Bicicletas carregam vidas; ciclistas carregam insegurança

Intimidados entre os carros, eles clamam por respeito e visibilidade do poder público diante de infratores. As condições estruturais da malha cicloviária, bem como sua extensão, foi outro anseio revelado pelos que usam a bicicleta como modal de transporte

por Victor Gouveia dom, 22/09/2019 - 11:00
Júlio Gomes/LeiaJáImagens Após colisão, a produtora cultural Laura Cavalcante sentiu na pele a insegurança do trânsito recifense Júlio Gomes/LeiaJáImagens

Expandida sem o devido planejamento, a cidade do Recife sofre com o trânsito caótico, e enste ambiente parte da população aderiu ao uso da bicicleta como meio de transporte. Presumindo estar protegido por leis federais e municipais, o ciclista vive uma rotina de desrespeito e insegurança, caracterizada por infrações e acidentes.

De acordo com a Secretaria de Saúde do Recife (SESAU), oito óbitos foram registrados na capital pernambucana em 2018, o que reforça a cobrança pelo olhar do poder público diante do Dia Mundial Sem Carro, comemorado neste domingo (22).

No ano passado, Recife conquistou o primeiro lugar no Brasil e o 10º no mundo de pior trânsito ao ser comparado com 403 cidades pela empresa de GPS TomTom. “A gente vive uma verdadeira barbárie. As pessoas quando entram no carro não raciocinam, nem respeitam a utilização de sistemas diferentes do delas”, destaca o professor especializado na área de transportes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Fernando Jordão.

Diante do panorama, quem opta pelo transporte individual ativo torna-se vulnerável e muitas vezes nem é percebido. Prensados entre os carros, 87% dos ciclistas do Recife apontam que a falta de segurança no trânsito e as limitações estruturais são as principais adversidades em rodar na cidade, de acordo com levantamento feito pelo Laboratório de Mobilidade da Universidade do Rio de Janeiro em parceria com a ONG Transporte Ativo.

Buracos, depredações e lixo se acumulam em ciclofaixa - Foto:Júlio Gomes/LeiaJáImagens

Ciclistas desejam uma estrutura cicloviária efetiva

Sem prioridade na via pública, mesmo com a garantia do art. 74 da Lei Municipal 17.511/2008, a principal solicitação recai sobre a ampliação da malha cicloviária. Promulgado em 2014, o Plano Diretor Cicloviário (PDC) determina que o Estado e o Município espalhem 250 km de rotas exclusivas para bicicletas no Recife até 2024. Integralmente, a intenção é criar 591 km que interliguem cerca de 14 municípios vizinhos à capital. Conforme a Autarquia de Trânsito e Transporte (CTTU), a cidade soma 84,5 km, dado que é questionado por quem utiliza.

“A malha cicloviária não chega nem perto do suficiente”, afirma a representante da Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo) Vanessa Santana. “Até o momento, a estrutura prometida não foi entregue e, nos poucos pontos onde foi implantada, não condiz com a realidade das demandas de trânsito das principais vias da cidade. Na verdade, é preciso priorizar ruas e avenidas com maior fluxo de carro, porque é nelas que também há o maior fluxo de ciclistas”, pontuou.

O art. 58 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece que, na falta de ciclovia, a circulação de bicicletas deverá ocorrer nas vias urbanas, plos bordos da pista, com prioridade sobre os carros. Entretanto, a condição da cidade inviabiliza tal cumprimento, como argumenta o professor Fernando: “Como toda cidade antiga, ela não pode atender 100% a legislação, sobretudo, a legislação moderna. Tem que entender que a cidade tem quase 500 anos”.

“Me viu e não freou”

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“Falta interesse do poder público de tirar os planos do papel e colocar em prática”, assegura Laura Cavalcante. No último dia 4 de junho, a produtora cultural de 33 anos comemorava a quebra do recorde pessoal após pedalar 27 km, quando foi atingida por um motoboy que seguia na Avenida Agamenon Magalhães, área Central do Recife. A colisão lhe rendeu três fraturas na perna esquerda, 17 dias de internamento e a necessidade de duas cirurgias para introdução de um enxerto ósseo, uma placa de platina e sete parafusos.

Há aproximadamente dois anos, ela decidiu largar o transporte público para fugir de assédios e acabou reconhecendo na bike a independência, a economia financeira e a melhoria na saúde, que almejava. Porém, o abalroamento lhe roubou a autonomia, fez retomar gastos com locomoção, deu início às dores na coluna e trouxe o encargo de participar de três sessões de fisioterapia por semana.

Com a movimentação restrita às muletas, a recuperação de Laura se estende por mais cinco meses. Mesmo com o susto, ela garante que está ansiosa para voltar aos pedais, “Voltarei sim às ruas. Pra mim, hoje em Recife, a melhor forma de me deslocar é pedalando”. Sobre a atitude do motociclista, a ciclista se resume, “Uma amiga minha falou que o motoqueiro disse que me viu e ainda assim não freou[...] Ele estava mais preocupado em entregar a comida”.

Otimização da fiscalização também é uma meta

Além da ampliação e manutenção da rede ciclável, outra reivindicação da Ameciclo é referente à fiscalização das rotas e otimização do trabalho de agentes e orientadores de trânsito. A associação compara o investimento da Prefeitura com os funcionários em contraste com a construção de ciclovias. Enquanto cada quilômetro de ciclovia está orçado entre R$ 60 mil e R$ 1.200.000 – à depender de drenagem, iluminação, sinalização e etc -; para manter um ano da operação dos 519 agentes de trânsito são necessários R$ 3.900.000, apontou a CTTU.

Somado, o salário mensal do efetivo atinge R$ 2.358.851,26, informou a entidade. Tal profissional tem o objetivo de proteger a vida e a integridade física de quem engloba o trânsito, seja pedestre ou motorista de carreta. Por meio de nota, a CTTU informou que os agentes possuem “amplo conhecimento do CTB”. Eles passam por curso de formação de 200 horas/aulas, segundo a portaria 94/2017, do Denatran, e participam de uma reciclagem a cada quatro anos.

A cidade precisa ser mais atrativa para o pedal

Mesmo postulante a uma das capitais mais belas do Brasil, parte dos ciclistas atestam que Recife não é atrativa para pedalar. "A política de educação de trânsito não funciona hoje. Acho que o que precisa é uma ação de mais impacto, segregar efetivamente as vias. Delimitar que essa via é para ciclistas circularem, e que essas vias se vinculem com outras mais à frente", reclama Laura.

Sobre o aperfeiçoamento da condição enfrentada, o especialista em trânsito considera que é necessária uma mudança "multifatorial", entre poder público e sociedade em geral. Tal processo para pela fiscalização, investimentos e educação de motoristas, ciclistas e pedestres que, apesar da prioridade, têm suas obrigações. "Se não houver uma compreensão da sociedade, não é só o poder público que vai resolver", constatou o professor Fernando.

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