Diagnóstico precoce do câncer de mama salva vidas

Tipo de câncer mais comum e letal no Brasil pode ter maior chance de retardo e cura quando o cuidado está presente na rotina de mulheres e homens. Confira a opinião de uma especialista

Diagnóstico precoce do câncer de mama salva vidas

O câncer de mama continua sendo um dilema de saúde pública mundial e atualmente é o tumor mais comum no mundo e o mais letal no Brasil. Doença superou o câncer de pulmão como o mais comumente diagnosticado no mundo, de acordo com o relatório mais recente publicado no Cancer Journal for Clinicians, que estima que houve cerca de 2,3 milhões de novos casos em 2020, representando 11,7% de todos os novos casos de câncer. Para o Brasil, estimam-se que 66.280 casos novos de câncer de mama, para cada ano do triênio 2020-2022. Esse valor corresponde a um risco estimado de 61,61 casos novos a cada 100 mil mulheres, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).

A conscientização sobre o câncer de mama – através de campanhas mundiais como o Outubro Rosa –, a atenção do público e os avanços nas imagens da mama tiveram um impacto positivo no reconhecimento e na triagem do tumor. Dentre todas as doenças malignas, o câncer de mama é considerado uma das principais causas de morte em mulheres na pós-menopausa, sendo responsável por 23% de todas as mortes por câncer. Boa parte desse número, causada pelo diagnóstico tardio e a negligência com a checagem clínica do próprio corpo, mas principalmente das mamas.

Mudanças no estilo de vida das mulheres tendem a aumentar os fatores de risco da doença, associado a ocorrências como a ausência da maternidade, realização de intervenção hormonal, a maternidade após os 30 anos de idade; bem como maus hábitos, a exemplo do sedentarismo, da má alimentação, obesidade, tabagismo e consumo de álcool em excesso, além do histórico familiar de câncer, sendo a idade o principal fator de risco para o diagnóstico do câncer de mama, no qual a faixa etária de incidência é mais frequente em mulheres acima dos 40 anos, segundo estudo de especialistas em Saúde Coletiva da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) de 2015.

A radiologista Mirela Ávila, confirma o perfil das que contraem a doença, mas ressalta que o fator hereditário e o histórico familiar acometem uma porcentagem menor de mulheres no país.

“No Brasil, uma em cada oito mulheres terá câncer de mama ao longo da vida. Infelizmente, cerca de metade dos casos no país ainda é diagnosticada numa fase mais avançada da doença. A principal faixa etária de acometimento do câncer de mama é entre 50 e 70 anos de idade. Sendo que em torno de 20% a 30% ocorrem abaixo dos 50 anos. É bem mais raro antes dos 35 anos. História familiar de câncer em parentes de primeiro grau é um fator de risco importante a ser considerado, porém apenas 10% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama possuem algum antecedente na família”, explicou Ávila ao LeiaJá.

Há 11 dias no Outubro Rosa, médicos especialistas, famílias e a saúde coletiva no geral tentam entregar aos lares brasileiros o incentivo à prevenção, que teve redução drástica durante a pandemia. Segundo levantamento da Fundação do Câncer, com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS), houve queda de 84% no número de mamografias feitas no Brasil durante a pandemia do novo coronavírus, em comparação ao mesmo período no ano anterior. A ONG Oncoguia estima que a pandemia pode ter deixado 4 mil casos sem diagnóstico no país, considerando que cerca de um milhão de mulheres deixaram de fazer exames preventivos.

“A prevenção é a chave para uma vida saudável, para um diagnóstico precoce e consequentemente, tratamentos menos agressivos e maiores chances de cura e controle eficaz da doença. O Outubro Rosa vem para reforçar todos os anos a importância desse autocuidado, disseminando informações, ampliando o acesso à exames clínicos e de imagem para muitas mulheres e fortalecendo diversas ações sociais”, reafirma a radiologista.

Abaixo, a reportagem preparou a continuação da entrevista com a especialista convidada, a fim de tirar dúvidas gerais de interesse público sobre o câncer de mama. Acompanhe:

– Mirela Ávila, médica radiologista e especialista em diagnóstico por imagem da mama

LJ: A prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama ainda são práticas pouco exercidas pela população? Caso sim, o que afasta essas pessoas do tratamento correto e desde cedo?

MA: Sim, infelizmente ainda vemos muita resistência às medidas de prevenção, porque na verdade, são hábitos que devem ser incorporados desde os primeiros meses de vida. A prevenção do câncer de mama se faz por duas vias, uma primária, que se constitui na atitude de adotar uma vida saudável, como praticar atividades físicas regulares, alimentação equilibrada, dormir bem, não fumar, não exceder a ingestão alcoólica. Isso significa buscar uma atitude positiva consigo mesmo durante toda a vida.

A prevenção secundária é a busca ativa pelo câncer, através de exames, incluindo o autoexame mensal, que permite a percepção pela própria pessoa de sinais de alerta nas mamas, e os exames de imagem (mamografia, ultrassonografia ou ressonância magnética), que podem identificar a doença nas fases iniciais, quando as chances de cura são elevadíssimas, chegando a 95%. Infelizmente grande parte das mulheres diagnosticam a doença em fase mais avançada, levando a tratamentos mais agressivos e reduzindo as chances de cura.

LJ: Quais os maiores mitos relacionados à prevenção? Há algum tipo de preconceito?

MA: A ideia de que a prevenção vai anular a chance de ter um câncer é o maior mito de todos. As medidas de prevenção reduzem sim as chances de desenvolver um câncer ou de detectá-lo em estágios avançados. Porém não podemos assumir que as medidas de prevenção constituem uma garantia de que a doença não vai ocorrer, mas vai proporcionar uma situação bem mais favorável para a cura.

O oposto também é um mito comum, quando muitos dizem que não existe prevenção ao câncer de mama. As medidas de prevenção reduzem em até 30% as chances de desenvolver o câncer. Por outro lado, existem ainda aquelas pessoas que por um medo incontrolável, preferem pensar que é melhor não procurar pelo câncer, e não realizam o autoexame ou exames de imagem, “pra não achar o que não quer”. Este é um dos maiores preconceitos, e representa uma omissão perigosa para a mulher.

LJ: Qual a forma correta de autoexaminar?

MA: O autoexame não deve seguir um padrão para todas as pessoas e não deve representar mais uma obrigação estressante. O importante é que cada uma conheça seu corpo para poder perceber caso uma alteração diferente apareça. O ideal é realizar uma inspeção mensal, e naquelas que menstruam, fazer logo após a menstruação.

LJ: No autoexame, quais sinais podem indicar a existência de um problema? A qual profissional recorrer?

MA: As principais alterações são alterações da forma dos seios, como retração da pele ou do mamilo, nódulo palpável e saída de secreção pelo mamilo. Ao perceber qualquer alteração, não se desespere, é comum ocorrerem modificações cíclicas nas mamas e que não representam patologias. Mas é fundamental procurar um médico especialista para avaliar o problema, ginecologista ou mastologista, de preferência.

LJ: Homens (cis) devem fazer checagem de rotina? Como trazer esse público para a realidade da prevenção?

MA: O câncer de mama no homem pode ocorrer, mas é muito raro, portanto, não há necessidade de que esse grupo realize rastreamento de rotina com exames de imagem. Porém é importante que o homem procure avaliar suas mamas periodicamente, através de uma palpação simples, e ao perceber alguma alteração, deve buscar atendimento com um especialista, de preferência um mastologista.

LJ: Quais são os exames diagnósticos para o rastreamento do câncer de mama? Quando devemos realizá-los?

MA: Em geral, é recomendado o rastreamento com mamografia anual a partir dos 40 anos e que vai se mantendo até a idade em que a mulher deixe de ter uma expectativa de vida maior. Aquelas mulheres que possuem fatores de risco, como antecedente familiar de câncer de mama ou ovário em parentes de primeiro grau, ser portadora de mutações genéticas, ter passado por tratamento com irradiação do tórax antes dos 30 anos, o rastreamento deve ser mais intenso e precoce, podendo iniciar antes dos 30 anos de idade. Nessas mulheres são adicionados outros métodos complementares, como a ressonância magnética e a ultrassonografia.