A arte de se recriar: como o teatro sobrevive à pandemia

O cenário pandêmico desestabilizou toda a comunidade artística. Setor teatral enfrenta obstáculos que precisaram ser superados.

sab, 13/03/2021 - 10:08
Zecas/Divulgação Espetáculo do coletivo de teatro Zecas teve encenação on-line na pandemia Zecas/Divulgação

O isolamento social e o lockdown, provocados pela pandemia da covid-19, afetaram o teatro de forma direta e repentina, deixando muitos artistas sem a renda para o seu sustento. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 44% dos trabalhadores no setor cultural são autônomos e não têm salário fixo – o que demonstra o aprofundamento da instabilidade financeira e das dificuldades no campo teatral.

As artes cênicas, em sua totalidade, englobam não apenas os artistas, mas também toda a equipe técnica que trabalha nos espetáculos – e que não foi poupada das crises durante a pandemia. Como a criatividade é um combustível para a arte, o teatro teve que se reinventar e driblar os empecilhos impostos pela nova realidade.

Companhias de teatro investiram em lives e espetáculos on-line, nos últimos meses, com o suporte oferecido pela criação da Lei Aldir Blanc, regulamentada pelo Governo Federal após pressão da classe artística, a qual oferece auxílio financeiro ao setor cultural durante esse período. Apesar do sucesso dessa lei, as desigualdades e as instabilidades continuaram presentes no teatro, como afirma Lucas Del Corrêa, ator, jornalista e membro do Zecas Coletivo de Teatro. 

Lucas conta que mudar os cenários artísticos tem sido um grande desafio. “É um misto de sensações que todos nós, artistas independentes, partilhamos. Bate um medo, relacionado a como vamos poder fazer nossa arte, pois precisamos nos sustentar. Mas também precisamos nos cuidar, para proteger a si e aos nossos. E, ao mesmo tempo, há um impulso de resistir e se renovar dentro do que está ao nosso alcance. Afinal, o nosso ofício sempre foi marcado pela constante resistência”, afirmou.

Apesar da relação de mão dupla estabelecida entre o mundo digital e o teatro, Del Corrêa reforça a expectativa para a volta presencial dos espetáculos. “Por mais que estejamos cada vez mais adaptados aos novos formatos de 'teatralizar', sentimos falta de sensações e vivências que a pandemia e o isolamento social não nos permitem ter, nesse momento. Mas, acima de tudo isso, queremos estar vivos e com saúde para poder voltar a pisar nos teatros e continuar levando o povo a refletir sobre diversas questões”, destacou.

Para a atriz e estudante Letícia Moreira, o modo de ver, fazer e consumir o teatro terá um valor maior. “Acredito que nós, atores, iremos celebrar mais o encontro, a cena, os ensaios e todos os bastidores do palco. E para os espectadores, terá um novo olhar para a arte, porque não será mais por telas, então vamos reaprender a assistir teatro, a ressignificar nossas emoções”, disse.

Lucas e Letícia ressaltam a necessidade de voltar a praticar a “arte do encontro”, de forma a olhar nos olhos dos espectadores, com muita esperança de que os obstáculos sejam vencidos.

Por Haroldo Pimentel e Roberta Cartágenes.

 

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