Nomes de ruas: detalhes de uma sociedade ainda machista

Segundo especialistas, pequena quantidade de mulheres homenageadas nas ruas das cidades é reflexo da desvalorização da participação feminina no espaço público

por Alice Mota seg, 24/04/2017 - 07:59
Alexandre Cunha/LeiaJáImagens Uma das poucas exceções de ruas 'femininas', no Recife, é a Rua Amélia, no bairro das Graças Alexandre Cunha/LeiaJáImagens

Todos os dias a população brasileira vivencia a cidade. Indo para o trabalho, escola, faculdade, para o shopping, cinema, centro da cidade ou flanando, as pessoas sentem os centros urbanos e as ruas que os constituem. Em meio a todos os elementos do cotidiano, alguns se questionam: que ruas são essas que passamos todos os dias e se cristalizam como referências? Quem são essas pessoas que nomeiam as metrópoles brasileiras? Por que a maioria das homenagens, em nomes de ruas e locais públicos, são para homens nas cidades?  

De acordo com uma pesquisa realizada em 2012, pela Secretaria de Direitos Humanos e Segurança Cidadã (SDHSC), no Recife havia, na época, 11.761 logradouros dos quais 561 eram nomeados por mulheres. O levantamento aponta também que a maioria das mulheres que nomeiam as ruas só foi escolhida por possuir algum tipo de relacionamento com homens de destaque na comunidade. 

Um levantamento nacional realizado pelo grupo Gênero e Número aponta que, do valor aproximado de 800 mil logradouros existentes no Brasil, cerca de 20% homenageiam mulheres. No Recife, enquanto 31 deputados são homenageados nas ruas da capital pernambucana, apenas uma deputada nomeia uma rua – a Deputada Cristina Tavares.  

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A dissertação de mestrado em História de Penha Mara Fernandes Nader, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), traz a discussão sobre "A Sutileza da Discriminação de Gênero na Nomenclatura dos Logradouros Públicos", como nomeia a dissertação. Ela coloca que o poder público escolhe majoritariamente nomes de homens para batizar os espaços públicos em virtude de um preconceito significativo, e isso retira a figura feminina da construção da memória da cidade. "As mulheres são pouco lembradas com seus nomes nos logradouros como se elas não fossem dignas do recebimento dessa homenagem", diz a pesquisadora.  

Nader explica em sua dissertação que, uma vez que os nomes escolhidos para serem homenageados estão no alcance do sistema de poder local, o conjunto de dados "reflete a correlação de forças que o mantém". O ato seria, portanto, uma reprodução da desigualdade de gênero, uma vez que está revestido de relações de poder. 

No Recife são muitos os logradouros que expressam essas relações de supremacia de gênero. O Terminal Integrado Joana Bezerra, por exemplo, foi batizado assim em homenagem à Dona Joana Bezerra, casada com o Coronel português Belchior Alvez Camelo, dono de terras na ilha de Santo Antonio.

Uma das poucas excessões é a tradicional Rua Amélia, no bairro das Graças. O nome é uma homenagem a Amélia Alves da Silva Oliveira, figura da alta sociedade recifense do século XIX e que viveu onde hoje funciona o Museu do Estado. À época, com a sobras dos alimentos do casarão, Amélia preparava cestas de comidas e deixava pela calçada da via, para pessoas mais necessitadas. O local ficou conhecido como "Rua de Dona Amélia" e, posteriormente, Rua Amélia. 

A mestra em desenvolvimento urbano, Lúcia Siqueira, também esclarece sobre o que representa a minoria de personagens femininas homenageadas. “Reflete como a nossa sociedade não dá importância à participação da mulher na formação das cidades”, diz ela. 

Lúcia lembra que “nas comunidades o papel da mulher é muito forte” e traz o exemplo da Ilha de Deus. Em 2009, foi inaugurada a Ponte Vitória das Mulheres, única ligação da ilha ao continente, e assim chamada em referência à forte liderança feminina na comunidade. “Na cidade dita formal, você não vê esse reconhecimento (...). Nem as mulheres com participação política são lembradas”.  

Ela ressalta, ainda, que a mulher, pelo que é entendido sobre masculino e feminino, vivencia mais o espaço urbano que o homem. “É mais que justo colocar o nome de outras mulheres que são referência, das que fortalecem [o movimento], no espaço público”.  

O processo de nomeação 

O batismo de um logradouro se dá através de um Projeto de Lei, que deve ser proposto por um vereador e tem até 60 dias para ser votado na Câmara municipal, explicou o diretor do Departamento Legislativo Paulo Rogério Nascimento. O diretor, contudo, não soube responder sobre a razão de existirem tão poucas propostas para homenagear mulheres.   

Sobre a questão de gênero, a vereadora Marília Arraes (PT) criou um projeto de lei que intercala a nomeação de logradouros entre nomes de homens e mulheres. Conforme a justificativa do projeto, a nomeação das ruas confere “uma identidade às pessoas que ali residem, trabalham ou transitam com frequência. Consta no documento que é de interesse público e a vereadora explica que está relacionado ao empoderamento feminino, contudo, o projeto criado em 2015, não tramita mais na câmara.  

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