Cidade israelense acolhe refugiados ucranianos judeus

O ministro do Interior, Ayelet Shaked, estimou no domingo que cerca de 15.000 ucranianos poderiam chegar a Israel até o final de março, dos quais 90% não se qualificariam para o 'direito de retorno'

ter, 08/03/2022 - 09:37
JALAA MAREY Voluntários na localidade israelense de Nof Hagalil JALAA MAREY

Em um estacionamento ao lado de seu escritório no norte de Israel, o prefeito de Nof Hagalil, Ronen Plot, atende telefonemas enquanto voluntários descarregam cobertores e roupas doados para os refugiados que fugiram da guerra na Ucrânia.

"Nof Hagalil foi construída pela imigração", diz Plot, de 67 anos, que veio da Moldávia para Israel há quase meio século. "Vamos receber o maior número de pessoas que pudermos".

Após o início da invasão russa, Plot convidou no Facebook os "olim" ucranianos, ou imigrantes judeus, para sua cidade e convocou os moradores a se mobilizarem.

"Se uma grande onda migratória vier, ficaremos felizes em participar do esforço israelense", afirma.

Sob a "Lei do Retorno" de Israel, qualquer pessoa com pelo menos um pai ou avô judeu pode obter a cidadania.

Entre aqueles que responderam ao convite de Plot está Chaim Gershman, que veio a Nof Hagalil com sua esposa Ora e seus quatro filhos. Sua mãe, Nelja, de 60 anos, chegou um dia depois.

Gershman conta que teve apenas uma hora para fazer as malas porque as bombas russas caim na suas cidade perto de Kiev.

"No começo, não acreditávamos que algo assim aconteceria", afirma.

Chegando em Israel, escolheu ir para Nof Hagalil por causa das mensagens do prefeito.

"Vi que um homem convidava, dizia 'venham para a nossa cidade, você será bem-vindo'".

Plot explica que sua comunidade oferece um ambiente familiar porque mais da metade de seus 50.000 moradores falam russo.

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As lojas vendem arenque bielorrusso e água georgiana, e os rótulos estão traduzidos para o russo.

O prefeito indica que reservou 600 quartos de hotel e 300 apartamentos vagos para receber os ucranianos, que chegam "exaustos".

"Eles enfrentaram muita miséria, estão com fome e cansados, é terrível", diz.

- "Deixamos tudo" -

Os Gershmans fugiram da cidade de Anatevka, perto de Kiev.

Escoltada pela polícia, a família viajou 17 horas de carro para chegar à fronteira com a Moldávia, parando uma vez em meio às explosões.

"Deixamos tudo o que tínhamos, a vida inteira", lamenta Ora Gershman, de 35 anos.

Os sete agora dormem em dois quartos contíguos em um hotel em Nof Hagalil. As crianças foram matriculadas na escola enquanto os pais organizam a papelada e procuram residência permanente.

O primeiro-ministro israelense, Naftali Bennett, evitou condenar a invasão russa, citando os fortes laços de seu país com Moscou e Kiev.

Mas Chaim Gershman diz que não entende "como alguém pode permanecer neutro quando está tão claro quem é o agressor".

"Putin disse que só atacaria alvos militares, mas estão bombardeando indiscriminadamente", denuncia.

As autoridades dizem que até 100.000 "olim" e suas famílias podem chegar da Ucrânia e da Rússia, citando uma onda anterior de um milhão de migrantes após o colapso da antiga União Soviética.

O ministro do Interior, Ayelet Shaked, estimou no domingo que cerca de 15.000 ucranianos poderiam chegar a Israel até o final de março, dos quais 90% não se qualificariam para o "direito de retorno".

Esta é uma taxa "impossível" de absorver para um país de 9,4 milhões de habitantes, segundo o responsável.

- Vizinhos árabes -

Mas a chegada dos judeus em Nof Hagalil toca um ponto sensível e histórico.

Foi construída como uma cidade judaica na década de 1950 em terras apropriadas da vizinha cidade árabe de Nazaré. O então primeiro-ministro David Ben Gurion, fundador de Israel, procurou "judaizar" a Galiléia, habitada principalmente por árabes.

Os árabes israelenses são descendentes de palestinos que permaneceram durante a guerra de independência de Israel em 1948, quando mais de 700.000 fugiram ou foram forçados a deixar suas casas.

Israel não permitiu o retorno da maioria dos refugiados palestinos.

Com o tempo, os árabes se estabeleceram em Nof Hagalil e agora representam um quarto de sua população.

Um deles é Saed Diab, de 39 anos, gerente em um dos hotéis onde os refugiados estão hospedados. Ele diz que doou roupas para os recém-chegados.

"Eu estive de férias em Kiev pouco antes do coronavírus. Cidade legal, gente boa", comenta. "Sinto muito pelo que está acontecendo".

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