Depois da onda de manifestações políticas que abalaram as estruturas de acomodação mantidas pelos políticos dos mais variados partidos, como se nada houvesse ocorrido nas grandes, médias e até pequenas cidades em todo o País, a classe política, que a princípio manteve-se omissa, mesmo durante e depois da invasão popular ao Congresso Nacional, simplesmente entrou em recesso sem acolher qualquer das reivindicações populares.

“O Senado fez de tudo para entregar uma nova agenda à sociedade”, disse o presidente da casa, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). “A produtividade do Congresso, Senado e Câmara, nos últimos dias, demonstra que o parlamento está, efetivamente, querendo se aproximar, cada vez mais, da sociedade”. Esta mensagem, dita poucos momentos antes do início do “recesso branco”, foi acrescida do seguinte reconhecimento: “O processo legislativo é modorrento, cheio de manobras regimentais e políticas. Agora vimos que ele pode e deve ser mais célere. A democracia avança mais quando conferimos agilidade ao processo legislativo”, afirmou para uma galeria apinhada de jovens, muitos deles participantes da tentativa de invasão que, atônitos, não esperavam pelas férias parlamentares.

Na esperança de que os ânimos se acalmem, apesar de temerem protestos por ocasião da visita do papa Francisco, no Rio, quando o Brasil será vitrine para o mundo, os políticos contam com a proposta do Plebiscito, como um recurso que talvez mobilize a sociedade na discussão de um tema que não esteve na pauta de reivindicações populares, a Reforma Política.

Com a retomada das discussões apenas em agosto, quando a Agenda Positiva imposta pelos protestos poderá, ou não, ser, novamente, tocada, os senadores não decidiram sobre o fim do voto secreto no Congresso Nacional, o passe livre para estudantes nos transportes públicos e a extinção do foro privilegiado de autoridades em casos de crimes comuns. Os deputados talvez tenham que decidir sobre projetos como o que torna a corrupção crime hediondo, a proporção dos royalties do petróleo para a Saúde e Educação e se será facilitada a apresentação dos projetos de lei de iniciativa popular. Melhor as férias do que discutir, sob pressão das ruas, a regulamentação do funcionamento e trânsito de dados na rede, foro privilegiado, Lei das Palmadas, aposentadoria especial, aposentadoria compulsória de magistrados e integrantes do Ministério Público e o Plano Nacional de Educação.

"Não tem clima para votar. O governo não quer que se vote os royalties", acusou o líder da minoria, Nilson Leitão (PSDB/MT). Enquanto isso, o líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), está aproveitando o recesso para procurar colegas oposicionistas e parlamentares independentes para juntar votos suficientes para derrubar os vetos da presidente Dilma Rousseff aos projetos sobre o Fundo de Participação dos Estados e do Ato Médico.

Às vésperas de sair de férias, parlamentares do PMDB realizaram jantar festivo em Brasília para comemorar a folga ilegal. Há uma proibição constitucional que impede os recessos enquanto a Lei de Diretrizes Orçamentárias não for votada, por isso a brancura do recesso. O povo gritou, esperneou, apanhou e até morreu nas manifestações, mas estão sendo duas semanas de folga, sem votações ou sessões deliberativas até 31 de agosto. Durante o jantar, as lideranças alertaram os colegas a evitar fotografias em baladas, praias e viagens a passeio “que impactem negativamente a opinião pública”. Ao que tudo indica, eles estão cumprindo essa, e somente essa, recomendação.

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