Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente

Nova adaptação do famoso romance de Agatha Christie é bem produzida, mas Branagh não consegue imprimir tensão à narrativa

por Rodrigo Rigaud qua, 29/11/2017 - 12:00
Divulgação Keneth Branagh como Hercule Poirot Divulgação

A britânica Agatha Christie conquistou o mundo com seus romances cheios de mistérios, detetives e finais surpresa (ou "surpresa"). "Assassinato no Expresso do Oriente" é o 19º de uma carreira extensa, que há décadas alimenta fartamente os estúdios de cinema e TV. A obra, assim como outras 39 da escritora, apresenta o metódico detetive belga Hercule Poirot resolvendo um caso, dessa feita um assassinato que acontece no trem supracitado. Essa história, inclusive, já foi adaptada outras vezes, tendo Sidney Lumet dirigido o longa homônimo mais famoso lançado em 1974. No elenco deste clássico, algumas das maiores estrelas da história do cinema como Albert Finey, Sean Conery, Laren Bacall, Ingrid Bergman, Vanessa Redgrave, Anthony Perkins, dentre outros (sim, essa beleza de elenco não para por aí).

A nova adaptação, dirigida por Keneth Branagh (que no filme também vive o detetive) fez o máximo para, da mesma forma, reunir um cast de peso. Contando com Ridley Scot na produção, rostos conhecidos vão surgindo no longa, mesmo que lhes seja reservado pouco para o desenvolvimento de seus personagens. Alguns tem mais sorte, como Daisi Ridley e Leslie Odom Jr que recebem um mote interessante envolvendo o racismo no seio de Europa sob a sombra dos regimes totalitários. Essa, inclusive, é uma das tramas mais promissoras na colcha de retalhos que é a narrativa do filme. Outros personagens apenas surgem e aguardam o momento de costurarem tropegamente o roteiro adaptado por Michael Green.

Esse distanciamento do espectador com as figuras representadas por Penélope Cruz, Judi Dench e Willem Dafoe, por exemplo, atenua a força dos fatos que sustentam o esqueleto da trama. É difícil especular algo sobre, já que o filme apenas salteia a participação dos "suspeitos", sem que estes próprios consigam deixar alguma marca de atuação, tornando tudo razo e deixando a sensação de arbitrariedade narrativa, uma espécie de "tudo pode acontecer, inclusive nada". E é justamente o "nada" que acontece por muito tempo de projeção e o roteiro parece empacar numa grossa camada de neve, assim como o trem do filme.

Quando, enfim, o roteiro resolve se aprofundar nos personagens - inclusive exigindo um pouco mais do próprio Branagh que constroi um Poirot correto, mas nada marcante - o faz de forma didática, forçando o diretor a tentar resolver a pieguice com o exercício da mise en scéne. Sem sucesso. Por mais que o desenho de produção, a arte e os efeitos do filme impressionem pela vivacidade, dando luz a belíssimos cenários virtuais ou sets decorados de forma minimamente verossímel, Branagh não consegue trafegar bem pelos diversos tons que imprime em seu material, partindo do cômico ao dramático, e o resultado é uma obra amorfa, que deveria entregar algum resquício de tensão embebendo o mistério mas passa muito longe disso. Sobram alguns movimentos de câmera e enquadramentos interessantes (principalmente o plongee na cena do crime e o sobe/desce externo ao metrô, casando bem com alguns diálogos), o que não é suficiente para quase duas horas de filme.

E apesar da montagem aqui não ser grande problema, e inclusive criar alguns bons momentos - quando como um dos personagens vacila ao fazer um comentário sobre a Bélgica e o corte nos leva a um reação milimétrica de Poirot -, a nova adaptação se perde por apostar que os fatos anteriores ao clímax seriam suficientes para sustenta-lo, mas não o são, sobretudo pelas escolhas erradas de direção e o roteiro. Em tempo, o filme também tem Johnny Depp, que já pode ser considerado uma péssima escolha para qualquer produção. Mas, o que fazer? Enquanto Hollywood continuar sendo o que é (vide todos os recentes escândalos), figuras como Depp continuarão nos holofotes. Aqui, pelo menos, por pouco tempo.

Nota: 2,5 / 5    

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