Um ano da Covid:os incansáveis ‘heróis’ da linha de frente

O primeiro caso da Covid-19 em Pernambuco foi registrado no dia 12 de março, desde então os profissionais de saúde travam uma guerra contra esse vírus que já infectou mais de 300 mil pessoas no Estado

ter, 02/03/2021 - 16:21
Rafael Bandeira/LeiaJáImagens Profissionais de saúde recebem primeiras doses da vacina contra covid-19 em PE Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

No próximo dia 12 de março Pernambuco marca um ano dos primeiros casos confirmados da Covid-19. Desde então, aquilo que começou com dois pacientes, se espalhou para mais de 300 mil pessoas no Estado. Na linha de frente do combate ao novo coronavírus estão os profissionais de saúde.

O empenho desses profissionais pernambucanos começou na terça-feira de Carnaval de 2020, quando o primeiro caso suspeito da Covid-19 apareceu em Pernambuco. Demétrius Montenegro, primeiro infectologista a atuar no combate desse vírus no Estado, estava fantasiado de cavaleiro templário, pronto para se despedir do Carnaval no Recife Antigo, quando recebeu uma ligação do SAMU.

Soube que uma mulher, de 51 anos, vinda da Itália, estava sendo levada para o Hospital Oswaldo Cruz, localizado na área central do Recife, após apresentar os sintomas da Covid-19 - descartada após exames. Diante disso, Demétrius teve que trocar a fantasia do cavaleiro e colocar o jaleco do ‘herói’.

Desde então, Montenegro e outros milhares de profissionais de saúde são os principais atores no combate ao novo coronavírus. “Vocês não imaginam como é para um profissional de saúde conviver no dia a dia com essa situação de mortes por essa doença, uma doença da solidão”, destaca o infectologista.

A proximidade com o sofrimento dos pacientes, a angústia dos familiares, os hospitais lotados, mortes, a falta de suprimentos e o medo de serem infectados por preocupação com os seus entes queridos acarretaram na fadiga e adoecimento mental dos profissionais de saúde.

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A técnica de enfermagem Edvane Márcia de Lima, 35 anos, atua no combate à Covid-19 desde o início da pandemia, vivenciando todas as curvas de contaminações em Pernambuco.

"Chegou um momento que a gente estava tratando o óbito como se fosse uma coisa natural. Quando tinham dois óbitos, a gente dava graças a Deus, quando na verdade a gente tinha que torcer para não ter nenhum. Infelizmente, aquilo começou a ser normal”, lamenta Edvane

Ver tanta gente morrendo por conta desse vírus teve um preço e ela precisou de ajuda psicológica. “Eu não consegui manter o meu psicológico. Comecei a ter crises de ansiedade, sem saber o porquê. No hospital, eles disponibilizaram uma sala de psicologia para os pacientes e funcionários. Tinha dias que você pensava assim: ‘poxa, tanta quantidade de respiradores que foram usados, será que foram tantos óbitos que aconteceram?’ A gente começou a ficar em pânico em ver tanta gente morrendo”, aponta.

A técnica de enfermagem Perpétua Socorro Barbosa dos Santos, 52 anos, agradece a Deus por não ter nenhum dos seus familiares infectados ou mortos por conta do novo coronavírus.

No entanto, a profissional lembra que o pânico de um colega, que atuava na linha de frente, foi tão grande que ele acabou sofrendo um infarto e morrendo. "A realidade é que a gente tem que driblar o nosso psicológico, tem que trabalhar bastante porque o nosso psicológico está bastante abalado. A gente está muito cansado espiritualmente e fisicamente porque não é brincadeira trabalhar com paciente na área da Covid - a atenção é três vezes mais", assevera Perpétua.

O último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde mostra que 90.356 casos de Síndrome Gripal (SG) suspeitos de Covid-19 em profissionais de saúde foram notificados no Brasil. Destes, 22.065 (24,4%) foram confirmados para covid-19. As profissões de saúde com maiores registros dentre os casos confirmados de SG por covid-19 foram técnicos/auxiliares de enfermagem (6.531), seguidos de enfermeiros (3.817), médicos (2.790), cirurgiões-dentistas (1.046) e agentes comunitários de saúde (1.003).

Vacina

Em Pernambuco, até agora, 26.594 casos foram confirmados e 46.517 descartados. As testagens entre os trabalhadores do setor abrangem os profissionais de todas as unidades de saúde, sejam da rede pública (estadual e municipal) ou privada.

Para o infectologista Demétrius Montenegro, a única coisa que pode melhorar a situação pandêmica é a vacina. “Hoje o mundo tem a chave para cortar essa cadeia de transmissão, no entanto, o Brasil está ficando para trás porque não fez uma preparação logística para a aquisição de um número adequado de vacinas para esse início de campanha'', revela.

416.634 doses da vacina contra a Covid-19 foram recebidas pelo Governo de Pernambuco, que já distribuiu as doses para todas as cidades pernambucanas. Segundo detalhado pela Secretaria Estadual de Saúde, das doses recebidas, 305 mil foram as primeiras aplicadas. Ao todo, foram feitas a primeira dose em 240.528 trabalhadores de saúde; 46.175 povos indígenas aldeados; 9.964 idosos em Instituições de Longa Permanência; 9.963 Idosos de 75 a 79 anos; 29.781 idosos entre 80 e 84 anos; 79.227 idosos a partir dos 85 anos, além de 1.296 pessoas com deficiência institucionalizadas.

Para o clínico Elton Pedrosa, que atua na linha de frente desde o início da pandemia da Covid-19, sem uma vacinação em massa vai ser difícil voltar à normalidade. Inclusive, para o médico, a possibilidade do Carnaval do próximo ano acontecer é muito pequena.

“A gente ainda não consegue ter a previsão de um Carnaval no ano que vem ou ter um São João neste ano. Espero que sim, que a gente consiga no decorrer do ano ter grandes avanços e uma previsão melhor para o ano que vem. Pensando no momento, infelizmente, a gente não tem esperança de uma data de quando tudo vai normalizar. Vamos pensar em manter o cuidado e se confraternizar com os nossos de uma maneira mais segura possível”, reforça.

As brigas diplomáticas e o negacionismo do governo brasileiro - além da desacreditação da importância da vacina - são os principais fatores para que o Brasil, que conta com um sistema de vacinação nacional referência no mundo todo, não conte com um número adequado das doses das vacinas disponíveis no mundo todo.

Novas Cepas

O infectologista Demétrius Montenegro explica que já existe no banco de dados mundial sobre as variantes da SARS Cov 2 mais de 2 mil variantes catalogadas, porém, só três têm uma importância clínica maior: a brasileira, do Reino Unido e da África do Sul.

“Essas mutações ocorrem em um processo de replicação viral que já é esperado.A preocupação é que tipo de mutação pode surgir para que venha a piorar essa situação  epidemiológica. É possível que um vírus em uma mutação dessa se torne mais agressivo e com uma letalidade maior”, analisa o profissional.

A circulação dessas três variantes do novo coronavírus é objeto de estudo e preocupação de pesquisadores e autoridades sanitárias ao redor do mundo, já que alterações na principal proteína usada pelo vírus para infectar as células humanas tornam essas novas linhagens potencialmente mais transmissíveis.

O infectologista diz que ainda não se sabe se a variante brasileira, descoberta no Amazonas, trará uma letalidade maior, até porque existem algumas situações que podem estar misturadas neste processo. Primeiro é o grande número de pessoas contaminadas num período e o colapso da situação da saúde no Amazonas, culminando na falta de oxigênio.

Isso aumentou muito a mortalidade nas terras amazonenses, por isso não se sabe se o colapso registrado no Amazonas é o responsável por esse aumento da letalidade, ou se o vírus contribuiu para essa situação. Segundo o cirurgião Elton, o surgimento das novas cepas se dá pelo contato interpessoal e contaminação entre pessoas dos mais diversos grupos. Com isso o vírus vai se adaptando e surgindo novas variantes.

“É mais um desafio no meio do furacão a gente tentar reverter ele, quando pensava em desacelerar. Todo dia é uma novidade desafio e isso exige ainda mais da gente, mais um fôlego no cuidado e na prevenção para que a gente evite essa transmissão da maneira mais eficaz possível”, pontua.

*Por Jameson Ramos

 

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