Cidade dos invisíveis: artesã encontra energia positiva

Neide Cereja, 55 anos, trabalha com artesanato e mora na rua, em Belém. Conheça um pouco dessa história na reportagem do projeto experimental de Trayce Melo, concluinte de Jornalismo da UNAMA - Universidade da Amazônia.

qui, 31/01/2019 - 17:58
Trayce Melo Neide Cereja, artesã, mãe de dois filhos, dorme na rua Trayce Melo

Em uma conversa descontraída, Neide Cereja, 55 anos, conta que vive há mais de 40 anos nas ruas de Belém. É artesã, sua barraquinha fica em frente à Praça da República, ela vende bijuterias, pulseiras, colares, brincos, apanhadores de sonho, objetos de decoração. Todas as peças são feitas à mão, confeccionadas por ela mesmo. “Não nasci com o alicate na mão, mas foi um dom que Deus me deu”, conta.

A artesã decidiu viver nas ruas por causa de uma decepção familiar. Mas às vezes, aos domingos, ela volta para casa, em Benevides, município distante cerca de 30 quilômetros de Belém, onde moram seus dois filhos. Uma das coisas de que ela mais sente falta, estando na rua, é da família. Por isso a visita. Para Neide, a vida nas ruas chega a ser uma troca de energias positivas, em que ela passa e recebe felicidade. 

Geralmente, Neide dorme no calçadão em frente às lojas Americanas da avenida Presidente Vargas, no centro da capital paraense. Ela lembra do primeiro dia em que dormiu na rua. Diz que não foi um momento tão sofrido, “porque anjos enviados por Deus” a protegeram. Quando chegou e sentou em sua mochila, estava muito assustada. Em seguida, pessoas estenderam a mão para ajudá-la e dar apoio. Neide diz que é espírita. Para ela, a “liberdade espiritual” é tudo: “Não troco por nada”.

No calçadão, afirma Neide, todos são muito unidos. Semanas antes da entrevista, uma mulher que trabalhava como prostituta foi baleada. Por esse motivo, o grupo de moradores de rua estava tentando arranjar dinheiro para ajudá-la com os remédios, curativos e documentos. Neide e um outro amigo levaram a vítima para o Pronto- Socorro da Quatorze de Março, para os primeiros socorros.

Segundo a artesã, é comum matarem pessoas que vivem na rua pela área do comércio de Belém, principalmente pessoas que trabalham durante a noite. Muitas são alvo de balas perdidas em perseguições a usuários de drogas.

Neide informou que faz tratamento psiquiátrico em um dos Centros CAPS de Belém - Centro de Atenção Psicossocial –, que são unidades que prestam serviços de saúde de caráter aberto e comunitário, com equipe multiprofissional voltada ao atendimento às pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Ela diz que o tratamento é somente por uma questão de crises de ansiedade e para o equilíbrio mental e que não faz uso de nenhuma substância química a não ser as medicações com tarja preta que são prescritas pelo médico.

Descobri Neide em uma das ações do “Tem palhaço na rua”, da Trupe dos Palhaços Curativos. Conhecida dos voluntários, ela realmente é incrível. Acredito que não foi o grupo que levou assistência a ela, foi ela que nos deixou uma lição.

Vaidosa, sempre vestida com um vestido diferente longo e florido, de um coração bondoso e muito simpática, Neide gosta de falar da sua habilidade como artesã. As  peças que ela confecciona são muito bonitas, feitas com sementes, caroço de açaí, capim dourado e outros materiais regionais.

Sempre aberta para o diálogo, Neide esbanja simpatia e educação. Costuma dizer que tudo vai ficar bem, nos dias ruins. Como ela pode ser tão otimista e tão feliz ao mesmo tempo depois de tanta coisa que lhe aconteceu? Talvez seja essa sua missão, fazer das ruas um lugar melhor para todos.

Reportagem: Trayce Melo.

Edição de texto: Antonio Carlos Pimentel.

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