Caso Marielle: delegado expõe precariedades na polícia

Em carta escrita para Marielle, divulgada pelo O Globo, o delegado Brenno Carnevale diz que a "solução do caso pressupõe a paralisação de uma infinidade de investigações de outras mortes"

por Mellyna Reis qua, 06/06/2018 - 19:25
Mídia Ninja Vereadora do PSOL foi executada há quase três meses e ainda não há solução para o caso Mídia Ninja

RIO DE JANEIRO - O delegado lotado do setor de inteligência, Brenno Carnevale, escreveu uma "carta à Marielle" na qual expõe as dificuldades que a Polícia Civil do Rio de Janeiro enfrenta. O conteúdo foi divulgado pelo jornal O Globo nesta quarta-feira (6).

No texto, Carnevale diz que a polícia trabalha com viaturas quebradas, pouco efetivo e que falta até materiais básicos, como impressoras para emitir documentos. "As escutas telefônicas, quase uma caixa-preta, muitas vezes inacessíveis a alguns delegados. Algumas armas somem, outras não funcionam. Nunca presenciei deputados ou outros poderosos lutando por equipamentos que permitam encontrar evidências durante a perícia no Instituto Médico-Legal", afirma. 

O delegado diz que a solução do caso, que inclui a morte do motorista Anderson Gomes, "pressupõe a paralisação de uma infinidade de investigações de outras mortes, pretas e brancas, ricas e pobres, todas covardes. Escolha de Sofia". Carnevale também critica o andamento legal dos processos de homicídios.

"Alguns casos foram solucionados, mas a maioria das investigações ainda segue o errante caminho entre Delegacia de Homicídios e Ministério Público, à espera de uma empoeirada prateleira de arquivo onde possa descansar em paz", conta. 

Segundo O Globo, enquanto estava na Divisão de Homicídios, Brenno Carnevale atuou no caso do assassinato da menina Maria Eduarda Alves da Conceição, 13 anos, baleada numa aula de educação física dentro da Escola Municipal Daniel Piza, em Acari, Zona Norte do Rio. O homicídio, que resultou no indiciamento do policial militar Fábio de Barros Dias, do 41º BPM (Irajá), ocorreu em março do ano passado.

A assessoria de comunicação da Polícia Civil não vai se pronunciar sobre o caso e disse apenas que o próprio delegado é quem pode comentar sobre a carta que escreveu. Contudo, o delegado não autorizou a passar seus contatos. Confira a íntegra do texto: 

"Carta à Marielle Franco"

Marielle, durante quatro anos ininterruptos de minha vida estive diretamente envolvido em investigações de mortes violentas no Estado do Rio de Janeiro. Acumulo em meu coração ardentes cicatrizes que me fazem lembrar mães, pais, filhos, irmãos, maridos, esposas. Todos vitimados pela maldade humana. Foram muitas madrugadas sem repouso. Muitas lágrimas na penumbra da folga. Assisti a muitos sorrisos desmancharem-se diante da morte. Ouvi gargantas secarem de tantos gritos de dor ao verem de perto a fragilidade do ser e deixar de ser humano.

Carregava em meus ombros a pesada esperança do sucesso das investigações, afinal, meu trabalho representava o horizonte pós-tempestade para as famílias aviltadas pela violência. Era pouco, mas era tudo. Não fui herói. Alguns casos foram solucionados, mas a maioria das investigações ainda segue o errante caminho entre Delegacia de Homicídios e Ministério Público, à espera de uma empoeirada prateleira de arquivo onde possa descansar em paz. Ali se abafam os gritos por justiça ecoados pelos parentes e amigos daqueles que passaram a ser apenas mais um nome impresso em uma guia de remoção de cadáver.

Não precisamos de heróis. Mas escrevo-lhe a verdade, Marielle. Poucos se preocupam com as mortes diárias. São muitas as agruras das investigações policiais em homicídios no Rio de Janeiro. As viaturas, por exemplo, estão sucateadas e sem manutenção. A quantidade de investigadores é pífia diante do volume de vidas humanas ceifadas. As escutas telefônicas, quase uma caixa-preta, muitas vezes inacessíveis a alguns delegados. Algumas armas somem, outras não funcionam. Nunca presenciei deputados ou outros poderosos lutando por equipamentos que permitam encontrar evidências durante a perícia no Instituto Médico-Legal. Aliás, esse mesmo instituto não tem impressora para permitir que uma testemunha seja ouvida imediatamente quando vai liberar o corpo de seu ente querido. Sim, muitos veículos apreendidos ficam abandonados e sem qualquer vigilância. Ouse chamar atenção para este fato e a resposta será sempre a mesma: "É assim mesmo".

E, mesmo assim alguns colegas ainda insistem em se apresentarem em impecáveis ternos e gravatas para bradar nos microfones que está tudo em ordem. Heróis? Diante do caos programado, sinto muito em confessar-lhe que a solução de seu caso pressupõe a paralisação de uma infinidade de investigações de outras mortes, pretas e brancas, ricas e pobres, todas covardes. Escolha de Sofia.

Infelizmente não tive a oportunidade de contribuir para a elucidação de sua covarde morte, e me desculpo por isso. Me aprofundei sobre a árdua e interrompida missão que você com êxito cumpriu por aqui e não pude deixar de escrever-lhe para pedir socorro. Socorro pelas investigações das mortes violentas. Socorro por amor ao ser humano que sei que você, Marielle, ainda nutre onde quer que esteja, mesmo em tempos difíceis de intervenção funeral. Com respeito e afeto, Brenno Carnevale Nessimian.

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