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Ônibus cruzam avenidas apagados por medo de assaltos

Casos acontecem em locais como Avenida Sul, no Recife; na II Perimetral, em Olinda; e na BR-101, em Jaboatão dos Guararapes

por Jorge Cosme qua, 08/03/2017 - 17:52

Primeiros dias de março e a Região Metropolitana do Recife (RMR) já contabiliza 750 assaltos a ônibus, segundo dados do Sindicato dos Rodoviários. Em 2016, ano no qual houve um aumento drástico nesses crimes, tal número de ocorrências só foi alcançado entre maio e junho.

A situação parece fora do controle, afetando não só os passageiros mas também os próprios profissionais do transporte público. O vídeo abaixo é um exemplo disto. Ele mostra o interior da linha de ônibus 243- Vila Dois Carneiros intencionalmente às escuras, para evitar assaltos.

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O caso é registrado na Avenida Sul, na área central do Recife, um dos locais considerados mais perigosos pelos rodoviários.  Pouco antes de chegar à via, por volta das 23h, o motorista apaga as luzes e segue a viagem em grande velocidade e queimando paradas – cortando os semáforos vermelhos sempre que possível. Em outras situações, eles chegam a pegar trajetos alternativos em que não há paradas.

Há pelos menos um ano alguns motoristas fazem este tipo de ação, apagando as luzes e colocando no letreiro do veículo o nome “Garagem”. Entretanto, de acordo com passageiros e profissionais, a prática está mais comum nos últimos meses. “Até o mês de novembro estava mais tranquilo, mas de dezembro para cá virou uma bagunça”, conta um motorista do Vila Dois Carneiros que não quis se identificar.

O motorista diz também que só em 2016 foi assaltado cinco vezes. “Estamos apagando as luzes sim e mesmo assim eles estão forçando a parar”, explica. Conforme o motorista, duas semanas antes do Carnaval, um condutor se recusou a parar após uma abordagem, os assaltantes reagiram e cinco tiros atingiram o para-brisa do veículo.

Já no dia 23 de fevereiro, foi o próprio motorista que se viu em situação semelhante. “Eles apareceram na frente do ônibus. Eu me deitei no motor e botei por cima. Eu já tinha pensando que eu pararia em uma situação dessas, mas na hora fiquei no tremor, o psicológico vai a mil. Ainda ouvi um barulho de tiro, mas não atingiu o veículo”, finaliza. 

O Sindicato dos Rodoviários diz não passar essa orientação, mas está ciente que a situação acontece. “Na realidade, os operadores estão com medo de trafegar no local, por ser bastante inseguro, com índice de criminalidade elevado. Apagando as luzes, eles tentam disfarçar, para que o assaltante não venha visualizar o interior do veículo, para saber quantas pessoas estão dentro”, conta o porta-voz do sindicato, Genildo Pereira. 

Segundo Genildo, isto não acontece apenas com o Vila dois Carneiros e nem só na Avenida Sul. Muitos motoristas também apagam as luzes na II Perimetral, em Olinda.

Para combinar melhor ponto de embarque, motoristas dão números de celular a passageiros

Além desses locais, em Jaboatão dos Guararapes, em pontos como BR-101, nas proximidades da fábrica da Coca-Cola e entrada do bairro de Cavaleiro,  a situação se repete, como conta o próprio motorista da linha 409 – Curado IV/Barra de Jangada. “Os criminosos sabem os melhores locais, esperam a viatura da polícia passar, ficam escondidos. Mas quando eles veem que o carro está apagado, com o nome ‘Garagem’, eles já pensam que tem alguma coisa errada, podendo haver um policial dentro ou alguém armado”, diz o rodoviário. 

De acordo com o motorista da linha 409, é comum passageiros que pegam os últimos ônibus da noite ter o número de telefone dos motoristas. “Eles me ligam para saber em que local eu estou e não ficam nem nas paradas. Ficam esperando em frente a hotéis, postos de gasolina, etc”, finaliza. 

Questionada, a Urbana-PE, sindicato das empresas de ônibus, disse que o procedimento não consta no Manual de Operações do Sistema de Transporte Público de Passageiros (STPP) e que vai apurar os casos com as empresas operadoras das áreas. 

Sobre medidas de segurança, a Urbana-PE informou que investiu na bilhetagem eletrônica e no estímulo ao uso dos cartões eletrônicos para pagamento de passagens, reduzindo a circulação de dinheiro a bordo. “O setor tem ainda investido em câmeras de vídeo, cofres nos veículos e sistema de GPS. Também reforçamos que as empresas operadoras enviam relatórios detalhados com os registros dos assaltos às autoridades competentes de forma a permitir o planejamento da ação policial. 

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