O que está por trás da aliança entre Marília e João Campos?

Quatro anos após uma intensa briga pela Prefeitura do Recife, os primos Marília Arraes e João Campos estarão no mesmo palanque em 2024

O que está por trás da aliança entre Marília e João Campos?

Marília Arraes e João Campos são primos. Foto: Reprodução

Quatro anos após a briga intensa pela Prefeitura do Recife, os primos Marília Arraes e João Campos estarão no mesmo palanque em 2024. Depois da troca de acusações e denúncias de fake news, Marília vai participar do projeto de reeleição do prefeito como “dívida” ao apoio que recebeu contra Raquel Lyra.

Para o mestre em Ciências Jurídico Políticas, Caio Sousa, o movimento que levou Marília (Solidariedade) a apoiar a campanha de João (PSB) representa mais uma jogada do prefeito para chegar forte ao governo de Pernambuco.

“Hoje não está sendo formado o jogo eleitoral de 2024, mas a construção da manutenção e ampliação dos espaços de poder com a perspectiva de João ser um fortíssimo nome para o Governo de Pernambuco em 2026”, pontuou.

Nesse arranjo, também devem ser discutidas indicações do Solidariedade para compor o secretariado de João, caso seja reeleito. Essa articulação ainda deve avaliar a abertura de outros espaços na gestão e a estratégia para o Senado.

Os dois se reconciliaram em 2022, com a missão de frear as forças mais alinhadas ao bolsonarismo no estado. O discurso do combate à “extrema-direita” veio a calhar naquele momento, mas já não se sustenta para este ano.

“O discurso de oposição à ‘extrema-direita’ pode ser um bom argumento para justificar rearranjos políticos, mesmo sem muita sustentação prática em um estado onde o bolsonarismo ainda é bem tímido como força”, comentou.

“A política é dinâmica, possui um fluxo próprio no período eleitoral, que do ponto de vista do marketing acaba demonstrando rivalidades e antagonismos. No entanto, a política é muito mais fluida e representa um repensar dos espaços de poder, onde grupos refletem constantemente as estratégias para se manter no jogo e tentar trazer a contribuição que julgam importante para a sociedade. De fato, a aproximação de Marília a João pode gerar estranheza, mas levando em consideração o vínculo familiar, alinhamento ideológico, e a perspectiva eleitoral de 2024 e 2026, posso dizer que foi um passo inteligente politicamente”, constatou o cientista político.

Antagonistas em 2020

O segundo turno das eleições de 2020 foi manchado pela disputa que ultrapassou a Política, muito além da briga pelo legado de Miguel Arraes. Marília, na época do PT, chegou a afirmar que o Recife seria comandado pela mãe de João, Renata Campos, mencionou que o patrimônio de Eduardo Campos, pai de João, estava bloqueado pela Justiça e sugeriu que os integrantes do PSB não conheciam a realidade do povo pobre da cidade.

João Campos, por sua vez, navegou no antipetismo, atacou líderes do partido presos por corrupção e disse que Marília seria usada pela sigla. Panfletos em apoio ao candidato foram espalhados em templos religiosos, nas vésperas da eleição, e apontavam que “cristão de verdade” não votava em petista. O material não era assinado e distorcia uma fala de Marília sobre laicidade na Câmara Municipal.

Marília Arraes não se elegeu prefeita e considerou sua derrota como o início de uma nova oposição do estado. Mesmo após as derrotas em sequência e a aliança controversa com João Campos, a imagem de Marília não sai enfraquecida na visão do cientista político.

“Não entendo que Marília saia enfraquecida, compreendo que ela ainda tem sua força política, o seu eleitorado continua sólido, no entanto, esse passo agora é estratégico e pode potencializar outros projetos políticos de Marília e seu grupo”, avaliou Caio Souza.