Um Cristo negro para o Cabo

Aos 30 anos, José Henrique da Silva interpretará o primeiro Jesus negro da história da Paixão de Cristo de Ponte dos Carvalhos, cujo texto original foi escrito por Dom Hélder Câmara em parceria com o Padre Geraldo Leite Bastos

Um Cristo negro para o Cabo

Zé Henrique é o primeiro negro a interpretar Jesus na tradicional Paixão de Cristo de Ponte dos Carvalhos. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

Jesus desceu do coletivo usando fones de ouvido, bermudão e sandálias de couro. Nos ouvidos, uma canção de Maria Bethânia e Nana Caymmi. Na pele negra, o aperto de mãos animado com outro rapaz nascido e criado no Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife (RMR). Aos 30 anos, um Silva, Zé Henrique, será o primeiro Jesus preto da tradicional Paixão de Cristo de Ponte dos Carvalhos, cujo texto original, apresentado pela primeira vez em 1968, foi escrito a quatro mãos pelo padre Geraldo Leite Bastos em parceria com Dom Hélder Câmara, ambos adeptos da teologia da libertação, corrente da Igreja Católica para a qual a religião deve atuar para libertar povos historicamente oprimidos.

“Acredito em Cristo como uma figura massa da humanidade. A gente vem de uma construção secular de um estereótipo de Cristo quase nórdico, que geograficamente não representa muito o povo de onde ele vem. Acho que pra todo mundo da minha geração, o primeiro contato com um Cristo negro foi a partir do Auto da Compadecida [de Guel Arraes, lançado no ano 2000]”, lembra Zé Henrique.

Além de ator, Zé Henrique é Engenheiro Florestal e doutorando na área. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

No cinema, as representações menos convencionais de Cristo incluem o hippie de Ted Neeley, no musical Jesus Christ Superstar [1973] e o amante de Maria Madalena, interpretado por William Defoe, no polêmico A última tentação de Cristo [1993]. Nas artes plásticas, os afrescos de Mestre Ataíde, ícone do barroco mineiro do século XIX, são ainda mais radicais, ao imprimirem nas próprias Igrejas um Jesus com rosto de mulher.

“Para mim, é um orgulho muito grande fazer uma personagem tão importante, podendo representá-lo com a cor que eu tenho. Quando saiu a divulgação do espetáculo, a recepção da maioria das pessoas foi muito positiva, mas também li alguns comentários racistas nas redes sociais. Eles vinham justamente de pessoas que se dizem cristãs e que supostamente defendem bandeiras como ‘Pátria’ e ‘Família’”, acrescenta Zé Henrique. 

Raízes

Artista celebra possibilidade de desconstruir estereótipo do Cristo europeu. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

Nascido no Cabo de Santo Agostinho, o ator de 30 anos é filho de um operador de empilhadeira e de uma costureira, ambos migrantes saídos da Zona da Mata Norte de Pernambuco com o objetivo de trabalhar nas fábricas do município. “A patroa da minha mãe escreveu uma carta sobre ela para um programa de rádio, acho que de Samir Abou Hana. Meu pai ficou interessado e foi até a fábrica em que ela trabalha”, conta. Evangélico, o casal criou o filho em ambiente religioso. “Aos oito anos, comecei a tocar sax Horns na banda da Igreja, depois passei para o trombone de piston e entrei na Escola Municipal de Música do Cabo”, lembra. 

O encantamento pelo teatro veio depois, através de um grupo de colegas da escola que se matriculou em uma oficina de artes cênicas. “Apesar de sempre ter sido muito ligado às artes, desde pequeno eu tinha certeza de que queria ser engenheiro. Acho que sou a terceira pessoa da minha família a conquistar uma graduação no ensino superior. Me formei em Engenharia Florestal na Rural [Universidade Federal Rural de Pernambuco] e faço doutorado na área, além de uma segunda graduação, em Engenharia Civil”, comemora. 

Um Cristo político

Com 1,97m de altura, ator requereu modificações na cruz utilizada no espetáculo. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

Embora seja frequentemente descrito pelos colegas de elenco como amável e tranquilo, Zé Henrique, capoeirista graduado, e seus 1,97m de altura são capazes de meter medo em qualquer centurião romano. “Eu disse! Tem que botar uns soldados maiores para prender ele, se não a cena vai ficar estranha”, dispara Maria José dos Santos, de 72 anos, a integrante mais antiga do elenco. Zé acha graça. Por causa dele, até a cruz utilizada no espetáculo precisou ser adaptada. “No nosso primeiro ensaio, eu trouxe um Jesus muito passivo, tranquilão, paz e amor. E aí a própria direção do espetáculo me deu um puxão de orelha. De fato, nosso Jesus tem uma fala mais empoderada, é um pouco mais ríspido”, comenta.

Para o ator, a cena mais marcante do espetáculo é a do discurso de Jesus na cruz, fragmento do texto original de 1968 que foi mantido no espetáculo:

“Meus pés estão pregados para que os teus soltem! Para que possais sacudir as correntes que te prendem. Porque o homem escravizou o homem, seu irmão, porque uma nação escraviza outra nação, eu fiquei preso. A vinte e um séculos fui levado a um tribunal, ainda hoje, a justiça continua quase sempre, ao lado do que tem mais dinheiro, mais poder e mais posição.Tenho sede porque a ganância dos homens é tão grande que ainda hoje ninguém pode negar, que em continentes inteiros são inumeráveis os homens e as mulheres torturados pela fome. Inumeráveis as crianças mal alimentadas a ponto de morrerem na mais tenra idade, e o crescimento físico e o desenvolvimento mental de muitas outras crianças correm perigo. E todos sabem que regiões inteiras estão condenadas por esse mal ao mais triste desânimo. Para que tenhas na terra sede de paz, de justiça e de amor, mais aumenta a minha sede nesta hora na cruz”, diz o trecho.

Elenita Costa em cena com Zé Henrique Silva. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

Para a atriz Elenita Costa, que interpreta Maria, a peça também tem a missão de retratar a fúria da comunidade negra contra o preconceito. “Maria também tem seu momento de revolta, principalmente porque ela também está representando as mulheres que perdem seus filhos constantemente por causa de sua cor. A gente vê Maria como branda sempre, mas no momento em que ela diz ‘vinde vós que estais aí’, ela está dizendo: ‘meu filho tá aqui preso, tem sede’. É uma mulher representando os filhos que são assassinados pela polícia, muitas vezes sem fazer nada. É uma mãe que perde seu filho dentro de um carro com oitenta tiros. Oitenta tiros em um negro? Por causa da cor da pele”, defende.

De acordo com o diretor do espetáculo, Wedson Gomes, o texto original da Paixão da Ponte era desenvolvido a partir da descida da cruz como um único ato. “Eram mais de duas horas de sermão. Com o passar dos tempos, fomos acrescentando novas cenas e retirando pedaços desse discurso, que é muito forte. Quando essas falas ocorrem, a gente projeta em um telão diversas imagens da realidade social da comunidade e do mundo”, explica. Em razão de sua abordagem crítica, a Paixão de Cristo de Ponte dos Carvalhos foi censurada pela Ditadura Militar no ano de 1970, depois de apenas dois anos consecutivos de realização. O espetáculo só voltou a ser liberado em 1986, durante o período de abertura do regime. “O Padre Geraldo, uma figura muito importante para a comunidade Ponte dos Carvalhos, foi preso pela ditadura várias vezes”, lamenta Wedson. 

Padre Geraldo e Dom Hélder Câmara. Foto: divulgação.

Natural de Moreno, na Zona da Mata de Pernambuco, o Padre Geraldo foi ordenado presbítero por Dom Carlos Coelho, arcebispo de Olinda e Recife, em 1961. Um ano depois, ele fundou a Paróquia de Nossa Senhora do Bom Conselho, em Ponte de Carvalhos. Em uma comunidade periférica, constituída inicialmente por pescadores, pequenos agricultores e operários, o pároco liderou o movimento político que conquistou, por meio de doações, o terreno onde foram construídos, em regime de mutirão, um novo templo bem como as vilas populares Esperança e Nação do Divino, até hoje habitadas. Em seus cânticos, ele também ficou conhecido por unir a liturgia tradicional católica às manifestações culturais praticadas pela população com a qual atuava.

“Eu acho que Dom Hélder e Padre Geraldo aprovariam minha participação como Jesus. Não só pela minha cor, mas por causa de minha atuação dentro do município. Já fui do Fojuca, o Fórum de Juventudes do Cabo, e faço parte do Fórum Suape, que atualmente está muito voltado para assistência social e jurídica das comunidades tradicionais da cidade”, destaca Zé Henrique.

Com o quinto maior PIB de Pernambuco, segundo levantamento mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também amargou, em 2014, o posto de município do estado com maior Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial. Segundo a plataforma Fogo Cruzado, o bairro de Ponte dos Carvalhos foi o mais violento da Região Metropolitana do Recife (RMR) em 2022, com 35 tiroteios registrados. “O Cabo é uma cidade muito rica, mas essa riqueza não chega à maioria das pessoas. Se eu pudesse fazer um milagre aqui, acho que acabaria com a desigualdade social”, conclui Zé Henrique.