Terça Negra no centro do debate sobre igualdade racial

Relato de participantes do evento fez acender a discussão acerca do tema

qui, 23/01/2020 - 13:21
Bruno Campos/Arquivo PCR Para além da arte, a Terça Negra tem sido palco para discussões de temas importantes Bruno Campos/Arquivo PCR

Conhecida por ser palco para artistas e grupos da cultura afro brasileira, a Terça Negra tem sido espaço não só para a difusão de arte como também para discussões de temas de interesse não só do povo negro como da sociedade em geral. Foi o que aconteceu nesta quinta (23), nas redes sociais do evento após uma jovem que frequenta a festa relatar um episódio de desrespeito a um amigo seu que é branco. A história fomentou um verdadeiro debate sobre (des)igualdade racial e preconceito. 

A decoradora de eventos, Ohana Guimarães, de 24 anos, relatou em uma postagem uma situação de desrespeito vivida por um amigo seu na última edição da Terça Negra, realizada na terça (21), no Armazém do Campo. Em entrevista ao LeiaJá, ela contou o ocorrido: "Depois do último show, tava rolando um coco e uma menina tava se engraçando para um dos meninos brancos e os meninos estavam muito empolgados numa conversa sobre militância, não deram atenção pra menina, ela ficou chateada mas isso não é motivo para que ninguém trate ninguém mal, ela começou com brincadeiras, falando pesado sobre por que ele tava lá, que não tem nada a ver ele tá lá, que o movimento não era dele, que ele deveria voltar para o Sul”.

Ohana contou que entrou na discussão, para defender o amigo e que ela e o grupo continuaram a ouvir ofensas. "Ela começou a levantar várias palavras de ofensa, falando que ‘brancos não passarão’. Eu comecei a mostrar pra ela que não tinha nada a ver ela estar lá fazendo aquilo, porque aquele lugar é um lugar de luta pela  igualdade entre todos, independente se você é preto, branco, rosa ou cor de vinho". 

A decoradora conta ser frequentadora da Terça Negra há cerca de oito anos e garante nunca ter visto situação semelhante na festa. "Eu participei de movimentos da Terça Negra que eram todas as terças-feiras, por uns dois a três anos mais ou menos. Na verdade, eu não me lembro de casos assim antigamente. Não me lembro dessa militância tão forte dos pretos contra os brancos, e não é só na Terça Negra que isso tá acontecendo. Atualmente tem uma galera que tá fazendo uma militância de guerra dos pretos contra os brancos. Eu acho que a verdadeira missão do evento não é só fazer uma bagunça na rua, sair pra dançar e beber, e sim conversar sobre o fato, de diversas coisas que vem acontecendo. E  agente tava fazendo isso, debatendo sobre as bandeiras que a Terça Negra levanta". 

Procurado por esta reportagem, o coordenador do evento, Demir da Hora, esclareceu não ter havido nenhum problema durante a última edição e que a Terça Negra é contra qualquer tipo de preconceito. "Nós da produção da Terça Negra somos contra qualquer tipo de preconceito e discriminação. Lutamos por respeito e liberdade de pensamento. Mas não podemos responder pelo sentimento radical de parte do público ou outra entidade que ali se fazia presente. Lutamos por respeito e buscamos respeito também". A festa é idealizada e promovida pelo Movimento Negro Unificado (MNU) há 20 anos. 

Demir acrescentou ainda: “Dentro do MNU não existe essa ideia de melanina, a gente vive e respeita o sentimento. É a questão do turbante... Tem gente que acha que branco usando turbante tá fazendo apropriação cultural.  Ou evangélico fazer maracatu. Isso acontece muito e abre leque para muito debate”. 

Repercussão

O relato de Ohana acabou levantando uma forte discussão acerca de igualdade racial. Os seguidores do grupo da Terça Negra, no Facebook debateram a situação. As opiniões ficaram divididas e foram postados inúmeros comentários como: "Pelo amor da deusa parem com essa palhaçada que tudo é apropriação cultural às vezes é só uma pessoa branca que respeita e quer conhecer mais a fundo a cultura afro"; "Acreditar que branco sofre racismo ou é excesso de burrice ou de muita estupidez"; "Independente se uma pessoa é rosa, roxa, azul, dourado, fosco, oprimir uma pessoa por conta da cor da pele ou se achar superior desculpa mas você é racista sim";  "Racismo de preto para branco não existe não, mas injúria sim. Aí preto vai ficar com raiva de branco porque é branco? Nada haver galera"; "Estou vendo mesmo só os evoluídos propagando o ódio contra pessoas que nem conhece para se sentirem mais negros".  

 

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