Meteorito marciano pode ter lições sobre formação da Terra

O meteorito contém zirconita, o mineral mais antigo conhecido na Terra, datado de 4,48 bilhões de anos

Meteorito marciano pode ter lições sobre formação da Terra

Cientistas identificaram a região de origem de um meteorito marciano, um verdadeiro “livro aberto” sobre os primeiros instantes do planeta Marte, potencialmente rico em lições sobre a formação da Terra.

“Black Beauty”, NWA 7034 por seu nome, fascina os geólogos desde sua descoberta no Saara em 2011. Este bloco, fácil de segurar na mão e pesando pouco mais de 300 gramas antes de ser cortado, é “uma das rochas mais antigas na história da geologia”, comentou à AFP o cientista planetologista Sylvain Bouley, que assina o estudo publicado na Nature Communications.

O meteorito contém zirconita, o mineral mais antigo conhecido na Terra, datado de 4,48 bilhões de anos. Ou seja, “cerca de 80 milhões de anos após o início da formação dos planetas” do sistema solar, explicou Bouley, professor do laboratório de Geociências da Universidade de Paris-Saclay.

O NWA 7034 é, portanto, um “livro aberto sobre os primeiros momentos de Marte”, quando sua superfície de magma começou a se solidificar.

Ao longo da história geológica do planeta Terra, o movimento incessante das placas tectônicas foi enterrando e desintegrando os materiais primitivos de nosso planeta Tierra. Algo que não aconteceu em Marte.

A equipe de pesquisadores, liderada por planetologistas da Universidade de Curtin, em Perth, no oeste da Austrália, com contribuição de instituições francesas, conseguiu a proeza de determinar a origem precisa do meteorito: uma cratera situada em uma região que abriga uma crosta que não mudou substancialmente desde a formação do planeta vermelho.

A cratera foi formada pelo impacto de um bólido vindo do espaço com “força suficiente para ejetar as rochas em altíssima velocidade, mais de 5 km/s, para escapar da gravidade marciana”, explicou à AFP Anthony Lagain, da Curtin e autor principal do estudo.

Essas crateras devem ter pelo menos 3 km de diâmetro, o que causou um problema para os cientistas, já que Marte possui cerca de 80.000 pelo menos desse tamanho.

Mas o pesquisadores tinham uma segunda pista, pois o NWA 7034 foi lançado ao espaço há cerca de cinco milhões de anos, graças à medição de sua exposição aos raios cósmicos.

– 90 milhões de fotos de crateras –

“Então, estávamos procurando uma cratera muito jovem e grande”, contou Anthony Lagain, cuja tese de doutorado se concentrou, em particular, na datação de crateras marcianas.

Outra pista, a análise da composição de “Black Beauty” revelou que o meteorito havia sido brutalmente aquecido há 1,5 bilhão de anos, provavelmente por um impacto de asteroide. Em outras palavras, a rocha foi extraída da superfície antes de cair mais longe, onde outro impacto desta vez a jogou no espaço, até a Terra.

Munido com essas informações, Anthony Lagain aprimorou um algoritmo de detecção de crateras desenvolvido na Curtin. Antes de fazê-lo analisar com um supercomputador o mosaico de 90 milhões de fotos de crateras marcianas, acumuladas graças à câmera de um satélite da Nasa.

O resultado reduziu a escolha a 19 crateras e, depois, para apenas uma, Karratha. Esta cratera de 10 km de diâmetro está em “uma região muito antiga do hemisfério sul, rica em potássio e tório, como Black Beauty”, diz Lagain.

A pista final, o meteorito é o único dos marcianos a ser bastante magnetizado, casando com o fato de que “a região onde Karratha está localizada é a mais magnetizada de Marte”.

Entre as regiões de Terra Cimmeria e Sirenum, esta área é “provavelmente uma relíquia da crosta mais antiga de Marte”, segundo o estudo, que pleiteia o envio de uma missão dedicada ao estudo de sua geologia.

Bouley aponta para uma espécie de “viés”, que centrou as missões marcianas na busca de vestígios de água e vida, em detrimento de épocas anteriores, que podem ter permitido seu aparecimento. Além disso, após sua descoberta, NWA 7034 chegou às manchetes devido à presença de água nele.

E Lagain recorda que entender a formação das primeiras crostas planetárias é entender o que aconteceu logo no início e “como se chega a um planeta tão excepcional como a Terra no Universo”.