Médicos alertam: câncer vai matar mais brasileiros

Em 12 anos, a doença se tornará a principal causa de mortes no Brasil, segundo as estatísticas. No Pará, o cenário preocupa.

qua, 08/02/2017 - 19:01
Divulgação A oncologista Paula Sampaio diz que mudança de hábitos ajuda a combater a doença Divulgação

Por ano, as doenças do coração e o câncer são responsáveis pela morte de 542 mil brasileiros, segundo o registro do Datasus. Os problemas cardiovasculares ainda lideram as causas de óbitos, mas se o Brasil não investir em mudanças substanciais nas políticas públicas de prevenção, detecção e tratamento do câncer, a doença se tornará a principal causa de mortes no País já em 2029.

O alerta é do Observatório da Oncologia, uma plataforma de análise de dados criada pelo movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC). No último estudo realizado pela instituição, foi feita uma projeção a partir dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre os anos 2000 e 2013 e projeções para o futuro (até 2040), comparando o número de óbitos e incidência do câncer com os de doenças cardiovasculares (como infarto e AVC). A conclusão é que, em 2029, a taxa de mortalidade de tumores chegará a 115 a cada 100 mil habitantes, enquanto o índice de óbitos por doenças cardiovasculares será de 113 por 100 mil.

Atualmente, O câncer é a segunda causa de morte por doenças, no Brasil. Segundo o INCA, são cerca de 180 mil mortes por ano. Ao contrário do que acontece em países desenvolvidos, os índices de mortalidade não caem no Brasil. O principal motivo é o diagnóstico tardio.

A oncologista Paula Sampaio ressalta que existem alguns tipos de câncer que são considerados evitáveis, pois possuem relação direta com o estilo de vida. A médica cita estatísticas oficiais, que comprovam os benefícios da chamada prevenção primária, que é aquela capaz de evitar o câncer. “De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), pelo menos 33% dos cânceres mais comuns podem ser evitados diminuindo-se o consumo de álcool e adotando dietas mais saudáveis. Evitar a exposição ao sol sem proteção e o sedentarismo também são fatores fundamentais. A OMS estima que somente o abandono do hábito de fumar aumenta a proteção contra a doença em cerca de 50%”, destaca Paula.

Quem se alimenta bem durante a vida toda dificilmente terá câncer de estômago. Para a prevenção do câncer de colo do útero, a vacinação contra o HPV e a prática de sexo seguro são recomendações extremamente importantes e os tumores de pulmão estão diretamente relacionados ao consumo de tabaco, que está na origem de 90% dos casos.

Mama - O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no Brasil e no mundo, depois do de pele não melanoma. Eles correspondem a cerca de 22% dos casos novos de câncer diagnosticados a cada ano. No Pará, é o segundo tipo de maior incidência entre as mulheres, atrás do câncer de colo de útero.

No caso do câncer de mama, a chamada prevenção secundária são as medidas que podem assegurar o diagnóstico precoce, o que significa chances de cura superiores a 90%. Se o câncer for descoberto em estágio avançado, as chances de cura podem ser deduzidas a 5%.

A mamografia é o principal meio de rastreamento do câncer de mama. O exame é fundamental para a descoberta da doença ainda no início, o que garante um aumento expressivo das chances de cura. O autoexame também é importante, mas não substitui a mamografia.

Segundo a SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia), a partir dos 40 anos, todas as mulheres devem realizar a mamografia anualmente. Mulheres que têm histórico de câncer de mama na família, em parentes de primeiro grau (mãe, irmã e/ou filha), devem realizar o exame antes dos 40 anos, pois o risco de câncer de mama pode ser maior.

Mamógrafos - A Organização Mundial da Saúde indica que deve haver um mamógrafo para cada 240 mil habitantes. Como o Brasil tem 200 milhões de habitantes, cerca de 880 mamógrafos seriam suficientes para atender toda a população. E existem cerca de cinco mil mamógrafos no Brasil. O problema é que em muitas localidades as mulheres encontram dificuldade para ter acesso ao exame.

A questão não é a falta de aparelhos, é a concentração deles em determinadas áreas, principalmente no Sudeste, e a falta em outras regiões, como o Norte. Mais de 50% dos cerca de cinco mil municípios brasileiros com até 50 mil habitantes estão sem mamógrafos.

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), o Estado tem 97 mamógrafos, entre privados e do serviço público. Existem 37 mamógrafos para atendimento a pacientes do SUS no Pará. 22 estão na Região Metropolitana de Belém, e os outros 15 estão em municípios- polo do interior do estado.

Rastreamento - Dados da Pesquisa Nacional de Saúde, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a mamografia, que tem mais de 90% de precisão na hora de detectar tumores, ainda não faz parte da rotina de muitas mulheres. Quatro em cada dez mulheres no Brasil, entre 50 e 69 anos, nunca fizeram uma mamografia.

A região Norte é a que apresenta a pior situação. Apenas 38,7% das mulheres fizeram o exame. Em seguida vem o Nordeste (47,9%), Centro-Oeste (55,6%), Sul (64,5%) e Sudeste (67,9%), a região campeã no número de mamografias.

A Sociedade Brasileira de Mastologia aponta a dificuldade de acesso ao exame. Um levantamento feito em 2013 confirma que menos de 25% das brasileiras entre 50 e 60 anos de idade realizam mamografia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por ano. No Pará, o levantamento da SBM indica que apenas 7,5% da população que tem indicação anual do exame teve acesso à mamografia.

Por Dina Santos, especialmente para o LeiaJá.

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