Visibilidade trans: até quando será apenas uma data?

Vidas e vozes silenciadas marcam o dia a dia de quem decidiu bater de frente com a sociedade e enfrentar a discriminação e o preconceito

qua, 14/04/2021 - 11:33
Arquivo pessoal Com registro civil, Franciele Neriah comemora vitória Arquivo pessoal

Janeiro é considerado o mês dedicado à visibilidade trans. A data foi definida em 29 de janeiro de 2004, quando homens e mulheres trans e travestis foram até o Congresso Nacional com a campanha Travesti e Respeito, pautando a visibilidade das vidas trans e a promoção da cidadania. Mas, 17 anos depois, para as pessoas trans, o Brasil ainda é o retrato da falta de direitos, do preconceito e da violência.

De acordo com a ONG Transgender Europe (TGEU), responsável por monitorar 71 países, o Brasil é o que país que mais mata transexuais no mundo. Em 2020, o Brasil teve 175 assassinatos de pessoas trans. Segundo o relatório anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra), o número equivale a uma morte a cada dois dias. Todas as vítimas eram mulheres não cis (leia sobre gêneros aqui), e em sua maioria negras, pobres e que trabalhavam como prostitutas na rua.

A prostituição é um dos principais motivos do número alto de mortes. Sem perspectivas e sem o apoio da família, da sociedade e do mercado de trabalho, grande parte das mulheres trans acaba seguindo esse caminho que, por muitas vezes, é o único que pode gerar a renda necessária para sobreviver. Expostas aos perigos da rua, muitas se tornam estatística. O fator está diretamente ligado ao baixo tempo médio de vida de uma pessoa trans, que é de apenas 35 anos, enquanto a expectativa de vida da população em geral - pessoas cis e heterossexuai s- é de 75,5 anos.

As dificuldades começam dentro de casa. Com medo da reação da família, muitas transexuais demoram a iniciar o tão sonhado processo de transição, período pelo qual uma pessoa passa para se adequar ao gênero a que ela realmente sente pertencer, podendo se submeter a tratamentos hormonais, cirúrgicos, fonoaudiológicos, entre outros.

É o caso da universitária Bruna Tavares, nascida em um âmbito familiar conservador, que já se identificava como mulher trans desde os 15 anos, mas só conseguiu dar os primeiros passos aos 19. “A parte mais difícil de todo esse processo foi contar para as pessoas mais próximas que eu estaria começando uma transição. Muitas pessoas não esperavam que eu fizesse algo assim. Depois da transição, eu pude ser mais eu mesma, isso me abriu portas. Fiquei mais confiante comigo mesma”, disse.

A estudante, no entanto, ainda sente medo de andar na rua. “Ser uma pessoa trans no Brasil é muito complicado. A gente sai na rua e bate aquele medo de alguém estar percebendo que somos trans. Sempre vemos notícias de transexuais sendo mortas. Não deixa de passar pela nossa cabeça que poderia ter sido eu ou alguma amiga próxima. Vivemos com um medo constante de uma coisa simples, que é ser quem a gente é”, desabafou.

Um dos casos de maior repercussão e que causou comoção mundial foi o assassinato da travesti Dandara Santos, de 42 anos, em 15 de fevereiro de 2017, no Ceará. O homicídio obteve visibilidade após o compartilhamento, nas redes sociais, do vídeo que mostra a vítima sendo agredida por um grupo no meio da rua. 

A gravação, com pouco mais de um minuto, mostra os momentos de tortura e agressão, realizados por pelo menos quatro homens, com chutes, chineladas e pedaços de madeira. Ao final, é possível ver os culpados descendo a rua, com a travesti desacordada num carrinho de mão. O crime não parou por aí. Dandara foi morta a tiros.

Uma escultura em homenagem à travesti foi exposta em Nova York, em 2019. A obra, do artista Rubem Robierb, simboliza as asas de uma borboleta. A intenção foi representar a ideia de tolerância, e de que as pessoas devem acreditar em seus sonhos.

Em 2020, A Câmara Municipal de Fortaleza aprovou um projeto que denomina uma rua com o nome de Dandara Ketley, no bairro Bom Jardim, onde a travesti foi assassinada. A proposta é conscientizar sobre a necessidade de políticas públicas que promovam a proteção e a cidadania.

Mesmo com o alto índice de violência, conquistas também marcam os anos de luta. Nos últimos 17 anos, a população trans conseguiu passar a doar sangue e caracterizar a transfobia como racismo, além de obter o direito a mudar seus nomes de registro civil, como é o caso da digital influencer de Belém do Pará Francielle Neriah, que leva, com frequência, informações e vivências de sua realidade como pessoa trans.

Os seguidores puderam acompanhar todo o seu processo de transição. “Não é uma vitória de casa, uma vitória de bem material, é uma vitória de bem-estar espiritual, ainda que eu saiba que sou mulher, não por ter silicone ou traços femininos, mas sim por agora ter meu registro civil feminino. Isso significa que eu, como mulher trans, posso obter os mesmos direitos que as demais, porque além de ser mulher de alma, sou uma mulher em documento. Não foi fácil, mas eu consegui”, declarou.

A influencer conta que, antes da transição, se sentia feliz, mas não completa, e não conseguia se ver no futuro sendo Forlan - seu nome de batismo. “Não tinha como eu me ver e me idealizar com algo que não era eu. A partir do momento em que eu me libertei, consegui querer ter minha casa, querer ter meu espaço, meu lugar de fala, querer voltar a sonhar sabendo que eu estaria me encaixando naquilo que eu me vejo”, contou.

por Lucas Ribeiro, André Maia e Larissa Silva.

 

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