na semana passada.

No X, Musk insistiu: “Para deixar muito claro, não estou doando a nenhum candidato à Presidência dos Estados Unidos.”

Mas o financiamento das eleições é opaco e complicado, e quem apoia Biden está preocupado que Musk possa mudar de opinião ou criar comitês políticos que financiem Trump.

– ‘Tecno-otimismo’ –

Musk não está sozinho, outros pesos pesados do Vale do Silício também defendem as causas conservadoras no que continua sendo um bastião do liberalismo. Em 2020, a votação a favor de Trump no Vale do Silício foi inferior a 25%.

Alguns de seus bilionários buscam construir um movimento político que, mesmo sem oferecer apoio direto a Trump, abraça as ideias conservadoras, as criptomoedas e se opõe à corrente californiana.

Entre as vozes que se impõem está o fundador da Netscape, Marc Andreessen, que agora administra a importante empresa de capital de risco Andreessen Horowitz.

Um típico magnata tecnológico de centro-esquerda de outrora, Andreessen é agora um porta-bandeira contra posições progressistas, em especial as sobre equidade e inclusão nas empresas.

No ano passado, Andreessen apresentou um manifesto “tecno-otimista” de 5.200 palavras com um visão tecno-utópica para o futuro que lista entre os inimigos da tecnologia a regulação e as preocupações sobre discriminação e equidade.

Como muitos de seus colegas investidores, a empresa de Andreessen investiu fortemente em criptomoedas e, no ano passado, lançou um fundo de financiamento político para causar problemas aos congressistas, democratas ou republicanos, que buscam maior controle para essa indústria nascente.

Para a analista de tecnologia Carolina Milanesi, isto se trata menos de imitar Musk e mais das preocupações sobre o fim do “status quo”.

“Quando as pessoas falam de políticas liberais e progressistas, quando se fala também de diversidade, igualdade e inclusão, ou se está falando de sustentabilidade, todas essas coisas são basicamente ameaças aos ‘status quo'”, explica.

Musk o denomina “vírus mental progressista” e o combate a essas ideias é o que impulsiona um podcast bem-sucedido chamado “All-In”, no qual quatro pesos pesados da tecnologia opinam sobre os últimos desenvolvimentos tecnológicos.

– Inteligência Artificial de ‘extrema esquerda’ –

Com o avanço dessa influência conservadora, empresas tecnológicas preocupadas com a diversidade têm enfrentado críticas, como a de que a inteligência artificial generativa se tornou muito “progressista”.

O próprio diretor-executivo do Google, Sundar Pichai, foi criticado depois que o recém-lançado aplicativo Gemini AI gerou imagens de tropas alemãs da Segunda Guerra Mundial etnicamente diversas, entre outros erros históricos.

“As pessoas que manejam a IA [Inteligência Artificial] do Google estão inserindo clandestinamente suas preferência e vieses, e esses vieses são extremamente liberais” disse o âncora do podcast “All-In” David Sacks em um segmento que chamou de “O desastre progressista da IA do Google”.

Pichai disse que esses problemas de sua ferramenta de IA são “completamente inaceitáveis” e seu fundador Sergey Brin afirmou: “definitivamente fizemos besteira” ao gerar esse tipo de imagem de “extrema esquerda”.