Bolsonaro quis alterar a bula da cloroquina, diz Mandetta

Presidente fez solicitação à Anvisa, com interesse na livre prescrição do medicamento para o combate à Covid-19

por Vitória Silva ter, 04/05/2021 - 15:42

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sugeriu alterar a bula da hidroxicloroquina — medicamento ineficaz contra o coronavírus — para que o medicamento fosse indicado ao tratamento da Covid-19. A solicitação teria sido feita à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas foi negada pelo presidente do órgão, Antonio Barra Torres. Essa informação já havia sido mencionada por Mandetta em maio de 2020, mas voltou à tona durante o seu depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, nesta terça-feira (4). O especialista comparece à CPI na condição de testemunha.

A sugestão ao órgão fiscalizador surgiu através de uma reunião ministerial no Planalto, e segundo o médico, ele havia sido informado apenas na hora do encontro que ministros se reuniriam para debater o uso da cloroquina. O ex-chefe da Saúde do Governo também diz que o presidente e aliados possuíam um “assessoramento paralelo” e que testemunhou várias vezes, “em reuniões de ministros, o filho do presidente [Carlos Bolsonaro], que era vereador no Rio de Janeiro, tomando as notas da reunião. Eles tinham constantemente reuniões com grupos dentro da presidência”.

"Nesse dia (da reunião ministerial), havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não-timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido daquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação da cloroquina para coronavírus. E foi inclusive o próprio presidente da Anvisa, [Antônio] Barra Torres que disse não", afirmou.

Em seu depoimento, o ex-ministro disse ainda que Bolsonaro questionava o uso da cloroquina para o tratamento precoce, mesmo sem evidência científica, e que as informações às quais o presidente tinha acesso certamente vieram do tal assessoramento, pois o uso do medicamento jamais foi uma sugestão do Ministério.

“Me lembro do presidente sempre questionar a questão ligada a cloroquina como a válvula de tratamento precoce, embora sem evidência científica. Eu me lembro do presidente algumas vezes falar que ele adotaria o chamado confinamento vertical, que era também algo que a gente não recomendava", pontua.

Mandetta disse que o Ministério da Saúde seguia a "cartilha da organização mundial de saúde" e que se ele tivesse adotado a teoria de que o vírus não chegaria no Brasil teria sido uma "carnificina".

"[...] do Ministério da Saúde nunca houve a recomendação de coisas que não fossem da cartilha da Organização Mundial de Saúde, dessas estruturas todas, era o que a gente tinha, não por sermos donos da verdade, não, pelo contrário, nós éramos donos da dúvida, eu torcia muito para aquelas teorias de que ‘ah, o vírus não vai chegar no Brasil’, agora, se eu adotasse aquela teoria e chegasse, teria sido uma carnificina”, afirmou.

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