Luta e resistência: por um 8 de março de reflexão coletiva

Neste Dia Internacional da Mulher, personagens apresentam suas perspectivas sobre a sociedade brasileira marcada pelos feminicídios e estupros de milhares de mulheres

por Lorena Andrade qui, 08/03/2018 - 06:32
Marcello Casal Jr/Agência Brasil Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Oito de março, Dia Internacional da Mulher. Mas não queremos nada de festas, presentes, flores ou chocolate. Queremos e merecemos muito mais. A data, oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975, tem o intuito de relembrar as lutas sociais, políticas e econômicas travadas por nós, mulheres. Apesar de há alguns anos ser entendida pela sociedade como um dia de festa, apenas nós sabemos o longo caminho que precisamos, ainda, percorrer para que, de fato, celebremos o dia que nos "homenageia".

O Brasil continua sendo um dos lugares mais violentos do mundo para vivermos. E não estamos falando só de violência física. Preconceitos de vários tipos, machismo, assédio nas suas mais diversas formas, menosprezo e diferenças salariais são algumas das agressões as quais somos submetidas diariamente.  

Para marcar esse dia de batalha, o LeiaJa.com separou a história de quatro mulheres, de diferentes perfis, que concordam em um aspecto: ainda falta muito para que o dia 8 de março seja, realmente, de comemoração. Para essas mulheres, a data representa luta, resistência e enfrentamento. 

Voz e arte contra o assédio

Isabella Marques, 29 anos, professora e militante da Marcha Mundial das Mulheres. Aos 12 anos sofreu o primeiro assédio e, a partir daí, se descobriu feminista. Aprendeu que não podia se calar, que precisava ter voz. No dia a dia da profissão, procura emponderar as alunas adolescentes da escola onde ensina para que elas conquistem seu espaço na sociedade. Como forma de nos homenagear nesse dia de luta, Isabella recitou o poema “Retratos”, da poetisa potiguar Graça Graúna. 

;

Quando o feminicídio mata quem você ama

Ana Amelia Uchoa, 34 anos, policial civil e amiga da fisioterapeuta assassinada em 2017, Mirella Sena. Ana trava uma batalha diária para ser respeitada como mulher na sociedade e, em especial, no seu ambiente de trabalho, uma delegacia repleta de homens. Frases como “isso não é coisa de mulher”, “você deveria ter outra profissão”, fazem parte do dia a dia da policial civil. Apesar de trabalhar para manter a segurança da sociedade, Ana Amelia se viu impotente em 2017 ao receber a notícia de que uma das suas melhores amigas foi assassinada pelo vizinho. Mirella foi mais uma vítima de feminicídio, que é o crime de ódio motivado pela condição de gênero. Dados apontam que o número de mulheres mortas no Brasil só cresce. De acordo com levantamento do G1/USP, no ano passado foram 4.473 homicídios dolosos contra mulheres, sendo 946 feminicídios - um aumento de 6,5% em relação a 2016.

A mulher negra resiste

Biatriz Santos, 24 anos, estudante do curso de Serviço Social na UFPE e militante do Coletivo Juventude Negra Cara Preta. Ela se considera feminista desde que nasceu. Filha de auxiliar em serviços gerais e neta de empregada doméstica, Biatriz cresceu ouvindo frases racistas e preconceituosas, tanto por parte dos patrões da mãe e da avó, quanto pelos colegas na escola. Foi ensinada desde cedo a nunca se deixar abalar e sempre procurar se impor em todas as camadas da sociedade. Após muito esforço, conseguiu seguir um caminho diferente do da sua família e foi aprovada no vestibular da Universidade Federal de Pernambuco. A luta na Universidade também é diária, conta, mas Biatriz enxerga nisso uma oportunidade de ser exemplo para que outras meninas negras lutem pelo seu espaço e percebam que lugar de mulher e negra é onde ela quiser. 

Por um feminismo agregador

Natália Cordeiro, também 24 anos, é cientista política e atua no Fórum de Mulheres Pernambuco. De dentro da rede, busca estabelecer diálogos que permeiam desde a legalização do aborto ao enfrentamento ao racismo pelas mulheres negras. Crê num feminismo agregador, capaz de debater classe, raça e gênero de forma conjugada e não excludente. Ao examinar as questões referentes à mulher de um ângulo nacional, ela é crítica ao "desmonte das políticas públicas" e aos retrocessos que, ao seu ver, têm sido regra do governo Temer. Mesmo com muitos revezes, vê na articulação sócio-política ativa o único modo de angariar vitórias nas lutas diárias contra o machismo entranhado na sociedade brasileira.

COMENTÁRIOS dos leitores