Adriano Oliveira

Adriano Oliveira

Conjuntura e Estratégias

Perfil:Doutor em Ciência Política. Professor da UFPE - Departamento de Ciência Política. Coordenador do Núcleo de Estudos de Estratégias e Política Eleitoral da UFPE.

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Falsa interpretação da realidade social

Adriano Oliveiradom, 14/08/2011 - 15:12

As recentes convulsões sociais ocorridas na Inglaterra evidenciaram que ideias conservadoras e, por conseqüência, absurdas, ainda encontram espaço na esfera pública. Não discordo do espaço conquistado por essas ideias. Mas fico surpreso com a presença delas. 

Por muito tempo, estudiosos, políticos e imprensa sugeriram que os conflitos nos morros cariocas eram provenientes da desigualdade social. Bastava o estado oferecer casa, comida, escola, emprego e divertimento, para o tráfico deixar de existir. Lentamente, o poder coercitivo estatal adentrou nos morros e o efeito esperado apareceu, qual seja: diminuição do tráfico e dos conflitos.

Por várias vezes, José Beltrame, secretário de segurança do Rio de Janeiro, expôs a necessidade de que comida, escola, emprego e divertimento fossem oferecidos às comunidades cariocas que estão ou estavam dominadas pelo tráfico. Beltrame tem razão. Ou seja: o poder coercitivo é variável necessária, mas não suficiente para inibir ou findar com o tráfico de drogas.

O debate que surgiu em razão das convulsões sociais na Inglaterra foi de que jovens querem casa, comida, escola, emprego e divertimento. Inicialmente, isto é um exagero, basta olharmos para os indicadores sociais da Inglaterra. Além disto, jovens, provenientes de variadas famílias, as quais possuem rendas diferenciadas, foram vetores das convulsões. Portanto, alegar que os conflitos na Inglaterra são provenientes de uma “bomba social” é falácia.

O estado de bem-estar social é necessário. Mas este não é mais possível diante das limitações fiscais dos estados do Ocidente. Ele precisa ser recriado, o qual precisa ter como função básica o atendimento das demandas dos setores fortemente excluídos. Não acredito, por exemplo, que o Brasil possa criar um estado de bem-estar social semelhante aos existentes na Europa na década de 70.

Casa, escola, comida, emprego e divertimento são necessários. Não questiono isto. Estes devem ser ofertados pelo estado e pelo mercado. O estado deve dar condições para que indivíduos qualificados possam aproveitar as oportunidades geradas pelo capitalismo. Mas é claro, e esta é uma característica da sociedade capitalista, desigualdades sociais existirão. E cabe ao estado amenizá-las.

Não alimentem e difundam a falsa hipótese de que indivíduos traficam ou geram conflitos em razão dos problemas sociais que enfrentam. E que a igualdade econômica é necessária para por fim a convulsões sociais.

O estado deve ofertar igualdade de condições e punir aqueles que buscam transgredir as normas. Na discussão em torno de atos ilícitos, acreditar que distúrbios sociais ou crimes devem ser justificados fortemente pela variável social, é sugerir uma falsa interpretação da realidade social.

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