PM é o primeiro homem trans advogado de Pernambuco

Leonardo Luaas Pinto de Melo foi aprovado no exame da Ordem dos Advogados (OAB) no último dia 19 de fevereiro. Ele sonha em, através do Direito, ajudar a população trans contra a segregação social

por Jorge Cosme ter, 13/03/2018 - 08:30
Rafael Bandeira/LeiaJáImagens Para o policial militar que sofreu violências ao longo de toda sua vida, este é seu momento mais feliz Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

No seu aniversário, Leonardo Luaas Pinto de Melo sentiu a mesma inquietude e tristeza que sente nos dias quatro de março de todos os anos. Completando 37 anos, não celebrou nem se reuniu com os amigos. A infelicidade com a qual conviveu naquele dia é uma ponte direta para uma época que ele não se sente bem em voltar. Justo agora aquela sensação ruim volta, justo quando ele vive o melhor momento de sua vida.

Foi no último dia 19 de fevereiro que Leonardo descobriu ter sido aprovado no exame da Ordem dos Advogados (OAB). Uma conquista que para ele ocorreu com certa naturalidade, mas que, como o próprio tem percebido, possui um valor para muitas pessoas e traz responsabilidades. Policial militar há sete anos, Leonardo se tornou o primeiro homem trans advogado em Pernambuco.

Cauteloso, Leonardo alerta que há outros advogados trans no estado, só que esses vivem no anonimato. Ele seria o primeiro a 'meter a cara', como o mesmo coloca. O rapaz não pode exercer a função de advogado enquanto estiver na Polícia Militar (PM).

Se esse é o momento mais feliz da sua vida, pouco disso tem a ver com a OAB, ele acaba confessando. Está casado há dois anos. Há pouco mais de um ano iniciou sua terapia hormonal. Cada vez que se vê fazendo a própria barba é preenchido com uma felicidade difícil de pôr em palavras. 

Infância, adolescência e aniversários foram rodeados de incertezas, medo e violências. "Minha vida foi marcada por muitos episódios de bullying, muitos, diários, e em todos lugares que passava, todos", lembra. Ele era alvo de piadas na escola, no curso de inglês, no curso de natação. As festas de aniversário eram traumáticas e voltam à memória em cada quatro de março porque ele nunca quis receber bonecas ou panelas, mas continuava recebendo ano após ano - repassava tudo para a irmã.

A primeira experiência profissional, estágio em uma loja de roupas infantis de um shopping, foi extremamente constrangedora. De salto alto e maquiagem, Leonardo não se reconhecia e não entendia por que precisava passar por aquilo. "Você não consegue representar um papel muito tempo. Eu não conseguia, simplesmente não conseguia fazer".

Na Polícia Militar (PM), Leonardo ainda tenta a mudança do seu nome nos documentos. Ele tem ciência que o seu local de trabalho é um ambiente hostil. "É difícil. A Polícia Militar é uma instituição patriarcal, historicamente machista, então é um desafio maior. Mas procuro exercer com naturalidade e trazer a discussão de uma forma justa, para que outras pessoas que passam pelo mesmo transtorno possam se exercer dentro e fora da instituição", ressalta. Não tem amigos na polícia. 

Ele trabalha dentro do Complexo do Curado, o maior complexo prisional de Pernambuco, no Batalhão de Polícia de Guarda (BPGd). Oficialmente um advogado, pretende agora pesquisar sobre os presos transexuais e a relação entre o preconceito sofrido e a introdução dessa população na criminalidade. Por enquanto, a PM é uma forma de se estabelecer financeiramente, mas no futuro Leonardo quer estar cada vez mais ajudando a população trans contra a segregação. "Quero tentar ajudar essas pessoas a se reinserirem na sociedade".

O mais novo advogado recebeu uma homenagem na Câmara dos Vereadores do Recife através de um voto de aplauso. O pedido foi feito pelo vereador Ivan Moraes (Psol), que destacou no plenário uma pesquisa de 2016 apontando que 66,4% dos homens trans já pensaram em suicídio - Leonardo faz parte desse número. A mesma pesquisa, realizada por Roberto Cezar Maia de Souza, do curso de Psicologia da UNINASSAU, traz também que 94,5% dos homens trans já se sentiram deprimidos por enfrentarem dificuldades por conta da identidade de gênero. Daqueles que afirmaram ter depressão, 25,9% definiram como 'muito alta'.

Sobre o mercado de trabalho, 52% dos homens trans revelaram estar desempregados. Dos que trabalham, 58,9% é no mercado formal, 26,6% no mercado informal e outros 14,5% atual como DJs, no INSS, ou são funcionários públicos. De todos os entrevistados, 3% afirmaram que já precisaram se prostituir. Ainda, o levantamento indicou que 71,6% dos pesquisados já passou por violência transfóbica, como violência verbal (94,7%), violência institucional (38%), violência física (18,1%) e outros tipos de violência - psicológica, por exemplo (6,4%). 

Para a homenagem na Câmara dos Vereadores do Recife, Leonardo Luaas escreveu uma carta cujo trecho ele recita no vídeo abaixo:

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