Pandemia: a necessidade de se reinventar profissionalmente

Para sobreviver à crise causada pela pandemia do coronavírus, apostar na criação de negócios foi a saída para alguns

por Juliana Mamede qua, 03/03/2021 - 15:08
Corteria/Laís Ferraz Laís Ferraz viu que seu gosto por itens de papelaria poderia virar uma fonte de renda Corteria/Laís Ferraz

Por causa da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), muitas mudanças tiveram que ser feitas a fim de evitar a disseminação da doença, como fechamento de bares, escolas, praias, entre outros, durante determinados períodos. Em meio a isso, algumas pessoas se viram diante da necessidade de se reinventar profissionalmente para sobreviver à crise. De acordo com dados da Junta Comercial de Pernambuco (Jucepe), mais de 96 mil empresas foram abertas no estado em 2020.

Ao todo, foram abertas exatamente 96.960 mil empresas em Pernambuco, superando as 96.522 mil aberturas em 2019. O número significa um aumento de 0,45%, de acordo com dados da Jucepe. “A classe empresarial pernambucana, mesmo em um período de instabilidade, aos poucos vai construindo um momento de recuperação. Por isso, apesar de pequeno, o crescimento deve ser comemorado”, destacou a presidente da Junta, Taciana Bravo, de acordo com a assessoria de imprensa.

O quantitativo de registro de empresas – excluindo os Micro Empreendedores Individuais (MEIs) - foi de 18.455 mil, o que representa uma queda de 8,6% em relação as 20.206 mil registradas no ano de 2019. Já analisando o registro de MEIs, houve um aumento de 2,8%: o número no decorrer do ano passou de 76.316 mil em 2019, para 78.505 mil em 2020.

No que diz respeito ao fechamento de empresas, houve uma queda de 17,34% quando comparados os números dos últimos dois anos. Em 2019, foram fechadas 37.090 mil empresas; já em 2020, o número foi de 30.659 mil.

Pernambuco fechou o ano de 2020 com o quantitativo de 631.641 mil empresas funcionando. Ainda de acordo com a Jucepe, as cidades que mais abriram negócios foram Recife (29.612), Jaboatão dos Guararapes (10.457), Olinda (6.368), Paulista (5.508), Petrolina (5.263) e Caruaru (5.240).

As atividades empresariais que tiveram mais registros foram comércio de vestuário, mercearias, comércio de cosméticos, lanchonetes, restaurantes, comércio de bebidas, produtos de perfumaria e de higiene pessoal e fornecimento de alimentos preparados preponderantemente para consumo domiciliar.

Até 13 de fevereiro, no Brasil, o número de MEIs era de 11.634,941 milhões; já em Pernambuco, até 17 de fevereiro, o número de MEIs era de 365.159 mil, de acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Do estágio ao empreendedorismo

Uma das pessoas que tiveram que se reinventar por causa da crise foi a estudante de direito Laís Ferraz. Antes da pandemia, Laís estagiava na área do direito no Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), o que lhe proporcionava uma certa estabilidade. “Quando a pandemia começou, ficamos (eu e os outros estagiários) com medo de sermos dispensados. Nosso chefe falava que no ano de 2020 ninguém seria demitido, mas aí 2021 chegou...e eu 'voei'. Após os 15 dias afastada por te pego Covid, meu chefe me informou sem mais nem menos que não iria renovar meu contrato. Imagina, o estágio que pagava todas as minhas contas, inclusive a minha faculdade, sem eu ao menos esperar”, desabafa.

“Foi uma queda bem difícil de lidar, mas aos poucos fui tentando digerir. Último período de faculdade, nove cadeiras para cumprir, TCC, OAB, e dificilmente me contratariam como estagiária pois geralmente os escritórios querem alguém que fique ao menos um ano. Não julgo, pois dá trabalho explicar toda a logística para alguém que não vai ficar muito tempo”, pondera ela, que não tem pretensão de advogar em escritório.

Laís pensou em diversas soluções para ajudá-la a enfrentar a crise e também foi incentivada por uma amiga para vender itens de papelaria pelo Instagram. “Seria uma coisa legal pra mim, ao mesmo tempo que estaria trabalhando. Resisti no começo, pois nunca fui muito de gostar de empreender, mas a necessidade falou mais alto”, explica a proprietária da Petricor Papelaria.

Dando os primeiros passos nessa trajetória, Laís garante estar confiante, apesar dos desafios. “Eu ainda estou no começo dessa jornada, mas já sinto que no começo não vai ser fácil... mas estou confiante que quando pegar o embalo, vai ser massa!! Estou me dedicando, tentando ser profissional e além disso, trazer produtos de qualidade e com diferencial”, revela.

A estudante aconselha, ainda, pessoas que querem se reinventar profissionalmente. “Procurar coisas que gosta de fazer é a chave. Eu quando era mais nova não tinha dinheiro nem mesada, na mesma época minha pele estourou de espinha, tentei vários tratamentos, mas nunca dava certo, então tive que entrar no Roacutan, infelizmente meus pais não queriam pagar, achavam "bobagem", então eu comecei a fazer brigadeiros e vender na escola. Eu detestava fazer brigadeiro (risos), era um saco! Apesar disso, conseguia vender e pagar meu remédio, e, além disso, paguei minha formatura do terceiro ano, sozinha. Empreender é um desafio, mas acho que se apegar à dificuldade não é a chave. Buscar soluções e conteúdo para poder trazer aos clientes, o YouTube está aí, com várias dicas de como fazer um negócio se desenvolver legal, aos poucos você vai aprendendo, além disso temos ferramentas gratuitas que ajudam na hora de oferecer um produto", explica.

Da sala de aula ao artesanato

A professora de inglês da rede estadual Danielle Silva, que dá aula para os ensinos fundamental e médio, viu em um hobby que ela desenvolveu durante a pandemia uma oportunidade de empreender. “A partir de março, dando aulas on-line e ainda tudo muito novo, percebi que tinha mais tempo para me dedicar a algo diferente, algo que eu não teria tempo para me dedicar estando em sala de aula ou no caminho entre as escolas em tempos normais. Como sempre gostei de trabalhos manuais (eu já sabia fazer alguns bordados que aprendi com minha mãe quando era criança), procurei aprender uma coisa nova, que eu ainda não tinha tentado. Foi aí que em uma publicidade de curso de amigurumi, eu decidi buscar mais. Encontrei vídeos no YouTube, comprei o material e comecei a produzir algumas peças que eram, inicialmente, como um hobby ou para presentear amigos. Comecei a receber pedidos de pessoas próximas e de indicações de amigos, foi aí que passei a olhar meu hobby com outro olhar, criei a página Dimensão Criativa, fazendo no Instagram minha vitrine e investi na produção como um empreendimento”.

A internet foi uma importante aliada para que Danielle pudesse aprender seu hobby. “Eu aprendi em vídeos na internet e grupos nas redes sociais, a fazer Amigurumi e Tricotin: Amigurumi é uma técnica japonesa de crochê circular para criar bichinhos, bonecas e itens de decoração. Tricotin é um tipo de tricô em que se produz uma corda, passa um arame no meio desta corda e você pode criar formas, letras, consequentemente, palavras (como nomes) e é bastante solicitado como enfeite de porta de maternidade, por exemplo”, explica ela.

Ganhando em média RS 1 mil a R$ 2 mil por mês com a nova função, a professora dá alguns conselhos a pessoas que também desejam se reinventar profissionalmente, mas não sabem por onde começar.

“Não consigo pensar em um melhor conselho que buscar algo que você goste de fazer. Investir tempo para aprender, criar e aperfeiçoar algo que você realmente goste e se identifique, faz com que cada momento de produção seja de contentamento e assim, sai muito bem feito", encoraja a docente.

"Procure informações em grupos nas redes sociais (Facebook e WhatsApp), em vídeos no YouTube, pois outras pessoas que já passaram pelos caminhos das pedras podem te ajudar a encontrar respostas mais rápidas ou direcionar sua busca. No artesanato, por exemplo, encontrei muitas pessoas solícitas, que compreendem que o sucesso de uma é o avanço de todas", explica Danielle.

"E, por último, entenda que o erro faz parte do aprendizado. Não adianta exigir perfeição no primeiro trabalho, ou na primeira publicação nas redes sociais. Errar e tentar novamente até encontrar seu espaço, conhecer seu público faz parte da trajetória de cada um. Invista em você e na sua caminhada”, finaliza.

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