Eleições 2022: Protagonismo feminino ganha destaque em PE

As possíveis candidaturas de Marília Arraes (PT) e Raquel Lyra (PSDB) têm em comum a ampliação do espaço de poder feminino na política

por Kauana Portugal sex, 21/05/2021 - 15:15
Montagem/Reprodução/Instagram Raquel Lyra, prefeita de Caruaru, e Marília Arraes, deputada federal são fortes candidatas ao governo de PE em 2022 Montagem/Reprodução/Instagram

Além de decidir qual estratégia política conduzirá o Brasil por mais quatro anos, 2022 também será decisivo para as candidaturas ao governo do Estado. No pleito pernambucano, Marília Arraes, deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), e a prefeita de Caruaru, Raquel Lyra, do Partido Social Democracia Brasileira (PSDB), surgem como alternativas antagônicas, mas que têm em comum a ampliação do espaço de poder feminino na política.

Apesar da imprevisibilidade do jogo político partidário, tudo indica que existe a possibilidade  do atual governador do Estado, Paulo Câmara (PSB), passar o posto no Palácio das Princesas para a primeira mulher a ocupar o cargo. Marília Arraes, que enfrentou o atual prefeito João Campos (PSB) nas urnas durante as últimas eleições municipais, e Raquel Lyra, primeira prefeita eleita e reeleita por Caruaru, são dois nomes relevantes no cenário nacional. Para a cientista política Raíssa Dias, “o avanço de pautas ligadas à mulher, em ambas as candidaturas, pode encontrar um ambiente político muito frutífero”.

Mulheres na política em Pernambuco

“A participação das mulheres na política pernambucana é crescente e apresenta tendências animadoras, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido até que se chegue a uma representação da realidade”, destaca. Já o também cientista político e produtor de podcasts sobre o tema, Caio Santos, pontua as diferenças entre as candidaturas da petista e da tucana: “Tanto Marília Arraes quanto Raquel Lyra se fortaleceram no último pleito municipal. Contudo, Arraes enfrenta um ruído com a base do partido, enquanto que Lyra leva certa vantagem por ser muito forte no Agreste do estado e também por se aliar a diversas lideranças do interior”.

No tocante ao atual cenário político pernambucano, com ênfase na Assembleia Legislativa do Estado (Alepe), a bancada feminina é a maior da história do Parlamento. São 11 cadeiras ocupadas por mulheres, o dobro do que fora conquistado em 2014, totalizando o crescimento de mais de 20% com relação ao número anterior, percentual acima da média nacional das Assembleias Legislativas, que é de 15%. Apesar disso, quando comparado ao  número total de 49 deputados estaduais, apenas 5,39% são parlamentares mulheres. Com relação a isso, Raíssa Dias destaca o que classifica como resultado de uma cultura partidária que “prioriza a alocação de recursos e interesses em campanhas masculinas”.

“As duas possíveis candidatas ao governo, Marília e Raquel, fizeram parte do PSB, que tem dominado o cenário político de Pernambuco. Ambas saíram do partido, além de divergências fundamentais, por falta de espaço para suas futuras candidaturas. Agora, as duas representam oposição ao partido majoritariamente masculino, em espectros diferentes. As mulheres não são, nem nunca serão ‘só’ um mais nome ou ‘só’ mais um voto, e a projeção das próximas eleições para o governo de Pernambuco pode representar um importante passo para a corrente transformação dessa cultura”, finaliza a cientista política.

Representação e polarização política

De acordo com os dados do último censo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população feminina pernambucana corresponde a 51,9% do total. Desta maneira, faz ainda mais sentido que o debate sobre igualdade de gênero na política se amplie, proporcionando o crescimento de iniciativas efetivas para que todas as mulheres, independente de raça, orientação sexual, classe e ocupação, tenham seus direitos assegurados.

Segundo a socióloga e doutoranda em Antropologia, Carolina Lins, também “é necessário fazer uma distinção entre representação feminina e representação feminista”. “Para isso, há um exemplo emblemático na Câmara Municipal do Recife. Em 2016, a candidata conservadora Michele Collins (PP) foi eleita vereadora mais votada do Recife. Já em 2020, Dani Portela (PSOL), candidata declaradamente feminista, conquistou a posição anteriormente ocupada por Michele. Ambas foram eleitas com um expressivo número de votos, mas estão comprometidas com pautas diametralmente opostas. É possível dizer que Michele representa pautas ligadas às mulheres? Sim. A algumas mulheres, sim. Mas não podemos afirmar que a vereadora conservadora representa pautas feministas. Portanto, ainda que o pleito de 2022 venha a ser disputado entre duas mulheres, é preciso ter cautela quanto ao tipo de representatividade feminina e/ou feminista que devemos esperar” explica.

Sobre a clássica polarização entre PT e PSDB, partidos representados por Arraes e Lyra, a cientista social ainda destaca pontos importantes. “Seria raso reduzir uma disputa eleitoral entre duas mulheres, envolvidas há anos na política, a apenas isso. Não tenho dúvidas de que, caso venham a disputar o segundo turno eleitoral, tanto Marília Arraes quanto Raquel Lyra, apresentarão propostas pertinentes para a construção de seus respectivos mandatos. De todo modo, considero positivo o fato de ambas pertencerem a partidos políticos que, por vezes, chegam a ser opostos, uma vez que, oposição e contraste também compõem o nosso sistema político e, desde que respeitadas as regras do jogo democrático, têm muito a contribuir”, acrescenta.

 

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