Mulheres buscam mais força no espaço político

Luta é para ampliar representatividade e conquistar liderança e voz em território historicamente dominado por homens

sex, 06/03/2020 - 16:41

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A entrada das mulheres na política é um processo muito recente, de meados do século XX, segundo a professora Brenda de Castro, mestra em Ciência Política. “A gente demorou muito tempo para adquirir direitos básicos, de liberdade individual no contexto civil e o próprio direito de participação e envolvimento político. A nossa geração ainda vive um processo recente da garantia e da certeza desses direitos. É um processo que tem crescido no mundo, mas de forma desigual, pois alguns países têm mais participação, envolvimento político e direitos civis do que outros”, explicou.

No Brasil, de acordo com a professora, existe um aumento gradativo da participação da mulher na política, seja em cargos representativos diretos, seja no processo de envolvimento por movimentos sociais e outras esferas. Porém, na visão dela, ainda está muito longe do desejado ou até mesmo do recomendado por instituições internacionais e pela nossa legislação. “Atualmente, na Câmara dos Deputados, apenas 15% são mulheres, enquanto a legislação incentiva a cota de 35% nos partidos. Isso mostra que muito precisa ser feito e que a representatividade é mais do que apenas mulheres estarem fisicamente presentes em espaços políticos que sempre foram vistos como espaços que elas não deveriam ocupar”, informou a professora.

Para Luciana Leal, 39, pré-candidata a vereadora, a participaçaõ feminina na política tem que avançar. “A política é vista hoje como algo sujo. Precisamos ir contra esse pensamento, no qual os homens têm que tomar decisões e fazem leis para mulheres. Está na hora de nós fazermos nossas próprias leis”, disse a pré-candidata.

Ainda de acordo com Luciana, infelizmente a classe feminina é muito desunida. As mulheres, observa, são criadas em um sistema que as ensina a competir entre si.

 “A política sempre foi muito atrelada, na tradição ocidental europeia, a um espaço masculino. É interessante perceber que existe uma questão cultural que desincentiva a participação das mulheres, com ideias de que, por exemplo, as mulheres são mais emotivas, são irracionais e não conseguem lidar com questões do poder, e que homens seriam mais aptos, biologicamente, para desempenhar essa função”, afirmou Brenda. Segundo ela, é possível perceber também o quanto as mulheres são atacadas pela aparência nesse meio, além de serem colocadas como desestabilizadas.

Segundo a professora Brenda, algumas movimentações nos últimos anos têm feito a mulher perceber a necessidade de ocupar espaços políticos, entendendo seu papel como cidadã e entendendo que tem que haver envolvimento. Brenda acredita que daqui a algumas gerações, apesar de todos os empecilhos, a sociedade continuará nesse ritmo, no sentido de defender e alcançar direitos, e também de participar de discussões, pautar demandas e identificar novas soluções.

Sexismo e preconceito

As maiores dificuldades que as mulheres enfrentam na política são o sexismo e o preconceito moral. Segundo Pamela Massoud, 33 anos, 1ª suplente de vereadora em Belém, as mulheres acabam entrando na política vistas como laranjas, apenas para ocupar cargos. “Temos outro problema também. Quando a mulher ocupa um espaço de liderança na política, no Legislativo ou Executivo, as pessoas não acatam de primeira as decisões que elas tomam”, explicou a suplente.

Estrella Cristina, 29, líder nacional da Juventude do Partido Cidadania, começou a fazer política para se posicionar como voz de mulheres que ainda não conseguiram falar do que querem, do que passam e do que sentem. “Acredito que a mulher tem o poder de transformar as coisas e a vida das pessoas. As mulheres têm muito a contribuir com a sociedade. Estou na politica para incentivar outras mulheres a serem pessoas políticas, para que essa transformação aconteça”, declarou. A líder encoraja dando seu próprio exemplo de superação, para que as mulheres saibam que elas também podem estar no mesmo lugar que Estrella, sendo vistas, ouvidas e lutando por direitos.

A cientista política Brenda de Castro conclui que, nos últimos anos, é perceptível um engajamento cada vez maior de mulheres jovens na política. “É interessante porque traz renovação. Temos uma classe política muito masculina, muito branca e muito mais velha. Trazer novos pontos de vistas, novas soluções e novos desafios é fundamental para que os representantes políticos simbolizem a diversidade da sociedade”, declarou.          

Por Ana Luiza Imbelloni e Quezia Dias.

 

 

 

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