Pesquisa revela desejos do trabalhador pré e pós-pandemia

O primeiro ponto analisado pela pesquisa foi sobre o otimismo dos trabalhadores em relação ao ambiente de trabalho

por Juliana Mamede sab, 05/09/2020 - 14:52

Uma pesquisa mundial, realizada pela ADP Research Institute em quatro continentes nos momentos pré e pós-coronavírus, revela quais eram prioridades e desejos dos trabalhadores em relação ao seu local de serviço e o que mudou, após a adoção das medidas de isolamento social e da ampliação do trabalho remoto.

A primeira parte do levantamento foi realizada nos meses de novembro e dezembro de 2019, em 17 países do mundo, e entrevistou 32 mil trabalhadores. Já a segunda parte foi realizada em maio deste ano (pós-coronavírus) e entrevistou 11 mil trabalhadores dos seis países seguintes: Espanha, Reino Unido, Estados Unidos China, Índia e Brasil – que foram escolhidos como representativos das regiões Ásia-Pácifico, Europa, América do Norte e América Latina, para o trabalho comparativo.

A vice-presidente de recursos humanos da ADP na América Latina, Mariane Guerra, contou que, antes do novo coronavírus se disseminar pelo mundo, as relações de trabalho vinham passando por uma forte transformação, devido aos avanços tecnológicos, adversidades econômicas e exigências de novas competências dos trabalhadores. “Por isso, este estudo, que contempla os dois cenários, pré e pós, traz um raio X muito completo da força de trabalho global, mostrando as tendências que já estavam em curso e o que mudou com este novo cenário, além das principais perspectivas e expectativas dos empregados quanto ao ambiente laboral”, assegura a vice-presidente, segundo a assessoria da ADP.

Mariane ressalta ainda que outro ponto importante desta pequisa é o de mostrar um cenário real da força de trabalho a nível mundial, já que foram entrevistados empregados regulares tradicionais das empresas, quanto os que fazem trabalho sazonal/freelancers, prestadores de serviços e também aqueles que usam plataformas on-line para prestação de serviços.

Pontos importantes da pesquisa

- Otimismo dos trabalhadores

O primeiro ponto analisado pela pesquisa foi sobre o otimismo dos trabalhadores em relação ao ambiente de trabalho, nos próximos cinco anos. Na primeira parte da pesquisa, 86% dos participantes relataram que se sentiam otimistas; já na segunda edição, o percentual caiu para 84%. Nas duas fases do levantamento, o percentual do Brasil é de 89%, um pouco acima da média das seis regiões analisadas. “Este é um dado interessante de se observar, pois, mesmo com as adversidades econômicas que o Brasil vem passando nos últimos anos, os trabalhadores se mantêm otimistas, o que não foi apontado em outros países, como China, Índia e Espanha, que apresentaram queda após a COVID-19”, acrescenta Mariane Guerra, de acordo com a assessoria da ADP.

- Expectativa de existência das funções desempenhadas

Outro ponto avaliado pela pesquisa foi a perspectiva que os trabalhadores têm, para daqui a cinco anos, sobre a função que desempenham atualmente. Sobre essa questão, os brasileiros são os que menos esperam que suas funções sejam extintas dentro desse período, nas duas edições do levantamento. 75% dos entrevistados no Brasil não acham que as funções em que trabalham, atualmente, serão extintas até 2025. Grande parte dos trabalhadores da Europa também não esperam que suas funções acabem dentro dos próximos cinco anos, tendo somente 17% dos entrevistados apostando nessa possibilidade na primeira fase da pesquisa e 16%, na segunda.

- Trabalho flexível

44% dos participantes da pesquisa disseram que os empregadores, atualmente, têm políticas oficiais de trabalho flexível implantadas, em um comparativo com somente um em cada quatro (24%) de acordo com o resultado da primeira edição do levantamento. À medida que a quantidade de participantes que afirmam que a gerência sênior autoriza essa modalidade de trabalho aumentou de 19% para 28%.

No brasil, o percentual de trabalhadores que dizem que as empresas em que trabalham possuem uma política oficial que autoriza trabalho flexível praticamente duplicou em comparação com a primeira fase da pesquisa, aumentando de 27% dos entrevistados para 50%. “Embora a aceitação do trabalho flexível por parte dos empregadores parece estar aumentando, mais de metade dos participantes, de todas as regiões analisadas, afirmam que, em algum momento, durante a pandemia, se sentiu pressionada pelo empregador a voltar para o local de trabalho, embora a recomendação oficial fosse a de manter os trabalhadores não essenciais em casa. Por isso, apesar dos resultados, ainda é cedo para analisar se estamos diante de um cenário que permanecerá após este período”, pondera Guerra, segundo a assessoria da ADP.

Para mostra uma realidade do cenário atual, os pesquisadores quiseram sabem também dos participantes da pesquisa que trabalhavam em um setor que o governo recomendou que os trabalhadores não essenciais ficassem em casa, se se sentiram pressionados pelo empregador para exercer sua função no ambiente de trabalho. 30% dos brasileiros relataram sentir algum tipo de pressão no começo, mas agora não sentem mais. No entanto, outros 17% afirmaram que ainda são pressionados.

- Horas de trabalho e remuneração

No levantamento, os pesquisadores perguntaram também aos trabalhadores, em média, quantas horas por semana achavam que trabalhavam sem remuneração. Na primeira fase da pesquisa, os brasileiros disseram que em torno de 4,3 horas, enquanto na segunda edição o número aumentou para 5,3. Neste ponto, o aumento de horas foi percebido em todas as regiões avaliadas, sendo a América do Norte o lugar que teve o maior crescimento, subindo de 4,1 para 7,1 horas.

No segundo levantamento, os pesquisadores avaliaram quais os sacrifícios que os trabalhadores fariam, no sentido de remuneração, para continuar empregado. 46% dos brasileiros aceitariam redução de sua remuneração para se manter empregados; 18% aceitariam um adiamento; 9% aceitariam a rescisão; e outros 26% não considerariam nada apropriado nem aceitável. Com 51%, os indianos são os que mais aceitariam uma redução em sua remuneração para manter o emprego, seguido pelos chineses, com 34%.

- Forma de trabalho

Antes da pandemia do novo coronavírus, somente 18% dos brasileiros relataram preferir o regime de freelance. No cenário pós-coronavírus, este número teve um pequeno aumento, chegando a 20%. Na Europa, o percentual também mudou nos dois levantamentos, aumentando de 13% para 18%.

Mesmo que os trabalhos estáveis continuem sendo a opção preferencial no cenário pré e pós-coronavírus, as pesquisas mostram que o trabalho freelancer não reduziu. Antes da crise do coronavírus, 15 dos trabalhadores (regulares e freelancers) afirmaram que escolheriam o trabalho freelancer, no lugar de um emprego estável, se as duas opções estivessem disponíveis. Na segunda fase do estudo, o número aumentou para 18%.  Entre os países analisados nas duas pesquisas, os Estados Unidos é o único lugar onde o desejo pelo trabalho freelancer declinou. No cenário atual, 16% dos trabalhadores escolheriam o trabalho freelancer, em um comparativo com os 21% avaliados antes da pandemia.

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