Enem sem ideologia, mas objetivo: professores opinam

'Não vai cair ideologia, a gente quer saber de conhecimento científico, técnico, de capacidade de leitura, de fazer contas, de conhecimentos objetivos', disse o ministro da Educação

por Francine Nascimento qua, 25/09/2019 - 18:40
Chico Peixoto/LeiaJáImagens/Arquivo Ministro da Educação, Abraham Weintraub Chico Peixoto/LeiaJáImagens/Arquivo

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, voltou a falar sobre a abordagem do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano. Em entrevista ao programa 'Em Pauta', da TV Brasil, da EBC, o chefe da pasta disse que a edição 2019 do Enem será mais objetiva, focando em conhecimentos científicos e técnicos e que não cairão conteúdos “ideológicos”.

A questão da ideologia no Enem é um dos pontos fortes do governo de Jair Bolsonaro desde os tempos de campanha. Mas o que o governo quer dizer quando fala em ideologismos na prova? Professores expõem o que pensam sobre a postura do governo frente ao Exame.

Para a professora de filosofia e sociologia Thais Almeida, a ideia criada pelo atual governo de que a prova do Enem é “ideológica” não corresponde à realidade. “Primeiro, porque parte de uma noção é distorcida do que é ideologia e segundo porque tem como finalidade mascarar o real objetivo da atual gestão que é perseguir qualquer tipo de abordagem de temas contrários à ideologia do governo que possa vir a aparecer na prova”.

Segundo a docente, a fala do ministro é “hiper ideológica”, porque impõe a ideologia dos atuais dirigentes do Estado sob a desculpa de estar combatendo uma “ideologia de esquerda”.  “As questões apontadas pelos representantes do MEC e pelo próprio presidente como 'ideológicas' não abordam questão 'de esquerda', mas temas relativos ao conjunto dos Direitos Humanos e das chamadas minorias sociais, que nada tem a ver com campo político ideológico, mas com valores de qualquer regime democrático”, completa.

O professor de química Francisco Coutinho concorda com Weintraub em partes, visto que ele acredita que a prova deve propor conteúdos equilibrados, sem que haja uma “supervalorização” ideológica. “No meu ponto de vista, temos que ter cuidado até certo ponto, para que não exista uma generalização dos fatos, nem da retirada da ideologia, pois, mesmo que queira, faz parte de nossa sociedade e do estudo das Ciências Humanas. Mas também não podemos supervalorizar as ideologias em uma prova tão ampla e mista como é a prova do Enem. Não concordo com a ação tendenciosa em uma prova em que teremos vários tipos de pessoas”, conclui.

Na opinião do professor Berg Figueiredo, que também dá aulas de química, já era de se esperar que a prova do Enem, mais especificamente nas disciplinas da área de exatas, os conteúdos surgissem de uma forma mais conteudista. “Eu acredito que a prova vem mais objetiva e com um grau de dificuldade maior, lembrando as provas da antiga Covest, em que o aluno precisa saber de conhecimentos específicos para ter bons resultados no Enem”.

Sobre a abordagem nas outras áreas do conhecimento, Berg não acha que o discurso do ministro, bem como do governo Federal, pode interferir no Exame, pois, segundo o professor, a didática conteudista já é trabalhada nos cursos pré-vestibulares, com um conhecimento mais aprofundado. 

Nas Ciência Humanas e suas Tecnologias, além de Linguagens, é mais provável que haja uma interferência nos assuntos tratados. É o que diz o professor Felipe Rodrigues de português e redação que já está trabalhando na sala de aula propostas de redação e questões mais objetivas que podem exigir mais técnica do aluno. “Na proposta da redação, pode vir um tema que todos concordem de que se trata de um problema, mas que não necessariamente seja algo de cunho social. O problema da redação pode ser um tema mais abrangente como a questão da seca, do clima, a questão do efeito estufa, do aquecimento global. Questões que sejam mais abrangentes, como até mesmo o Ensino a Distância”. Com relação ao discurso do governo contra “ideologias”, Felipe Rodrigues enxerga como sendo declarações contraditórias, pois o próprio presidente já havia dito que não leria a prova.

Ao falar de conteúdos mais técnicos no Enem, Abraham Weintraub proferiu que o Exame vai avaliar os conhecimentos técnicos, incluindo a capacidade de fazer contas. Nas palavras dele, espera-se selecionar os melhores estudantes para ocupar as vagas no ensino superior.

O professor de matemática Ricardo Rocha concorda que alunos devem ter um conhecimento matemático, mas que tal exigência já era cobrada nas edições passadas do Enem. “É natural que as mudanças que o novo governo pode trazer para a prova não nos deixe confortáveis. Mas eu acho que se caírem conteúdos mais específicos e técnicos na prova, não será algo novo, porque já caíam em anos anteriores. O Enem nunca foi uma prova de brincadeira, pelo contrário, sempre exigiu conhecimentos do estudante sobre os assuntos. Em todos os anos a gente ensina o aluno a ter um conhecimento específico na prova”, diz.

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