Tubarão: desrespeito de banhistas aumenta risco de ataques

Mesmo com postos de fiscalização, bandeirolas, placas de orientação e recomendações de autoridades, banhistas da RMR teimam em pôr a vida em risco em troca de um mergulho

por Victor Gouveia qua, 14/07/2021 - 14:44
Júlio Gomes/LeiaJáImagens Bandeirola de alerta fixada no local onde Marcelo Rocha Santos foi atacado na igrejinha de Piedade Júlio Gomes/LeiaJáImagens

Bandeirolas alertam para o perigo do mar de Piedade, mas a morte de Marcelo Rocha Santos, de 51 anos, no último sábado (10), parece que não amedronta o banho dos frequentadores da área da igrejinha, em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife (RMR). O local concentra a maioria dos ataques de tubarão registrados em Pernambuco, que acumula 66 incidentes e 26 mortes relacionadas ao predador nos últimos 29 anos.

O engenheiro de pesca e curador do Museu dos Tubarões, Leonardo Veras, explica que a configuração geográfica de Piedade permite que os animais cheguem mais perto dos humanos. "É uma área aberta, sem proteção dos recifes e isso dá acesso a animais de grande porte com mais facilidade à beira da praia", justificou.

Mesmo com cerca de 19,35% do total de incidentes do Estado notificados nessa região pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (CEMIT), vinculado à Secretaria de Defesa Social (SDS), banhistas mais incrédulos teimam em pôr a vida em risco em troca de um mergulho. Já os que respeitam os alertas do Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar) apelam para os chuveirões instalados por barraqueiros para suportar o calor.

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Há três anos, não era registrado ataque de tubarão na RMR. Entretanto, o caso fatal do último sábado reacendeu o medo da presença de predadores na localidade. "A intensidade do ataque caracteriza com duas espécies que existem na região, que são o cabeça chata e o tigre. Para saber qual das duas foram, teria que ter uma investigação da mordida com fotografias ampliadas. São dentes diferentes", sugere Leonardo Veras, que recomenda uma análise mais aprofundada do prejuízo à vítima.

Além da falta de barreiras naturais, o CEMIT lembra que estamos no pior período para o banho de mar, já que a água costuma ficar turva e propícia para uma maior frequência de ataques. "Entre maio e agosto aumentam as chuvas e o vento e, com eles, a probabilidade de incidentes", advertiu em nota.

"A melhor prevenção é não entrar no mar", ressalta o especialista, que pede mais educação da população e um reforço no efetivo de fiscalização na área. O Comitê informou que as praias consideradas de risco possuem mar aberto, canal submarino e uma incidência de animais marinhos. Por isso, aproximadamente 33km do litoral pernambucano recebeu 110 placas de orientação e bandeirolas de alerta.

Placas deterioradas próximas ao local do último ataque na praia de Piedade. Foto: Júlio Gomes/LeiaJáImagens

O perigo de entrar no mar entre as praias de Del Chifre, em Olinda, e do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, fez com que o nado e outros esportes náuticos como surfe e body boarding fossem proibidos por meio de decreto em 1999, quando houve o 30º incidente, que vitimou o 23º surfista em Pernambuco.

A restrição do decreto 21.402/99 foi reiterada em julho de 2014, com a publicação da determinação estadual 40.923. Desse modo, em caso de desobediência, o infrator pode ser conduzido pelos bombeiros à delegacia e, caso desrespeite a ordem, pode ser autuado por desacato.

A reportagem do LeiaJá também procurou a Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes para saber se há a intenção de propor novas medidas para reduzir a frequência de incidentes no município. Em nota, a gestão respondeu que “mantém sinalização nas áreas identificadas como de alto risco de ataque de tubarões, bem como atua junto aos comerciantes e ambulantes cadastrados no sentido de massificar as informações sobre os riscos junto a banhistas e consumidores". "Além disso, a orla do município conta com o apoio do Corpo de Bombeiros na fiscalização e intervenções preventivas", acrescenta a nota.

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