'Ficamos sem rumo': jovens sofrem sem adiamento do Enem

Pandemia fecha escolas e o MEC mantém o cronograma do Enem. Estudantes apontam injustiça na decisão do Ministério

por Lara Tôrres ter, 12/05/2020 - 12:40

O Brasil já ultrapassou 168 mil casos e registra mais de 11 mil mortes por Covid-19. Nesse cenário em que ainda não há vacina ou cura, medidas de contenção, como o fechamento de escolas e empresas, são necessárias para conter o vírus. O aumento de casos levou a pedidos para que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) adie o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), mas o ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirma categoricamente não haver possibilidade de cancelamento ou alterações no cronograma da prova.

O ministro alega que nenhum estudante será prejudicado e anunciou medidas como a reaplicação das provas para participantes que contraírem a Covid-19, mas ignora a criação de um abaixo-assinado pelo adiamento do Enem 2020, apelos constantes de alunos nas redes sociais, ações no Senado, na Câmara dos Deputados e no Supremo Tribunal Federal, todos solicitando mudanças na data do processo seletivo.

Diante das pressões, uma decisão judicial expedida no dia 18 de abril pela juíza Marisa Claudia Gonçalves Cucio, da 12ª Vara Cível da Justiça Federal de São Paulo, suspendeu o cronograma do Exame, adequando-o ao cronograma do ensino escolar. No entanto, uma corte superior, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), determinou que o cronograma não deve ser modificado para não atrapalhar a divulgação dos resultados da prova.

 Uma propaganda oficial do Ministério da Educação (MEC) sobre o Enem, que trazia frases como “estude de qualquer lugar”, “a vida não pode parar” e “se uma geração de novos profissionais fosse perdida, médicos, enfermeiros, engenheiros, professores. Seria o melhor para o nosso país?”, gerou uma onda de comentários revoltados na internet que levou o termo “Enem” aos assuntos mais comentados do Brasil no Twitter.

O que pensam os alunos e professores?

Os motivos alegados pelos defensores do adiamento da prova vão muito além da proteção à saúde dos estudantes e profissionais envolvidos no esquema logístico da aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio. Também estão intimamente conectados tanto aos problemas socioeconômicos do Brasil, quanto às medidas que precisaram ser tomadas para prevenção do contágio da Covid-19.

É comum que as escolas, especialmente as da rede pública, sejam o único espaço onde os estudantes conseguem ter acesso a aulas, materiais didáticos, equipamentos eletrônicos e internet. Com o fechamento desses locais e a restrição dos estudos ao ambiente doméstico, muitos prejuízos de ensino e aprendizado começam a aparecer.

Bruna Letícia de Farias Ferreira tem 17 anos e cursa o terceiro ano do ensino médio na Escola Técnica Estadual Luiz Alves Lacerda, no município do Cabo de Santo Agostinho, Região Metropolitana do Recife (RMR). Ela conta que, durante no período de isolamento, precisa se virar para estudar tendo apenas o celular e a internet de casa que, apesar de ajudar, “varia muito”. Perguntada se, na falta do computador, o telefone móvel supre suas necessidades, a jovem nega taxativamente.

Foto: Cortesia

“Definitivamente não. Ajuda bastante nesse período de isolamento, não vou negar, mas não acho que seja suficiente. No celular existem coisas que distraem e nos tiram do foco, sem falar que existem pessoas que nem isso tem”, diz Bruna.

Questionada sobre o impacto do fechamento da escola no andamento dos estudos, a aluna conta que os professores têm se empenhado em acompanhar as turmas, mas há dificuldades impostas pelo distanciamento na condução dos estudos e no acesso de alguns jovens a equipamentos digitais e internet. “Muitas vezes ficamos sem rumo ao abordar determinado assunto. Não saber como começar, ou até que ponto se aprofundar nele, esse tipo de coisa. Alguns dos meus professores têm se empenhado fazendo lives e gravando vídeos, porém não são todos que são assim, por isso ficamos em déficit em muitas matérias”, conta Bruna.

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No que diz respeito ao calendário do Enem, Bruna considera “injusto e irresponsável” que o cronograma continue inalterado. “Eles não ligam para os alunos. Vários alunos não têm acesso à tecnologia, como eles ficam? À margem? Muitos só têm esse acesso dentro da escola, pedindo a um amigo ou usando algum aparelho funcional da escola. Para eles, até o cadastro do Enem se torna difícil. Me sinto, sim, [prejudicada], já  que tenho dificuldade para estudar em casa e creio que meus colegas também estão com o mesmo problema”, afirma a jovem.

Além de enxergar uma quebra de isonomia na manutenção da data do Enem, a estudante também vê riscos à saúde coletiva e não se sente segura com a ideia de ter que fazer as provas já no mês de novembro. “Uma pandemia não some do nada. Ainda ficarão resquícios da mesma, sendo assim perigoso para os alunos”, teme.

O jovem Alisson Pereira de Souza Borges, de 16 anos, é aluno do terceiro ano na Escola Estadual Doutor Benjamin Caraciolo, que fica no município pernambucano de Sanharó, Agreste do Estado, distante 198 km da capital Recife. Ele define o período de afastamento do ambiente escolar como “muito ruim”, repleto de dúvidas sobre os temas estudados, que só podem ser esclarecidas por meios como o WhatsApp. “Mas não é a mesma coisa quando se está na sala de aulas”, diz o aluno.

Assim como no caso de Bruna, Alisson relata um esforço dos professores para passar atividades, mas explica que na turma, algo em torno de cinco estudantes não têm internet, computador e nem celular, ficando completamente impossibilitados de ter esse acompanhamento pedagógico. Para o Enem 2020, o jovem “aposta” em um grande número de notas baixas, uma vez que expressiva quantidade de alunos não conseguirá se preparar adequadamente.

O medo de contrair Covid-19 durante a aplicação do Exame, segundo Alisson, também existe. Quando questionado se a manutenção do cronograma do Enem pode criar injustiças na disputa pelas vagas nas universidades públicas, ele definiu a decisão de não mudar a data das provas como “falta de ética social”.

“Os [alunos] que têm condições a ter cursinhos, acompanhamentos e recursos não são melhores que ninguém; somos todos iguais, por isso devemos lutar por nossos direitos, não é só porque eu tenho dinheiro que eu sou mais valorizado que você! Somos todos pó dessa terra, dinheiro é só um bem material”, opina o candidato. 

Andréia Caxias de Souza tem 42 anos, trabalha como vendedora na cidade de Petrolina, no Sertão de Pernambuco, e é mãe de um estudante do terceiro ano do ensino médio de uma escola estadual da mesma cidade. A manutenção da data do Exame, segundo ela, afetou a toda a família, uma vez que o garoto tem sofrido um abalo emocional e psicológico muito forte devido ao medo de não conseguir se preparar bem para a prova sem as aulas na escola. “O meu filho faz acompanhamento psicológico, então isso cai nele de forma mais dolorosa. Logo foram suspensas as consultas, mas mesmo assim ia levando nas atividades em casa. Ele até tentou. É difícil nesse momento em que a cabeça está a mil por hora devido à pandemia. Ele diz: ‘tenso só em pensar que a data está chegando e eu não tenho preparação de professores’. É muito triste, porque só queremos o melhor para nossos filhos e me vejo de mãos atadas, porque o poder não se sensibiliza com a classe que tem as dificuldades”, afirma Andreia.

Os professores também sofrem com essa nova realidade para se adaptar ao ensino a distância, dar suporte com aula e atividades, tirar dúvidas do maior número de alunos possível e fazer tudo isso ao mesmo tempo em que cuidam de suas próprias casas, com os recursos que têm à mão. A professora de história e sociologia para o ensino médio Adriana Maria Maia dos Santos tem 47 anos de idade, dos quais 28 foram dedicados à educação, sendo 14 anos na rede pública.

A docente, que atualmente leciona na Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Martins Júnior, localizada no bairro da Torre, no Recife, contou que por mais esforços que sejam feitos, não tem sido possível atingir a todos os alunos com os conteúdos devido às condições de acesso à informação dos estudantes em casa. “Levando em consideração também como esses jovens estão na quarentena, distante da sua rotina de estudo, suas amizades e de todo o ambiente escolar que é sua vida social, a estratégia foi usar EaD. Podemos até conseguir ir adiante no conteúdo, mas não com todos os estudantes. É possível que vários alunos não tenham meios de ficarem conectados. A tecnologia não é tão democrática ainda, ela aproxima, mas também afasta se levarmos em consideração níveis sociais. Por enquanto, estamos mantendo contato pelas redes sociais e o classroom enviando links de textos, vídeos e atividades que os estudantes enviam. Os alunos não optaram por ensino a distância, eles estão acostumadas ao presencial e para o professor também é um universo novo”, descreve a professora.

Os desafios com o uso das ferramentas tecnológicas próprias para o ensino a distância também foram uma realidade à qual os educadores precisaram se adaptar em tempo recorde, contando com apoio tanto das Secretarias de Educação quanto uns dos outros, como contou Adriana. “No primeiro momento senti a angústia dos jovens e como era salutar preenchermos esse tempo, nesse meio tempo um colega foi ensinando o outro a criar sua turma e usar programas. A Secretaria tem acompanhado através da nossa equipe gestora que está dando muito apoio e sendo um elo entre os estudantes e os professores, sobretudo na hora do estresse”, relata ela.

No que diz respeito ao calendário do Enem, Adriana é taxativa ao dizer que o cronograma precisa ser alterado, pois o momento presente é de prioridade máxima para os cuidados com a saúde, com a manutenção da vida e sustentação do sistema público de atendimento básico. “A luta para que os técnicos do Inep vejam a prerrogativa humana não vai ser fácil, por isso precisamos que o assunto não silencie, pois é a análise da conjuntura que envolve a problemática, seja analisando os dados e objetivando uma solução. É uma a luta de todos para que a injustiça não se torne maior”, diz a professora.

Silvânia Miranda Ferreira Figueirôa tem 54 anos e há 14 dá aulas de biologia para o ensino médio na rede pública. Assim como Adriana, ela é professora na Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Martins Júnior e conta que, além da plataforma “Classroom”, tenta usar o WhatsApp para tirar dúvidas dos estudantes, criando grupos com as turmas para estar em contato com os alunos, mas que ainda assim há dificuldades e queixas.

Foto: Cortesia 

“É como se fosse uma turma com 90 alunos; eu estou com 70 inscritos, mas só 35 participam da aula. Os motivos são muitos. Tem alunos que mandam tarefa de 3 horas da manhã, porque dizem que é muita zoada em casa. Outros não conseguem ter acesso, porque não têm telefone e têm que esperar o pai chegar para ter acesso ao telefone e mandar a atividade. E tem aqueles que a gente sabe que não querem, são descomprometidos, mas eu acredito que a maioria tem alguma dificuldade. E eu fico muito triste, porque a gente sabe que muitos são meninos comprometidos, mas relatam que sem ter o professor para estar ali, mediando, preferiam adiar o Enem. Tem questão financeira, emocional, tem os pais que não participam no dia a dia, são várias questões”, detalha a doence a professora.

Professora da área de biologia, Silvânia explica que, além de uma injustiça social, a manutenção do calendário pode causar danos aos que forem aos locais de prova. “Até as pessoas que decifraram o vírus dizem ‘eu não sei’. Mas eu acredito que isso vai durar muito tempo. Estamos tendo uma epidemia dentro de uma pandemia, então o que acontece: acredito que se for a formatação que é de sempre, na questão de aglomeração, é lógico que tem um perigo, porque a gente não sabe quase nada sobre esse vírus. Se os epidemiologistas estão dizendo que isso vai durar muito tempo, que a gente vai ter o pico em maio, sabemos que isso vai ficar; não vai ter esse surto todo, mas acredita-se que possa vir a ter outros surtos como tem de gripe. Então, acredito que seja um perigo sim, que as autoridades deveriam ver isso, que os médicos e o Ministério da Saúde deveriam pautar isso na questão do Enem por conta das aglomerações, porque atinge todas as áreas”, opina a professora.

Para Silvânia, trabalhar a distância foi muito difícil e desafiador no começo, apesar de eça ter desenvolvido uma nova habilidade em sua práxis de trabalho, trazendo um amadurecimento. A educadora enxerga a questão de forma parecida para os estudantes, mas se preocupa com os alunos nessa nova realidade.

“Os [alunos] que não queriam mas na sala de aula, corpo a corpo, quando a gente chamava atenção, ele vinha. Mas, e agora, como a gente vai fazer? Eu primo muito pelo conteúdo, porque o Enem pede isso. Eu fico pensando, a gente está dando aula, mas não é a mesma coisa de todos os dias. Eles já têm perdas independentemente da pandemia. Tudo isso abala emocionalmente, porque eles sabem que a perda existe”, afirmou.

O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) emitiu uma nota pública manifestando “profunda preocupação quanto às datas divulgadas” devido ao fechamento das escolas pois, para a entidade, “não há dúvidas de que os estudantes do terceiro ano do ensino médio são os que sofrem o maior impacto” e “a manutenção do calendário publicado, especialmente das datas de realização das provas, deverá ampliar as desigualdades entre os estudantes em todo o país”.

Procurada pelo LeiaJá, a Secretaria Estadual de Educação e Esportes de Pernambuco seguiu um caminho semelhante, respondendo à reportagem por meio de uma nota que “entende que a suspensão das aulas por tempo indeterminado no país e a insistência do MEC na manutenção do calendário do Enem, especialmente com relação às datas das provas, prejudicam a preparação dos estudantes de escolas públicas e privadas”.

Ainda de acordo com o órgão, “no caso dos estudantes da rede pública, a situação é uma pouco mais grave, pois as diferenças quanto à estrutura para acesso a atividades não presenciais neste momento tendem a aprofundar ainda mais as desigualdades nos resultados entre os estudantes das redes pública e privada”.

Confira, a seguir, a nota na íntegra:

“A Secretaria de Educação e Esportes entende que a suspensão das aulas por tempo indeterminado no país e a insistência do MEC na manutenção do calendário do ENEM, especialmente com relação às datas das provas, prejudicam a preparação dos estudantes de escolas públicas e privadas. No caso dos estudantes da rede pública, a situação é uma pouco mais grave, pois as diferenças quanto à estrutura para acesso a atividades não presenciais neste momento tendem a aprofundar ainda mais as desigualdades nos resultados entre os estudantes das redes pública e privada. Neste contexto, a fim de diminuir os impactos causados pela pandemia e garantir aos estudantes a continuidade do processo de aprendizagem, foram lançadas estratégias para disponibilizar materiais de apoio aos estudantes e permitir o acesso dos jovens a aulas não presenciais. A Secretaria de Educação e Esportes lançou o Educa-PE e o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), plataformas para transmissão de conteúdo na internet e em canais de TV aberta e que concentram recursos educacionais digitais alinhados ao Currículo de Pernambuco além de materiais de apoio para estudo. Também foi lançado a iniciativa PE no ENEM com aulões preparatórios não presenciais todos os sábados pela manhã, em parceria com professores de escolas particulares, com transmissão ao vivo pela internet e por TV aberta. O PE no ENEM está apoiando a preparação para o ENEM de estudantes de escolas públicas e privadas.”

Presidente do Inep tenta justificar manutenção do calendário

Em live realizada pelo LeiaJá por meio do projeto Vai Cair No Enem, o presidente do Inep, Alexandre Lopes, abordou os impactos da pandemia no Enem 2020. Ele tentou justificar por que o atual cronograma está mantido. Assista:

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