Com 32 anos de resistência, Arraial Deixa Falar resgata os valores tradicionais do São João

Fundador do evento junino, Moura deixa claro que a festa para São João Batista é um ato de amor às raízes nordestina

Com 32 anos de resistência, Arraial Deixa Falar resgata os valores tradicionais do São João

Seu Moura faz a festa há 32 anos. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

Há mais de três décadas, seu José Muniz da Silva, mais conhecido como Moura, de 64 anos, perpetua as tradições do São João no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife, com o tradicional Arraial Deixa Falar. Católico e apaixonado pela vida, Moura deixa claro que a festa para São João Batista é um ato de amor às raízes nordestina, com direito a fogueira, comida de milho e muito forró pé de serra.

A festa em Casa Amarela conta com cenário assinado pelo artista plástico Almir Gomes. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

“Nesses 32 anos, a gente tem mantido a cultura viva, porque infelizmente a sociedade tem colocado os valores invertidos. Aqui a gente está resgatando o tradicional São João, com pé de serra, pamonha, fogueira, da quadrilha junina”, afirmou Moura, fundador do arraial. Ao LeiaJá, ele contou que das 20 festas juninas que existiam no bairro, apenas o Deixa Falar resiste na comunidade.

Deixa Falar recebe até 2 mil pessoas por noite. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

“É muito difícil, mas é a alegria de ver as crianças brincando, a alegria e apoio da comunidade que recompensa o trabalho, porque é muito trabalho aqui”, disse ele. Entre as dificuldades, a principal é o apoio financeiro para colocar a atração na rua. Apesar disso, o arraial recebe incentivo da Prefeitura do Recife em conjunto com vereador Hélio Guabiraba, também morador da região.

Por fim, Moura relata que tem muitos motivos para ficar feliz com a festa. Contudo, ele destaca que a geração de renda para as famílias ao redor é o que mais o deixa contente. “O prazer de fazer isso aqui é a economia que estamos gerando para mais de 200 famílias ganharem um trocado a mais”, finalizou.

Ceça e sua filha na barraca típica. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

Também moradora de Casa Amarela, Ceça, 55, contou que trabalha no arraial há mais de 25 anos. “Comecei a trabalhar com barraca típica desde o início, cheguei a trabalhar grávida da minha filha, que hoje tem 28 anos, e agora essa barraca é da minha neta, que vai fazer 19 anos. [Então], o arraial já faz parte da comunidade e ajuda muito os trabalhadores informais”, disse a empreendedora.

Comunidade unida

Ao chegar no final da Avenida Doutor Eurico Chaves, uma palhoça enorme é avistada, com vários comércios ao redor e muitas famílias transitando. As crianças caracterizadas com roupas juninas, os casais dançando ao som do forró, os amigos reunidos compartilhando bebida e comida compõem o cenário. Esse é o retrato do Arraial Deixa Falar.

Regi se emociona ao falar do Arraial. Foto: Júlio Gomes

Mas, para essa festança existir, muitas mãos participaram da construção. Entre os nomes, está o morador Reginaldo Pereira, 50 anos, mais conhecido como Regi, que falou sobre o afeto pelo período junino e também pela atração. “São 50 anos de fogueira, que passou do meu pai para mim, e eu venho ajudando Moura há 32 anos e onde ele está eu estou com ele. Enfeitei essa rua aqui, passei quatro dias enfeitando para ter as crianças brincando no arraial Deixa Falar. Esse São João é para todas as comunidades”, afirmou Regi, com os olhos marejados e tomado pela emoção.

Andresa e Heloisa no forró. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

A dedicação é valorizada entre os demais moradores e frequentadores do evento. “Eu comecei a vir aqui quando eu era adolescente. Aqui me sinto satisfeita e fico mais satisfeita ainda quando vejo que é valorizado a cada ano que passa. Esse ano aqui está superando e espero que ano que vem seja ainda melhor”, disse Andressa Morais, 46 anos. Por ser um ambiente familiar, Andressa aproveita para levar sua filha Heloisa, 10 anos, para viver a festa.

Família reunida no Arraial. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

O acolhimento do arraial abraça todas pessoas que descem para a palhoça. Camila Foneco, 26 anos, frequenta o local desde criança e leva a sua filha, que é autista, para o evento. “Eu gosto de ver as quadrilhas e milha filha também gosta muito. Graças a Deus aqui é uma ambiente calmo”, elogiou a moradora.

A sensação de segurança é um característica da festa que podemos sentir e ver nos rostos dos moradores, aproveitando a atração até uma hora da manhã, horário de encerramento do evento. No palco, passou um trio de forró pé de serra e o cantor e zambubeiro Cauê Marques, de apenas 12 anos, que toca no arraial pelo terceiro ano consecutivo. E, para fechar a noite, as quadrilhas abrilhantam a Avenida Doutor Eurico Chaves.

Para quem ainda quer saber qual a sensação de viver um São João feito no bairro, basta chegar no Arraial Deixar Falar, pois o forró vai rolar solto até esta segunda-feira (24), a partir das 20h.