Teatro do Parque: centenário e sem respeito

Espaço cultural está fechado há cinco anos para reforma que está parada. O LeiaJá resgata a história das reformas pelas quais passou o teatro durante um século

por Roberta Patu qui, 20/08/2015 - 12:31

Considerado um dos equipamentos culturais mais importantes de Pernambuco, o Teatro do Parque completa, na próxima segunda-feira (24), 100 anos, mas sem espectadores para festejar a data. Foram décadas de histórias marcadas por espetáculos, apresentações musicais e sessões de cinema, além de eventos. Agora, o espaço está à espera da conclusão de uma reforma que está paralisada e que já teve diferentes datas de reinauguração divulgadas e não cumpridas.

Já são cinco anos fechado. Artistas e comerciantes lamentam a interdição do Teatro do Parque e não conseguem projetar boas perspectivas.

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Criado em 1915 para ser um teatro, o espaço estava situado em dos melhores locais da cidade. Integrado ao Hotel Parque, o Teatro do Parque sofreu sua primeira e grande intervenção no final da década de 1920. A mudança se deu com o intuito de modernizar a antiga estrutura e receber o glamour e as novas tecnologias das indústrias cinematográficas de 1930, período do cinema mudo no Brasil.

Segundo a arquiteta responsável pelo estudo técnico para a restauração do acervo de Bens Integrados ao edifício do Teatro do Parque, Simone Arruda, esta grande reforma, idealizada e realizada por Luiz Severiano Ribeiro, foi feita em 1929, transformando o espaço completamente 14 anos depois da inauguração. “Foram intervenções que promoveram significativas alterações com o propósito de adequar o antigo teatro ao funcionamento de um cinema moderno a exemplo dos que eram construídos no mesmo período Rio de Janeiro e que deram origem à Cinelândia. Há informações inclusive de que o investimento da reforma foi maior que o da construção”, ressalta Simone.

Ainda conforme Simone Arruda, com as intervenções, pouquíssimos elementos não foram modificados. “Peças do mobiliário, revestimentos de piso e pinturas murais, em estilo Renascença, que compunham a configuração original do teatro, foram substituídos nesta grande reforma de 1929, que introduziu no edifício os novos ambientes e uma decoração de inspiração Art Deco", explica. Entre estas substituições, a arquiteta destaca os murais originais da boca de cena, executadas por Henrique Elliot e Mário Nunes, que retratavam dançarinas espanholas e foram sobrepostos pela composição atualmente existente.

Outras obras que merecem destaque foram feitas a partir de década de 1950. A primeira foi a reforma empreendida na gestão do prefeito Augusto Lucena, em que se pretendeu ocultar toda a ornamentação, inclusive encobrindo com painéis de madeira as pinturas murais da boca de cena. A outra foi a intervenção de restauro inaugurada em 1988, que removeu esses e outros anteparos trazendo à luz parte da decoração remanescente.

Simone afirma que a pesquisa histórica possibilitou novas informações para traçar melhor a trajetória do centenário do edifício e identificar elementos decorativos que o Cine-Teatro do Parque possuía em 1929.

 

Artistas falam das perspectivas 

 

Renato Phaelante                                                   Cleuson Vieira                                                    Roberto Santana

Frequentador assíduo do Teatro do Parque como espectador e como ator, o teatrólogo Renato Phaelante lembra dos momentos vividos durante sua infância. “Foram épocas inesquecíveis! O Teatro do Parque faz parte da cultura e da infância de milhares de pernambucanos. Eu particularmente cresci no bairro da Boa Vista e frequente bastante as sessões de cinema e os espetáculos, durante toda a adolescência. Não tenho dúvida que eu absolvi uma cultura muito boa através do Parque”, falou. Ainda como ator, ele acrescenta: “Quando o Teatro de Amadores de Pernambuco pegou fogo pudemos contar com a estrutura do Parque e do Santa Isabel e guardo boas lembranças desses momentos”, recorda Phaelante.

O cantor Renato Santana, que trabalha com música há 35 anos, relembra com saudade os projetos oferecidos pelo equipamento. “São inúmeras as recordações. Sejam elas como apresentações no palco ou como espectador. Dentre as que marcaram, posso citar o show de Belchior, o lançamento do CD em homenagem ao centenário do frevo e a apresentação de Amelinha”, relembra. O artista ainda apontou o projeto Seis e Meia como um dos melhores. “De tempo em tempo, artistas do cenário nacional se apresentavam a preço popular, e isso era muito bom, mas infelizmente tudo se perdeu”, lamenta.

Quem também demonstra sua nostalgia é o ator Cleuson Ferreira. Ao Portal LeiaJá, o artista detalha com tristeza a leitura da situação feita pelo filho, que é autista, de nove anos, ao perceber que o Teatro não está mais funcionando. “Sempre tive o costume de trazer o meu filho ao Teatro do Parque, nas minhas apresentações e em várias outras. Com o fechamento, deixei de trazê-lo. Porém, um dia, depois de tanta insistência dele, o trouxe para ver o Teatro. Quando ele estava sentado e viu as cadeiras cobertas e empoeiradas, disse: 'o teatro acabou!' Neste momento meus olhos encheram de lágrimas. Acho que realmente está acabando”, conclui.

*Fotos: Líbia Florentino e Paulo Uchôa

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