Mulheres trocam a garupa pelo guidão no Planalto Central

No BCMW, um dos principais eventos do calendário do Distrito Federal, quase a metade dos visitantes em 2018 (680.000) foram mulheres, contra apenas 30% em 2014, segundo os organizadores

sex, 26/07/2019 - 09:57
EVARISTO SA (19 de jul) Membras do grupo de motoqueiras EVARISTO SA

Motores roncando, botas, capacetes e cabelos longos. No "Ladies of the Road", um dos poucos grupos femininos que participam em Brasília do maior evento de motoqueiros da América Latina, as mulheres assumem o comando das suas motos.

"A ideia é tirar as mulheres da garupa... E incentivá-las a pilotarem suas motos", conta à AFP Sandra Beccaro, uma das líderes da Ladies of The Road [Damas da estrada], durante o Brasília Capital Moto Week (BCMW), celebrado desde 2004.

Sentada em sua Harley Davidson - preta e dourada - de 1.700 cilindradas e 400 quilos, Beccaro explica que o ambiente dos motociclistas era "muito machista" e que há oito anos, quando começou a pilotar, raramente havia alguém para incentivar as mulheres a assumirem o comando das máquinas.

No BCMW, um dos principais eventos do calendário do Distrito Federal, quase a metade dos visitantes em 2018 (680.000) foram mulheres, contra apenas 30% em 2014, segundo os organizadores.

Mas ainda há muitas mulheres na garupa, uma maioria robusta de homens no guidão e os clubes femininos de motociclistas são escassos: apenas dez dos 210 inscritos este ano. Mesmo assim, um número mais expressivo que os seis de 2018.

Beccaro assegura que seu "grupo está crescendo rápido". Desde que foi criado, em 2010, conta com 680 integrantes, a maioria no Brasil e com representantes em Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai. A única regra para se somar é pilotar uma moto com mais de 600 cilindradas.

- Fora, preconceito -

Alice Castro, uma "apaixonada" por motociclismo, de 52 anos, pilota desde os 19 e participa de vários grupos, inclusive o "Ladies of the Road". Sua primeira lembrança em moto é com seu avô, quando ainda era uma menina.

Ao lado de sua Harley branca, Castro conta que o motociclismo feminino tem décadas e cita o "Motor Maids" dos Estados Unidos, fundado em 1938. Mas o "empoderamento feminino" dos últimos anos foi o empurrão definitivo para o movimento crescer.

"Nós estamos conseguindo conciliar melhor nosso lado profissional, familiar, com esta grande paixão que é o motociclismo. Nos homens, é muito comum chegar em casa, pegar a mochila e sair para viajar com os amigos. Para nós, isso ainda é algo que a gente pondera muito", afirma.

E para pilotar motos pesadas, é preciso ter confiança em si mesma e habilidade. As 'Ladies', a maioria no comando de motos com mais de 100 cilindradas, ajudam no treinamento.

"A maior dificuldade é entender que ela é capaz... Não estamos preocupadas com preconceitos", complementa Beccaro.

Para muitas, é uma terapia. "Mulheres que tiveram um problema pessoal, perderam um filho, se separaram do marido, encontram alegria no nosso grupo".

Passeando pelo BCMW com seus companheiros, todos com coletes de couro e as insígnias do Cruz de Ferro Moto Club (fundado em 1997), Alfredo Lacerda conta que "o motociclismo vem se adaptando às novas gerações".

"As mulheres estão conquistando nosso meio. Eu acho bacana, antigamente eram excluídas... E está sendo muito bem visto nos motoclubes tradicionais, os motoclubes antigos", afirma.

- Tchau, garupa -

"A garupa é boa, é bacana, é um contato que você tem com a moto. Mas você pilotar é algo totalmente novo, totalmente diferente e apaixonante", comenta Castro.

A mensagem das Ladies incentivou as mulheres como Valeria Machado. Depois de mais de uma década na garupa do marido, esta advogada de 48 anos vai tirar em breve a habilitação e terá sua própria máquina.

"Para mim não é ruim a garupa", afirma Machado, comentando o prazer em compartilhar viagens e sentir o vento no rosto na moto do marido.

Mas "não podia tomar a iniciativa de pegar e sair com a moto. Hoje eu vou ter mais independência, mais liberdade, e a autoestima melhora muito com isso também... Tendo a minha [moto] parceira para a hora que der e vier, vai ser muito melhor", diz, sorrindo.

Nada como estar no comando. "Eu acredito que toda mulher nasceu para pilotar, a diferença é que ainda não sabem", diz Castro. "Você, que ainda não pilota, experimente: é liberador", garante.

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