Pernambuco confirma caso de mucormicose, o 'fungo negro'

Residente no Agreste do Estado, vítima tem 59 anos. Caso é investigado e, até o momento, não foi confirmada associação com Covid-19

por Nathan Santos dom, 06/06/2021 - 18:26
Pixabay Médicos acompanham o tratamento da paciente no Recife Pixabay

A Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco (SES-PE) confirmou a ocorrência de um caso de infecção por mucormicose, quadro conhecido popularmente como “fungo negro”. O órgão foi notificado sobre o diagnóstico, neste domingo (6), pelo Hospital Universitário Oswaldo Cruz, localizado no Recife. A vítima tem 59 anos e sofreu Covid-19 em março deste ano, mas, até o momento, não há parecer oficial que comprove vínculo entre as enfermidades.

Conhecida há mais de um século, a mucormicose é ocasionada por fungos do tipo “Mucorales” e, assim como outros fungos com potenciais inflamatórios, prejudica pacientes com sistema imunológico fraco. A doença pode acometer nariz e outras mucosas, com sintomas que variam conforme a localização da infecção. “Nos pulmões, pode haver tosse, expectoração e falta de ar. Na face e nos olhos, pode ocorrer vermelhidão intensa e inchaço”, explica a SEE.

A paciente em questão é moradora da cidade de Casinhas, no Agreste do Estado. De acordo com a SES-PE, além do novo coronavírus, a mulher teve um quadro de pneumonia bacteriana, bem como a pasta informou que notificou o Ministério da Saúde sobre o fungo negro e realiza investigação para identificar se existe associação com a Covid-19.

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, a mulher está curada da Covid-19, porém, durante o seu tratamento, usou antibiótico e corticóides, mesmo sem ter sido hospitalizada. “Ela é diabética, hipertensa, asmática e obesa, e está internada em enfermaria no Huoc, desde a última sexta-feira (04/06), consciente e com quadro de saúde estável. Antes da admissão no hospital universitário, ela passou por outros serviços, tendo, inclusive, realizado procedimento cirúrgico na região afetada – boca -. A infecção por murcomicose foi confirmada por meio de exame histopatológico”, informou a pasta. 

O médico infectologista do Hospital Oswaldo Cruz, Thiago Ferraz, comunicou que o caso de fungo negro só foi identificado um mês depois de a paciente ter tido o novo coronavírus. Ele explana que a vítima possui fatores que podem ter facilitado a infecção, como a diabetes.

“No caso da paciente, ela possui fatores de risco clássicos para infecção por esse fungo e a associação com a Covid-19 ainda está sendo estudada, visto que a infecção veio a acontecer trinta dias após os sintomas da Covid e quando já estava curada. Essa paciente já está recebendo o tratamento medicamentoso, já foi submetida a uma cirurgia, que fez a maior parte da higiene cirúrgica para a retirada desse fungo. No entanto, ainda vai ser submetida a outras investigações por imagem e reavaliações com especialistas, visto que a paciente ainda tem alguns sintomas característicos da presença desse fungo no nariz e nos seios da face”, disse o médico, conforme informações da assessoria de comunicação da SES.

O infectologista Demetrius Montenegro, chefe do setor de doenças infectocontagiosas do Huoc, esclarece que o fungo negro não é transmitido de uma pessoa para outra pessoa. “A murcomicose é uma doença já conhecida, que ocorre em todo o mundo. Apesar da gravidade, a doença não passa de uma pessoa para outra e o diagnóstico precoce é o mais importante, para evitar a necrose dos tecidos infectados pelo fungo. A paciente continua sendo tratada e avaliada para que possamos ver a necessidade de intervenções cirúrgicas futuras”, explanou. “Frisa-se que nenhum dos contatos próximos ao caso apresentou essa doença fúngica, que não representa nem risco aos familiares nem à comunidade. É importante ressaltar, ainda, que a doença está ligada à baixa imunidade e uso prolongado de corticóide e antibióticos”, acrescentou a Secretaria de Saúde.

O órgão explica, ainda, como a doença pode ser causada: “A causa dessa enfermidade é a inalação dos esporos dessas espécies de fungo, que estão normalmente presentes no ambiente, com destaque para locais com matéria orgânica em decomposição no solo, plantas, excrementos de animais e outras. Casos são raros, mas não são inusitados. Estão mais vulneráveis a essa doença fúngica, principalmente, os imunodeprimidos (idosos, diabéticos, pacientes oncológicos, transplantados, casos de Aids não controlada, pessoas em tratamento quimioterápico e/ou com uso de corticóides). O tratamento para a doença depende do avanço da infecção e inclui remoção cirúrgica dos tecidos necróticos e uso de drogas antifúngicas de uso intra-hospitalar.  O diagnóstico, após a suspeita clínica, é feito com biópsia do local afetado para microscopia e cultivo”.

De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco, foram registrados no Brasil, em 2021, 29 casos de mucormicose. Desse total, segundo a pasta, 19 são investigados por possível associação com a Covid-19.

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