Vítima de racismo, indígena passa em 1º lugar de medicina

Dyakalo Farato Matipu prestou vestibular uma instituição provada de ensino de São Paulo

por Camilla de Assis ter, 26/02/2019 - 11:34
Reprodução/Instagram @eu.farato.matipu.xingu Farato foi aprovado em medicina Reprodução/Instagram @eu.farato.matipu.xingu

O indígena Dyakalo Farato Matipu conquistou o primeiro lugar no vestibular de medicina realizado na aldeia Kuikuro, localizada no Alto do Xingu, no Mato Grosso. Ao total, o processo seletivo do vestibular indígena da Universidade Brasil ofereceu seis vagas para medicina, cinco para odontologia e duas para medicina veterinária.

Segundo informações do portal de notícias G1, Farato já é formado no curso de técnico de enfermagem, passou, no final de 2018, em primeiro lugar no curso de ciências matemáticas da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Ao LeiaJa.com, Foratu informou que não irá conceder mais entrevistas por conta dos comentários agressivos devido à repercussão da sua história.

Ao G1, Farato contou que sofreu racismo por ser indígena, mas que nunca desistiu do seu sonho que era estudar. O indígena só começou a frequentar a escola aos dez anos. Até então, Farato vivia pescando e jogando futebol com outras crianças da aldeia. Quando teve a oportunidade de ler e escrever, precisou sair da escola pois sua família se mudou da aldeia. Então, Farato pegava jornais e revistas do lixo e tentava ler as palavras.

Aos 13 anos, ele descobriu a paixão pela área de saúde quando ajudava os monitores que verificavam as condições dos indígenas. “Eu me perguntava se poderia ser igual a eles. Sempre ia na casa desse monitor, até que ele me chamou para acompanhá-lo. Eu ficava responsável por gotejar os remédios, verificar a temperatura e eu gostava muito”, disse, em entrevista ao G1.

Em 1997, ele fez o processo seletivo para ser agente indígena de saúde, no posto Orlando Villas Bôas. Após a mudança para a cidade de Canarana, em 2013, ele decidiu pedir demissão do emprego para se dedicar aos estudos. Na época, ele ganhava R$ 600, que eram gastos em livros e lanternas, já que o local não tinha energia elétrica.

As dificuldades financeiras também afetaram as condições básicas de vida. “Meu café da manhã era água, meu almoço era água, minha janta era água. Meu sonho era cuidar do meu povo, mas ninguém me dava oportunidade”, disse.

Farato ainda contou que estava pronto para voltar para a aldeia quando foi aberto o processo seletivo para o curso de técnico em enfermagem. Aprovado, ele passou dois anos e 8 meses realizando seu sonho. A formatura foi em dezembro de 2018.

O jovem só soube que a aldeia teria vestibular de medicina um dia antes. “Pedi uma moto emprestada para um amigo e fui para a aldeia, que fica a 340 km de Canarana, cidade onde moro. A estrada é de terra e como havia chovido, tinha muita lama. Eu não conseguia me manter na moto. Caía e levantava o tempo todo. Tive que empurrar a moto por mais de 2h. Sai às 5h e cheguei na aldeia às 18h40. Assim que cheguei, mesmo sujo de lama, fiz minha inscrição para o vestibular, que estava programado para o dia seguinte, às 9h”, conta Farato, ao G1.

O indígena ainda salientou que o resultado do vestibular é fruto de uma promessa realizada há 17 anos. “Eu já tinha prometido há 17 anos, quando o contrato dos médicos que atendiam na nossa aldeia acabou. Lembro que chorei muito quando fiquei sozinho e prometi para mim mesmo que um dia eu faria medicina para ajudar meu povo”, disse.

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