• Tweet
  • As joias amazônicas que transformam vidas

    Profissionais de design e ourivesaria encontram nos elementos da cultura da Amazônia a inspiração para criar peças singulares

    seg, 30/10/2017 - 18:40

    O Pará é conhecido pela sua diversidade, autenticidade e originalidade em tudo que o povo paraense faz. E uma das marcas que reúne essas características e chama a atenção do mundo são as joias do Pará, encontradas no Polo Joalheiro, no Espaço São José Liberto. Muito além da junção de gemas e metais, as joias regionais são a união do talento, criatividade e paixão de cada profissional envolvido. As peças únicas ganharam destaque no Brasil por ter características singulares sobre a Amazônia.

    O prédio existe desde o século XVIII, com a capela e o Convento de São José, obra dos padres jesuítas. Serviu a diversas funções, como hospital e presídio de segurança máxima. Após uma rebelião de presos, em 1998, a prisão foi desativada. E 2002, reabriu como espaço cultural, agora chamado São José Liberto. Atualmente, abriga o Polo Joalheiro, administrado pelo Instituto de Gemas e Joias da Amazônia (IGAMA), além do Museu de Gemas do Pará, A Casa do Artesão e outras atrações.

    As milhares de peças únicas, expostas e vendidas, levam a identidade da cultura da Amazônia. Segundo dados de 2016 da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia (Sedeme), elas movimentam no Estado cerca de 40% do mercado no Brasil de joias e gemas.  

    Sendo referência no setor, as joias do Pará são produzidas a partir da madeira, semente, gemas, além dos traços artísticos marajoaras e tapajônicos, mostrando ao consumidor um detalhe da beleza amazônica.  Cada etapa conta com profissionais que se dedicam e fazem do produto a maior paixão.  

    Vinda da Ilha do Marajó, Selma Montenegro coloca traços marajoaras em tudo que utiliza desde que começou seu trabalho. Designer de joias, sempre foi apreciadora do artesanato e do desenho. Iniciou com o desenho técnico, publicitário, artístico e, por fim, conheceu o desenho de joias. O interesse foi crescendo a cada dia até que ela decidiu procurar um curso de design de joias. Logo que concluiu o curso, seguiu em busca de outros estudos como ourivesaria básica, para aprender os processos de produção da joia.

    Ao ganhar prática com a escala do desenho e os materiais para produzir as joias, Selma teve a ideia de agregar o material regional ao material nobre (ouro e prata). Foi o marco inicial de seu trabalho. Para a designer, a regionalidade é um aspecto fundamental em sua produção. Ela procura usar temas regionais em suas joias, mas em uma linguagem universal.

    A conquista do reconhecimento

    Em uma viagem para São Paulo, Selma compareceu à Feira Nacional da Indústria de Joias, Relógios e Afins (FENINJER), que é o maior e mais importante evento joalheiro da América Latina. Descobriu que lá havia um concurso de designer de joias e rapidamente se inscreveu. Primeira belenense a participar do concurso, ela passou na seleção em duas edições. Selma também foi selecionada em um concurso internacional. A partir dele teve seu nome reconhecido fora do Brasil como profissional de design.

    Ela sempre procurou ter um estilo próprio, e acredita que o diferencial possui extrema importância em qualquer profissão. Selma adora formatos geométricos. “Geometria pura, materiais regionais e gemas. Esse é meu estilo”, diz.

    Além de ser designer de joias, Selma também administra uma loja no Espaço São José Liberto, onde profissionais do ramo de joias também comercializam. Já ganhou duas vezes o concurso nacional do Instituto Brasileiro de Gemas e Metais preciosos (IBGM) e já foi premiada internacionalmente, com 1836 concorrentes de todo o Brasil.

    O gosto pelo desenho vem desde cedo, mas a profissão que escolheu a fez correr atrás de estudo para o aperfeiçoamento, já que não é toda hora que se encontra um designer de joias na nossa região. De acordo com Selma, o número de designers de joias está em torno de 30 no Pará.

    Criar joias é uma importante fonte de renda, mas também para a disseminação da cultura do Estado. É do desenho de joias que a designer tira seu sustento. “Eu vivo disso, não sou uma pessoa que trabalha como designer de joias e tem uma outra profissão. Eu trabalho como designer de joias e é disso que vivo”, explica Selma.

    Ao revirar a memória, Selma lembra, com os olhos brilhando, de quando esteve em para São Paulo com uma comitiva para visitar uma feira de joias. Nesse tempo, apesar de já ter feito desenhos e peças, ainda não se considerava uma designer de joias. Olhou peça por peça da exposição de um concurso de joias que havia lá, admirada, e disse para um colega que estava ao seu lado: um dia, uma joia minha vai estar aqui. Resolveu procurar por informações sobre o concurso. Ao conseguir, preparou um projeto e mandou para os organizadores do evento. O projeto foi aprovado e sua arte fez parte da exposição, surpreendendo todos que a viram um dia ali como uma curiosa visitante.

    A peça mais especial para a designer é o broche original do Círio de Nazaré de 2010. Os membros da Diretoria da Festa de Nazaré frequentemente visitavam sua loja, por saberem que ela sempre produziu joias com a temática do evento. O pedido foi que ela fizesse um projeto que mostrasse o broche da Santa com o tema “Basílica”. O projeto foi aprovado pela Diretoria e Selma ficou ainda mais conhecida, agora como a criadora do broche original do Círio de Nazaré de 2010.

    Trabalhar como designer de joias é também desenhar sonhos. Não só os próprios, mas o sonho do próximo. “Quando eu desenho uma joia, eu sei que alguém vai ficar feliz, já fico feliz só de criar, sei que quem vai usar vai se sentir feliz, vou me sentir bem com isso.”

    Apesar de precisar de dinheiro para investir, Selma acredita que o essencial é a inspiração. Se não fossem suas ideias, não havia joias, não havia loja. “O que me sustenta são as ideais que tenho, que fazem a diferença para eu sobreviver aqui, por isso eu estou no ramo há 10 anos e vou continuar”, finaliza.

    É hora de ir atrás das gemas preciosas

    Depois de desenhada, a joia segue para a etapa de lapidação, o que garante com que a gema escolhida mostre mais beleza, através do formato, das facetas e do brilho. O trabalho requer paciência, amor, dedicação e técnica totalmente manual: serrar, formar, facetar, cortar e polir.  

    A lapidária paraense Leila Salame trabalha há 25 anos na profissão e já desenvolveu técnicas únicas, como a iconografia marajoara em gemas preciosas, arte introduzida em cerâmicas a partir do ano 400 a.C, no Marajó. A iconografia marajoara nas gemas preciosas é reconhecida nacionalmente e internacionalmente. A técnica é vista em gemas que fizeram parte de peças como o broche presente no manto da imagem réplica de Nossa Senhora de Nazaré entregue ao Papa Francisco, em 2013.

    Leila começou os estudos no curso de Geologia, na Universidade Federal do Pará (UFPA). Fascinou-se pelas gemas preciosas durante a graduação. Ao fazer um curso de lapidação na antiga Escola Técnica Federal do Pará ela especializou-se, mergulhando nesse universo.

    Além de lapidar em um espaço próprio, Leila também é proprietária de uma loja de gemas no Espaço São José Liberto. Para ela, o trabalho é recompensador e o importante é amar o que se faz. O reflexo da inspiração amazônica se torna mais real. “A questão é amar e gostar do que eu faço, ganhar dinheiro com que eu faço e ser praticamente única”, diz a lapidária em meio a contagiante alegria e um sorriso único.

    Na reta final, chega a etapa de montar a joia, unindo a gema preciosa com o metal. O trabalho do ourives é essencial para finalização. É ele quem diz se é ou não exatamente como está no desenho, em todos os seus detalhes. Ele finaliza a peça e entrega ao cliente.

    Há mais de 30 anos, Ramires Garcia é ourives. Carioca, se interessou pelo ramo da ourivesaria com amigos que trabalhavam nessa área. Chegou a ir a São Paulo para aprender mais. O gosto por essa arte passou para a próxima geração da família e hoje seu filho também trabalha como ourives.

    As peças produzidas por ele também têm o diferencial com traços marajoaras e tapajônicas. Desde as mais comuns, simples, até as encomendas, cada arte é valorizada ao agregar a cultura amazônica, como sementes e chifre de búfalo.

    Ramires já produziu joias que foram publicadas em catálogos internacionais e participou de concursos. Uma delas foi a peça “Açaí”, desenhada pela designer Selma Montenegro. Dependendo do pedido, o produto pode dar trabalho, mas a recompensa logo vem. “Nós temos uma que se chama o Tipiti, que está até lá no museu essa peça. Além de muito trabalhosa, é uma peça exclusiva. Tem o Paracuri, que o designer é o Erivaldo Junior. Toda vez que eu faço essa peça quase não demora na vitrine, rápido é vendida e também agrega muito valor, ela tem muito metal”, explica o profissional.

    A melhor recompensa não vem do dinheiro, mas da felicidade do cliente ao receber a joia. Uma satisfação enorme, principalmente quando são anéis de formatura. “Quando você vai se formar a maior alegria da família é quando os pais ou as mães estão aqui e a filha coloca o anel no dedo, é maravilhoso e bacana”, conta o ourives.

    A dificuldade de aprender sobre ser ourives fez Ramires sair do Estado onde morava para procurar mais conhecimento. E nessa viagem, ele teve a grande ideia de criar uma escola onde ele pudesse passar os seus conhecimentos.   

    Ao ser chamado para trabalhar no projeto Polo Joalheiro, há 15 anos, ele viu a oportunidade perfeita de montar a escola, que atualmente tem capacidade para 17 alunos.  É um curso livre, para todos os públicos, dividida em joalheira básica, intermediária e avançada. O aluno aprende sobre fundição, laminação, soldagem na teoria e na prática.

    Agarrar oportunidades gera bons frutos

    A escola foi a oportunidade para muitos jovens e adultos que se interessam pela área e viram ali uma oportunidade de uma profissão, de uma renda extra. Como foi o caso do jovem Diego Barata. Começou a estudar ourivesaria em 2013 e está no segundo moóulo do curso.  

    Aos 25 anos, Diego é professor de artes e sempre teve o sonho de montar um ateliê, mas a falta de recursos financeiros tornava o desejo algo distante. E foi com a produção de joias que ele encontrou o caminho para realizar o sonho. Montou uma bancada onde conseguiu dinheiro suficiente para abrir um ateliê.

    Começou com a curiosidade de conhecer, com o desafio de fazer o próprio anel de formatura, que se aliou ao conhecimento artístico e acabou descobrindo um novo universo. Além da ourivesaria, Diego também trabalha com técnicas inovadoras em gemas preciosas. Utiliza brocas diamantadas e outros instrumentos que podem fugir do convencional, obtendo resultados diferenciados em madrepérola e pérola. “Eu vi as minhas peças, vi as pedras que, apesar de facetadas, terem um valor agregado maravilhoso, e comecei a pensar: e se ela fosse apresentada de uma outra forma?”, confidencia Diego.

    Apesar do pouco tempo, a segunda profissão já criou histórias que o marcaram. Em agosto deste ano, Diego recebeu uma encomenda inusitada, uma joia masculina como presente do Dia dos Pais. “É muito comum que as pessoas encomendem no Natal para mãe ou esposa, muito difícil fazer joia para homem, ainda mais se for no Dia dos Pais. Achei bonito, simbólico, foi a primeira peça que fiz para o dia dos pais”, conta.

    Como ourives, Diego ainda não foi premiado. Mas ele diz que estar trabalhando nessa área, unindo a ourivesaria ao ensino de artes, é um incentivo para que ele continue indo atrás, se encantando cada vez mais pela produção de joias.

    Por Laíse do Carmo.

    COMENTÁRIOS dos leitores