"É no mínimo torturante", desabafa viúva de motorista

Assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes está prestes a completar três meses ainda sem solução

por Mellyna Reis sex, 08/06/2018 - 07:48

RIO DE JANEIRO - Já são quase três meses sem respostas. A Polícia Civil do Rio de Janeiro segue em silêncio sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. As poucas informações que foram vazadas sobre o caso não são confirmadas pela assessoria de comunicação da Polícia Civil, devido ao sigilo das investigações. 

Essa situação só aumenta a angústia dos familiares das vítimas, que esperam por justiça. "Confesso que é no mínimo torturante. É como se não tivesse um fim tanta dor. Tenho grande convicção de que tudo será solucionado e a justiça será feita. Mas de qualquer modo, não trará meu marido de volta. A dor de não tê-lo por perto é muito maior do que qualquer outro sentimento", desabafou Agatha Arnaus Reis, viúva de Anderson, em conversa com o LeiaJá.

Desde aquele fatídico 14 de março que Agatha está morando com a mãe e o filho de dois anos. "Achei que a dor iria diminuir e dar lugar à saudade, mas só piorou", revela. Em solidariedade à família, internautas conseguiram arrecadar recursos por meio de uma vaquinha online. "O Arthur começou um tratamento hormonal e fez muita diferença no desenvolvimento dele. As coisas estão caminhando muito bem, graças a Deus. Mas a rotina mudou muito, porque Anderson me ajudava em tudo relacionado a ele", conta.

Mesmo conscientes da complexidade do caso, a aflição pela falta de respostas também atinge a família da vereadora. Na última terça (5), Mônica Benício, viúva de Marielle, recorreu ao Instagram para expressar seu incômodo. "Oitenta e três dias sem saber quem foi o responsável por ela não ter chegado para o jantar na quarta-feira. Nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta", escreveu.   

O delegado Giniton Lages, titular da Divisão de Homicídios da Capital, foi o único da Polícia Civil a comentar publicamente o caso, ainda assim, sem muitos detalhes. "É preciso garantir, para o sucesso dessa investigação, em razão da sua complexidade, absoluto sigilo", afirmou Lages, pouco antes da reconstituição, realizada no dia 10 de maio. 

Nesta quinta-feira (7), o G1 divulgou que o vereador Marcello Siciliano (PHS), prestou um novo depoimento esta semana na Divisão de Homicídios da Capital, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Uma testemunha, que já está fora do Rio, apontou o parlamentar por envolvimento no crime. O novo depoimento também não foi confirmado pela polícia. 

Esta semana, um delegado que já atuou na Divisão de Homicídios da Capital escreveu uma carta ao jornal O Globo, na qual aponta as precariedades que a polícia enfrenta para elucidar crimes. "Sinto muito em confessar-lhe [Marielle] que a solução de seu caso pressupõe a paralisação de uma infinidade de investigações de outras mortes, pretas e brancas, ricas e pobres, todas covardes. Escolha de Sofia", disse Brenno Carnevale, lotado no setor de inteligência da polícia.

Ainda segundo o delegado, a Civil opera com baixo efetivo, armamentos defasados, escutas telefônicas inacessíveis e com escassez de materiais básicos, como impressora para emitir documentos. "Nunca presenciei deputados ou outros poderosos lutando por equipamentos que permitam encontrar evidências durante a perícia no Instituto Médico-Legal", criticou.

O desabafo de Carnevale, no entanto, surpreendeu a família da vereadora, que só tomou conhecimento do conteúdo pela imprensa. "Essa carta não chegou para gente, a gente não sabe de onde surgiu. A gente está pedindo para que a polícia se pronuncie, não a gente", explicou Anielle Franco, irmã de Marielle. 

Servidora estadual que lida diariamente os impactos da crise no Rio, Agatha não se surpreendeu com as condições narradas pelo delegado, mas lamentou a situação. "Não fico nada feliz sabendo que há casos parados para investigarem as mortes do Anderson e da Marielle, teria que acontecer sendo o falecido quem quer que seja. Isso é motivo de vergonha para nossos políticos. E como cidadã, me envergonho também", disse.

No próximo dia 14, quando o crime completará três meses, a equipe da mandata Marielle Franco vai apresentar o Relatório da Comissão da Mulher, na qual a vereadora era presidenta. O lançamento será no dia 14 de junho, às 18h, no Plenário da Câmara Municipal

O documento estava sendo produzido pela equipe com os dados de trabalho de um ano e estava planejado para ser lançado em abril. Após a morte de Marielle, o material foi finalizado, revisado e ampliado para incorporar todas as ações realizadas pela parlamentar até o dia 14 de Março.

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