Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo

Com poucas oportunidades de trabalho, muitas recorrem à prostituição

por qua, 19/04/2017 - 17:39

Atualmente, o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. Só no ano passado foram 70 casos, chegando a 600 nos últimos seis anos. Transexuais são pessoas que não se identificam com o corpo em que nasceram. Por exemplo, alguém que biologicamente nasceu mulher mas que, mental e emocionalmente, se sente como homem. O preconceito e a não aceitação estão na raiz da violência contra essas pessoas, que, por falta de melhores oportunidades, muitas vezes acabam se prostituindo – o que retroalimenta o ciclo de preconceito e agressão.

Kathelyn Domingues, de 29 anos, e Jéssica Andrade, de 25, são transexuais e se prostituem nas ruas de Guarulhos. Acostumadas ao preconceito e à violência, elas procuram ignorar a discriminação e reclamam de coisas como a dificuldade para mudar de nome. Segundo elas, muitas pessoas insistem em chamá-las por seus nomes de batismo – nomes masculinos – com o único objetivo de constrangê-las. Para alterar o nome nos documentos, é preciso abrir um processo judicial e elas não têm condições. Então, utilizam o nome social só na assinatura da carteira de identidade, mas o nome que consta na parte de trás é o de batismo.

Nas ruas, Kathelyn e Jéssica já foram vítimas de violência mas nunca fizeram boletim de ocorrência. Kathelyn conta que, muitas vezes, já sentiu medo e já desconfiou de clientes. Ela conta que a violência contra prostitutas é muito frequente. Sobre o preconceito que sofrem em relação ao seu gênero, elas dizem que conseguem passar por cima da discriminação.

A maior dificuldade que sentiram na profissão foi enfrentar o medo no começo, quando não sabiam como funcionavam as coisas e também por não confiar nos clientes. Apesar de afirmar que não tem problema em dizer que é “profissional do sexo”, quando alguma desconhecida pergunta, Jéssica prefere dizer que é cabeleireira, profissão que exercia antes de se prostituir. Ela diz que gostaria de abrir um salão de beleza. Kathelyn sonha em ser esteticista. As duas acreditam que as empresas não dão emprego a pessoas como elas porque os chefes não querem ter sua imagem associada a transexuais, mesmo que tenham diploma.

Com o aumento da luta das mulheres pelos seus direitos, Kathelyn e Jéssica acreditam que a violência que sofrem tende a diminuir. Para elas, a denúncia de crimes pelas redes sociais reduz a impunidade e, com instrumentos como a Lei Maria da Penha, os homens tendem a pensar duas vezes antes de fazer algo que possa levá-los à cadeia.

“Ninguém é obrigado a gostar do que a gente faz ou do que a gente é, mas o mínimo que a gente precisa e merece é respeito”, diz Jéssica. 

 

Por Beatriz de Gouvêa Candido

 

 

 

 

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