Desinformação prejudica luta contra o câncer no Brasil

Pesquisa revela que muita gente ignora a relação entre maus hábitos e o aparecimento da doença

qua, 08/05/2019 - 18:03

Aumentar o nível de informação e combater os mitos que envolvem o câncer são desafios que precisam ser enfrentados pela sociedade brasileira. A opinião é da médica Paula Sampaio, oncologista clínica, com base em recente pesquisa encomendada pelo Instituto Oncoguia ao IBOPE.

“De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), nós podemos evitar pelo menos 33% dos cânceres cortando o cigarro, adotando dietas mais saudáveis e diminuindo o consumo de álcool. Evitar a exposição ao sol sem proteção e o sedentarismo também são fatores fundamentais", destaca a oncologista. A OMS estima, observa a médica, que somente o abandono do hábito de fumar aumenta a proteção contra a doença em cerca de 50%.

Os números revelam que 8% dos entrevistados não associam o câncer ao cigarro, que é o principal fator de risco. O segundo é a obesidade, mas 62% não veem relação entre essa condição física e a doença.

Segundo documento recente do INCA (Instituto Nacional de Câncer), a obesidade está associada ao risco de câncer de esôfago, estômago, pâncreas, vesícula biliar, fígado, intestino e rins. No Brasil, a estimativa para 2019 é de 634 mil novos casos da doença. Esse número equivale a mais de um caso por minuto.

A médica Paula Sampaio ressalta que 30% dos cânceres são considerados evitáveis. Têm relação direta, afirma, com estilo de vida, com fatores de risco como tabagismo, obesidade, sedentarismo e má alimentação. "Por isso, antes de contar apenas com os avanços da medicina, as pessoas devem buscar a prevenção (consultas e exames periódicos, de acordo com a recomendação de especialistas)”, diz a médica.

A pesquisa do IBOPE mostra também que 32% dos brasileiros acreditam que o câncer é causado por traumas psicológicos. Ou seja, acreditam em algo que não tem nenhuma comprovação científica, enquanto os verdadeiros fatores de risco são ignorados.

“Muitos pacientes perguntam: será que meu câncer tem relação com o fim do meu casamento, com a minha demissão? É preciso deixar claro: estresse, depressão, tristeza, nada disso causa câncer”, alerta a psicóloga oncológica Rivonilda Graim. Para ela, “problemas emocionais como a depressão têm que ser monitorados e tratados". 

O sistema imunológico, que contra-ataca as células do tumor, pode ser sabotado em quadros de depressão, diz a psicóloga. "Além disso, se a pessoa não aceita o diagnóstico, automaticamente vai rejeitar o tratamento, levando, obviamente, a um grande risco de fracasso. Tristeza profunda, falta de esperança e outras emoções negativas podem diminuir a adesão a remédios, exames, consultas. Isso, sim, compromete o sucesso do tratamento”, avalia. “Ao contrário, quando o paciente aceita e se compromete com o que é proposto, ele pode mudar o resultado.”

A pesquisa do Oncoguia/IBOPE apontou dados positivos também: 60% dos brasileiros sabem da importância do diagnóstico precoce e 43% acreditam que o câncer pode ser curado se for detectado no início.

No entanto, mais da metade, 56%, não acredita que é possível diagnosticar rapidamente um câncer no serviço público de saúde e 73% não acham possível iniciar o tratamento em até 60 dias, como determina a legislação brasileira. O principal motivo apontado é a fila de espera nos hospitais.

Reportagem de Dina Santos, especialmente para o LeiaJá.

 

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