Os Blogs Parceiros e Colunistas do Portal LeiaJá.com são formados por autores convidados pelo domínio notável das mais diversas áreas de conhecimento. Todos as publicações são de inteira responsabilidade de seus autores, da mesma forma que os comentários feitos pelos internautas.

Escritores e leitores: entre o potencial e a vocação

Cristiano Ramos, | seg, 09/07/2012 - 17:33
Compartilhar:

Há duas semanas, alguns leitores da coluna Redor da Prosa acusaram de elitismo (ou algo parecido) a afirmação de que ser leitor também é vocação. O argumento mais utilizado por eles foi que vocação é termo que discrimina, que se mostra contrário à ideia de que todos são capazes de realizar algo. Em tempos de proliferação das oficinas literárias e de universalização de tudo, aquele texto não “caiu bem”… Melhor assim!

Querido Raimundo Carrero (escritor e realizador de oficinas literárias) sempre repete: se tudo pode ser aprendido, por que não seria possível ensinar a escrever? Por um motivo bem simples: não é bem assim, nem tudo que reside na arte é conteúdo passível de disponibilização e aprendizado. Aliás, nada no mundo é redutível à técnica.

É comum que os defensores de que todos são capazes de tudo recorram ao termo grego techné, que, no decurso de sua história, realmente aproximou o artesão e o artista. Seja trabalhando na madeira ou em versos, estamos agindo sobre algo para revelar/desvelar outra coisa. A techné não é só práxis, é também um saber, daí que seja raiz comum aos mundos da tecnologia e da arte.

Acontece que desde a Antiguidade os filósofos reconhecem a necessidade de pensar o ser como resultado sempre inacabado, de algo além. Não é simplesmente questão de ser capaz, nem de potencial enquanto conjunto de habilidades que estão adormecidas, à espera de estímulo e orientação. Mas sim de potencial como força, como potência que é a própria energia que propicia a vida e suas realizações. Não é uma energia hibernando, em estado natural, mas força dinâmica (dynamis) que ao mesmo tempo ratifica e transforma.

Na modernidade, de Kant a Novalis, de Nietzsche a Heidegger e tantos outros, houve sempre uma recusa de encarar o potencial nesse sentido homogeneizador, simples, banal, de livro de autoajuda barata. A potência é, pelo contrário, algo diferenciador, singularizante, vontade que ao mesmo tempo orienta e liberta.

O que chamamos de vocação na coluna anterior é algo além da capacidade. Não porque sobrenatural, mística, mas por ser irredutível às técnicas. Ela advém das infinitas equações que são resultantes das também infindáveis energias, potências e technai. Por isso sua definição nos escapa, por isso a sensação de vocare, de “chamado”.

Muitos se sentem incomodados com a palavra vocação porque ela indica existência de algo para além das capacidades comuns a todas as pessoas. Geralmente, por trás dessa insatisfação, está a questão dos valores. O receio é que o discurso sobre sujeitos vocacionados termine por perpetuar injustiças sociais, desigualdade de oportunidades. O que essas mesmas pessoas não percebem é que o contrário é caminho tão ou mais perigoso: se não existe vocação, somente capacidades comuns e oportunidades, aquele jovem que não consegue transformar as chances que recebeu em sucesso é um preguiçoso, um fracassado, um perdedor. O que lhe falta não é vocação, mas sim garra, disposição para vencer.

Esse incômodo, no entanto, geralmente tem seus campos preferidos. É mais raro acreditarmos que todo menino apaixonado pela bola e bem instalado na escolinha de futebol se torne um craque. Ou que a criança que adora água e vive na piscina do clube se torne uma nadadora quando adulta. Não costumamos defender que toda criança que gosta de música e recebe educação na área se transforma num virtuose, ou que o pequeno a desenhar para os pais cresça e seja reconhecido como novo Goya.

Por que, então, para ser escritor bastam ambição e técnicas? Será a literatura algo menor, diferente de todas as demais atividades humanas?

Para muitos (pois estamos falando de opiniões), a arte não é regra, ela é exceção. Porque é ambígua, tensa, ela aproxima e afasta, desvela e oculta, nasce a partir do que está e do que não está imediatamente disponível. Arte é sempre um dobrar-se sobre si mesmo, sua existência não se resume, não se permite ter uma função pontual e imutável. Ela é fazer, saber e, sobretudo, reflexão. Enquanto a techné aproxima artesão e artista, a poiesis, por exemplo, afasta, pois é um fazer que é saber e pensar, saber e refletir, saber e transcender, saber e agir.

Quem frequentou oficina literária adquiriu instrumentos, “aprendeu” recursos, alguns caminhos e atalhos da escrita. Mas será suficiente para fazer literatura, arte? Ou precisará ter potencial e ser vocacionado? Não parece mais coerente a posição de José Castello, para quem as oficinas não ensinam a escrever, “mas servem para desnudar e desembrutecer”, “para aproximar o aluno da verdade – a verdade pequena e precária de cada um”? As oficinas oferecem apenas uma face das muitas nesta lua sombria e incandescente que é a literatura.

A coluna anterior somente levou essa reflexão para outra órbita, a do leitor. Nem todos têm vocação para serem leitores de livros, embora seja obrigação dos educadores estimular a experiência, assim como preparar os estudantes para um mundo em que precisam ler sempre, nas mais variadas linguagens – para um mundo que afinal é linguagem! Fazer da leitura de livros uma atividade para toda a vida, uma parte do ser, porém, é outra coisa. Que não se deixa aprisionar por gestões públicas, discursos politicamente corretos ou colunas literárias.

Leianas redes sociaisAcompanhe-nos!

Leia Concursos

Procure os
Concursos

LeiaJá é um parceiro do Portal iG - Copyright. 2021. Todos os direitos reservados.

Carregando