Reunião: promoções no governo contradizem Bolsonaro

O presidente já havia feito alterações no GSI dias antes, não com a intenção de punir mas de promover o diretor do órgão, colocando no lugar o “número dois” da diretoria

por Lara Tôrres sab, 16/05/2020 - 10:30
Marcos Corrêa/PR Marcos Corrêa/PR

Mudanças feitas no governo 28 dias antes da reunião ministerial gravada que é alvo de polêmicas e disputa judicial entre Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro contradizem a versão apresentada pelo próprio presidente sobre seus desejos de mudanças no comando da Polícia Federal.

De acordo com informações do Jornal Nacional, apesar de ter afirmado que ao se referir a “gente da segurança nossa no Rio de Janeiro” ameaçando até fazer demissões de chefes e ministros na reunião Bolsonaro falava de sua própria segurança e da de sua família, 28 dias antes o presidente fez o oposto.

Em vez de demitir, promoveu o diretor do Departamento de Segurança Presidencial, general André Laranja Sá Correa, a comandante da Oitava Brigada de Infantaria Motorizada do Exército, localizada em Pelotas (RS), e o até então diretor-adjunto Gustavo Suarez assumiu o posto. A lei que trata da promoção de oficiais das Forças Armadas, como as do dia 31 de março, determina que a escolha de quem é promovido é feita pelo presidente da República.

Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI)

O Departamento de Segurança Presidencial integra a Secretaria de Segurança e Coordenação Presidencial do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), e consequentemente subordinado ao General Augusto Heleno, ministro do GSI. Algumas das obrigações do gabinete são:

Zelar pela segurança pessoal do presidente da República, do vice-presidente da República e de seus familiares; zelar pela segurança dos palácios presidenciais e das residências do presidente da República e do vice-presidente da República; e estabelecer e manter os escritórios de representação como bases operacionais avançadas para a garantia da segurança do presidente da República, do vice-presidente da República e de seus familiares.

A contradição de Bolsonaro vem de sua fala na reunião ministerial gravada no dia 22 de abril, que já foi transcrita para o processo que investiga se ele tentou intervir na Polícia Federal. Na ocasião, o presidente afirmou “Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar. Se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira”.

Quando questionada, a Advocacia Geral da União (AGU) afirmou que “importa lembrar que a segurança presidencial é realizada pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República" e que nesse momento da reunião "em nenhum momento, o presidente da República menciona ou refere-se, direta ou indiretamente, a 'superintendente', 'diretor-geral' ou 'Polícia Federal'”.

Apesar da afirmação, a troca feita por Bolsonaro de que sua afirmação se referia a dificuldades de mexer em sua segurança institucional, o presidente já havia feito alterações no GSI dias antes, não com a intenção de punir mas de promover o diretor do órgão, colocando no lugar o “número dois” da diretoria.

Houve, ainda, uma terceira mudança em um posto mais baixo do GSI do Rio de Janeiro. Em 28 de fevereiro, menos de dois meses antes da reunião ministerial, o chefe do escritório, o coronel Luiz Fernando Cerqueira, foi substituído pelo tenente coronel Rodrigo Garcia Otto. O escritório do Rio funciona como uma extensão da sede em Brasília, apurando e repassando informações. O Palácio do Planalto não comentou o tema.

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