Juiz é forçado a suspender investigação em Beirute

Apoiado pelas famílias das vítimas da tragédia que assolou a capital libanesa em agosto de 2020, Tareq Bitar foi alvo, na noite de segunda-feira, de um violento ataque verbal do líder do poderoso Hezbollah

ter, 12/10/2021 - 13:18
ANWAR AMRO Manifestante libanês irritado com o ritmo lento da investigação oficial carrega um cartaz com fotos das mais de 200 pessoas mortas na grande explosão do ano passado no porto de Beirute ANWAR AMRO

Sob pressão crescente da classe política libanesa, o juiz encarregado de investigar a explosão no porto de Beirute foi forçado, nesta terça-feira (12), a suspender suas investigações, após emitir um mandado de prisão contra um deputado e ex-ministro.

Apoiado pelas famílias das vítimas da tragédia que assolou a capital libanesa em agosto de 2020, Tareq Bitar foi alvo, na noite de segunda-feira, de um violento ataque verbal do líder do poderoso Hezbollah, que o acusou de politizar a investigação e solicitou a sua substituição.

O magistrado já havia suspendido sua investigação no final de setembro, após uma denúncia apresentada contra ele por um deputado e ex-ministro suspeito de envolvimento na explosão que deixou mais de 200 mortos e 6.500 feridos, e devastou bairros inteiros de Beirute.

Ele reassumiu o trabalho na semana passada depois que um tribunal de apelações rejeitou a queixa do deputado e outras semelhantes destinadas a retirá-lo do processo.

Esta manhã, Bitar emitiu um mandado de prisão contra um dos deputados em questão e ex-ministro das Finanças, Ali Hassan Khalil, membro do movimento xiita Amal, aliado do Hezbollah, que não compareceu para interrogatório e delegou seu advogado.

Mas foi forçado, horas depois, a suspender sua investigação após novas queixas apresentadas por Khalil e outro deputado e ex-ministro do Amal, Ghazi Zaayter, perante o tribunal de cassação, informou uma fonte judicial à AFP.

"Isso causou a suspensão da investigação e o cancelamento dos interrogatórios agendados", enquanto se aguarda a decisão do tribunal, disse a fonte.

O magistrado procurava aproveitar um período em que os deputados não gozam de imunidade parlamentar, antes da abertura da sessão de outono do hemiciclo, no dia 19 de outubro.

Políticos de todos os espectros se recusam a ser interrogados pelo juiz, embora as autoridades atribuam a tragédia ao armazenamento descuidado de grandes quantidades de nitrato de amônio.

Denunciadas por negligência criminosa, as autoridades rejeitam qualquer investigação internacional e são acusadas pelos familiares das vítimas e ONGs de sabotar a investigação local.

"Há uma decisão política de não permitir o trabalho do juiz", reagiu Nizar Saghieh, diretor da ONG jurídica Agenda Legal.

"As forças que o desafiam estão esgotando todos os recursos legais e está claro que algumas partes estão prontas a recorrer a meios não legais para impedi-lo de trabalhar", disse à AFP.

De acordo com Saghieh, o discurso do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, que acusou o juiz de politizar a investigação e pediu sua substituição por um magistrado "honesto e transparente", mostra que a classe política "perdeu a paciência".

Há várias semanas, o juiz Bitar tem estado no centro de uma campanha de difamação e sujeito a intensa pressão, e até mesmo foi ameaçado por um alto funcionário do Hezbollah.

Alguns temem que o magistrado tenha o mesmo destino que seu antecessor, Fadi Sawan, demitido em fevereiro após o indiciamento de altos funcionários.

Desde que herdou o caso, Bitar convocou o ex-primeiro-ministro Hassan Diab e quatro ex-ministros em vista de seu indiciamento.

Em 16 de setembro, ele emitiu um mandado de prisão contra o ex-ministro dos Transportes, Youssef Fenianos, membro de um partido cristão próximo ao Hezbollah.

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