Filho trans de Witzel acredita que pai fará 'caçada LGBT'

"Ele disse que preservaria a família e que seria contra a ideologia de gênero. Acho que vai haver uma caçada à população LGBT", projetou Erik Witzel sobre a gestão do governador eleito do Rio de Janeiro Wilson Witzel (PSC)

por Giselly Santos sex, 09/11/2018 - 10:30
Reprodução/Instagram Erik se afastou ainda mais do pai depois que ele participou da destruição da placa de Marielle Reprodução/Instagram

Erik Witzel, filho do governador eleito do Rio de Janeiro Wilson Witzel (PSC), acredita que o governo do pai fará uma “caçada  à população LGBT” e não terá políticas públicas para o segmento. Erik é transgênero e Wilson Witzel fez questão de publicizar o fato durante a campanha, o que foi reprovado pelo jovem de 24 anos. “Eu não queria a minha imagem e minha condição de gênero associadas às causas dele”, afirmou, em entrevista ao UOL.

“Eu nunca disse 'sou trans' no meu trabalho, por exemplo, mas sempre fui respeitado. Daquela declaração até hoje, eu 'ganhei um rosto', um rótulo de filho trans do governador eleito. E não paro de receber ofensas e ameaças constantes no meu Instagram. Muitas vezes de perfis falsos que se dizem eleitores do meu pai, que falam que sou a vergonha da minha família, me mandam voltar para o armário, dizem que vão rir quando eu for para o caixão”, completou, pontuando que pretende denunciar na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática.

Quanto ao governo de Wilson Witzel, Erik disse não crer em política voltada à comunidade LGBT. “Ele disse que preservaria a família e que seria contra a ideologia de gênero. Acho que vai haver uma caçada à população LGBT. Vou usar a pequena exposição que recebi para ser essa voz. Vamos ocupar escolas, universidades e espaços públicos para mostrar que as pessoas podem ser o que elas quiserem”, projetou.

Erik, que já manifestou discordância das propostas do pai, disse que vai fazer “oposição até o final”. “Serão tempos de muita luta, de resistência. Serei oposição até o final. Vou fazer essa oposição da maneira mais pacífica que puder, é claro. Eu acredito na luta da paz, na mudança de ideias e, a partir disso, mudar as pessoas”, declarou.

Aliado do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), Wilson Witzel defende, por exemplo, o “abate” de criminosos que estejam portando fuzis, por exemplo. E foi eleito com 59,87% dos votos válidos.

“O Brasil não tem pena de morte como se propõe executar alguém sem julgar essa pessoa? Quem vai morrer com essa política? O que me pega nessa declaração é a incoerência. Como um cristão, candidato por um partido cristão, propõe isso? E o princípio do 'não matarás'?”, indagou.

Afastamento do pai

Erik Witzel, que já tinha pouco contato com o pai antes da campanha, decidiu se afastar ainda mais dele depois de ter visto o então candidato participando da destruição de uma placa instalada na capital fluminense em homenagem a vereadora Marielle Franco (PSOL). O jovem já distante do pai disse que a participação de Witzel no ato no qual o deputado estadual eleito Rodrigo Amorim (PSL) exibiu uma placa destruída com o nome de Marielle gerou mais revolta.

“Quando eu ainda tinha Facebook, vi a foto do deputado destruindo a placa. Ainda não aparecia o Wilson na imagem. Fui ao perfil dele e comecei a olhar fotos do dia, investigando em que contexto aquilo tinha sido feito. Quando vi, o Wilson estava lá. Eles vibravam e cantavam”, comentou Erik. “Naquele momento pensei: 'eu perdi o meu pai. Qualquer resto de humanidade dele se perdeu ali'. Foi uma violência. Foi como se eles rasgassem a luta de todas as minorias pelas quais Marielle lutou”, acrescentou.

Depois daquele momento, o filho do governador disse que não se “sentia agredido pelo que era defendido” pelo que o então candidato defendia. Em paralelo, Erik deixou claro que a quebra da placa de Marielle também deu fôlego de luta para ele.

“Quando Marielle morreu, eu a conhecia só de nome. Depois do assassinato, eu pesquisei mais sobre a vida dela e me encantei. Assistindo a esposa dela falando, chorei um dia inteiro. Pela primeira vez me senti absolutamente representado. Fiquei chateado por não ter participado mais ativamente disso tudo. Sempre fui muito receoso, me expunha pouco. Hoje vejo o quanto era infeliz por não levantar essa bandeira. Meu amigo, eu sou a bandeira que eu represento. Levantar a minha bandeira é me levantar. Com a morte de Marielle eu entendi isso”, observou.

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