Professores temem problemas no Enem feito em computadores

Educadores criticaram alguns aspectos do novo formato de prova anunciado nesta quarta-feira (3) pelo MEC. A redação, por exemplo, passará a ser digitada

por Nathan Santos qua, 03/07/2019 - 16:07
Antonio Cruz/ Agência Brasil Abraham Weintraub, ministro da Educação, defende a digitalização do Enem Antonio Cruz/ Agência Brasil

Depois do anúncio de que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passará a ser feito por meio de computadores a partir de 2020, professores opinaram, em entrevistas exclusivas ao LeiaJá, a respeito da impactante mudança. Apesar da proposta do governo federal de explorar recursos digitais e diminuir os custos com a impressão de prova e com todo o aparato humano necessário para a aplicação do processo seletivo, docentes criticaram, a princípio, parte das novidades.

Benedito Serafim, professores de geopolítica, enxerga riscos na realização do Enem digital. “Acho muito mais perigoso. Como é que vai se dar acesso a estudantes do interior? Há cidades do interior que a internet é lenta, existe dificuldade para acessar o computador. O Estado dará aparato para essas provas, como acontece com as eleições? Podem ter casos de problemas técnicos, imagine você está fazendo a prova e cai a energia, ou a internet?”, questionou o professor, em tom de preocupação.

De acordo com o educador, ainda existe o perigo de que o sistema pode ser burlado. Serafim também faz uma análise política, ao identificar que o mesmo grupo que está no governo federal criticou a realização das últimas eleições presidenciais por meio de urnas eletrônicas e agora quer implantar um processo digital e extinguir as provas impressas.

O professor de química Berg Figueiredo até identificou um ponto positivo: “Com as provas digitais, o governo poderá economizar em custos, porque existe um alto custo atualmente na impressão das provas”, apontou Figueiredo. Por outro lado, o educador crava que o Brasil, tecnologicamente falando, ainda enfrenta dificuldades que podem atrapalhar o acesso dos estudantes a computadores.

“O ponto negativo é que no Brasil que nós vivemos tem alguns problemas. Será que todos os candidatos vão ter acesso a esse tipo de plataforma? A plataforma de avaliação vai suportar todos os candidatos naquele período? Como serão feitas essas avaliações?”, indagou o professor de química.

Redação passará a ser digitada

Outra mudança bastante significativa anunciada nesta quarta-feira (3) pelo Ministério da Educação é a digitalização do texto da redação. A prova passará a ser digitada pelos candidatos.

Para o professor de Linguagens e redação Diogo Xavier, é fato que o futuro exige afinidade com recursos digitais. No entanto, ao se aplicar uma redação digitada, o governo desvaloriza ainda mais a prática da escrita à mão. “A linguagem digital é realidade e precisa ser explorada, mas existem riscos. Redação digitada desestimula ainda mais a prática escrita. A questão da redação é delicada, acredito que não deveria haver essa mudança”, opinou Xavier.

O educador ainda acrescenta: “Outro ‘porém’ é que se a prova tiver a mesma dimensão em tempo da tradicional, poderá ser mais cansativo para o candidato ler as questões no computador”.

O também professor de redação Felipe Rodrigues teme um processo de exclusão digital. De acordo com o educador, existo o risco de pessoas sem acesso ou familiaridade com ferramentas tecnológicas ficarem à margem do Enem digital. “Pode acontecer a exclusão de uma massa. Há também a exclusão dos mais velhos que não têm facilidade com ferramentas digitais”, disse.

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