Intolerância: o desafio de viver com as diferenças

Entenda o que motiva os casos de intolerância contra as diferenças, como questões políticas, raciais e religiosas

por Martina Arraes ter, 07/02/2017 - 16:25
Pixabay Quando a defesa pelo que acredita ultrapassa os limites da razão Pixabay

A intolerância atingiu sérios níveis. Hoje, notícias de violência e preconceito são comuns na mídia. Há incontáveis casos de agressões, tanto verbais como físicas, de quem apenas pensa ou vive “diferente”. A lista de atrocidades provocadas pela intolerância é vasta, seja ela por questões étnicas, políticas, de gênero, de classes, religiosa, sexual, cultural ou social, causadas pela dificuldade de entender e aceitar as diferenças. Hoje, o desafio do mundo contemporâneo é o de que todas essas identidades consigam viver juntas e em paz. 

Na internet, se tornou comum e cada vez maior o número de mensagens de ódio. Só em 2013, foram registradas 21.205, das quais 11.004 estavam no Facebook, a rede social mais usada pelos brasileiros. Os dados das páginas (URLs) denunciadas são da ONG Safernet (que tem como objetivo defender os direitos humanos na internet), por divulgarem conteúdos de intolerância racial, religiosa, neonazistas, xenofobia e homofobia ou por fazer apologia e incitação a crimes contra a vida.

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"A internet é a imagem da sociedade refletida no espelho. Com a mobilidade da internet, estamos permanentemente conectados, e a tendência é que esse mundo online se aproxime cada vez mais do offline. No caso dos grupos de ódio, há um núcleo duro que espalha conteúdo, se envolve e cria polêmicas, e tenta se organizar fora da rede. O que está em jogo é a própria democracia", explicou o presidente da Safernet, Thiago Tavares. 

Para o doutor em ciência política Juliano Domingues, as mídias sociais digitais criam bolhas capazes de motivar esse tipo de comportamento e, por conta da lógica de algoritmos, o usuário de internet tem a percepção de que todos pensam da mesma forma que ele. “Se ele compartilha discurso de ódio, a dinâmica da rede tende a aproximá-lo de outros usuários com percepção similar. Ao se sentir parte de um determinado grupo que compartilha certas crenças e valores, o indivíduo se sente confortável a apresentar seu ponto de vista, mesmo que venha a ser classificado como ‘intolerante’ ou ‘discurso de ódio’”.

Intolerância política

A intolerância no Brasil chegou ao ponto de uma médica negar atendimento a uma criança, de cerca de um ano, por motivos políticos. Ao descobrir que sua mãe, Ariane Leitão, era a suplente de vereadora pelo PT, em Porto Alegre, a pediatra Maria Dolores Bressan alegou que continuar atendendo a criança, passaria por cima dos seus princípios. 

Na época (março do ano de 2016), Ariane Leitão levou o caso para o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers). “É um caso de intolerância política que ultrapassou todos os limites. Quando as crianças começam a ser atingidas, realmente precisamos parar para refletir. A polarização ideológica, que deveria gerar um debate político, está gerando apenas violência, discriminação e ataques”, afirmou, em entrevista à Folha de São Paulo.

Um exemplo mais recente foi a manifestação ocorrida enquanto a esposa do ex-presidente Lula, Marisa Letícia, estava internada no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Cerca de quatro mulheres carregando cartazes com os dizeres “SUS” e “Cadê os médicos cubanos?” e com a imagem de Lula presidiário protestaram na frente do hospital. 

Momento

“Atitudes que venham a ser classificadas como fruto de intolerância costumam estar associadas a uma cultura política pouco democrática ou autoritária. Esse tipo de comportamento tende a ser relativamente comum em países de democracia frágil ou em processo de consolidação, como é o caso do Brasil”, analisou Domingos. 

Segundo o estudante de ciências sociais e membro do projeto Não Violência nas Escolas, Vinicius dos Santos, a sociedade vive um período especial, em que muitos valores estão em crise. "É como se tivéssemos perdido as referências. O que antes nos orientava, hoje já não orienta mais. É um momento turbulento em que a incerteza aumenta ainda mais essa confusão de valores", afirma. Para Vinicius, é um momento em que a sociedade tem muita liberdade, o que cria uma diversidade maior e causa essa sensibilidade nas pessoas. “Para quem sempre conviveu com o certo e errado, com o sim e não, essa diversidade toda causa o aumento da intolerância e, consequentemente, a violência”. 

Intolerância religiosa 

Quando diz respeito à religião, os números assustam. Em todo o Brasil, de acordo com a Secretaria de Direitos Humanos, do governo federal, entre 2011 e 2016, foram registrados 952 casos de intolerância religiosa, denunciados pelo Disque 100. "É comum presenciarmos atitudes intolerantes, eu sofro com isso diariamente. Isso só demonstra o quanto as pessoas não têm condições de refletir sobre religião, falta conhecimento e acima de tudo o respeito", explicou o membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa e conselheiro de Políticas Culturais de Recife, Alexandre L'Omi L'Odó.

Alexandre é membro da Jurema Sagrada e do Candomblé, e já passou por diversas situações desconfortáveis devido a sua religião. Uma delas foi quando estava numa viagem de ônibus e um ambulante o atacou . "Ele começou a falar com arrogância que conhecia a verdade e havia encontrado a luz, pois havia desistido de ser um 'umbandista' e que conhecia tudo 'dessas religiões', tentando provar isso, afirmou que sabia que tinha 'um grande terreiro de Macumba' por detrás da estação de ônibus Xambá (o Terreiro Xambá) comandado por 'um negão pai de chiqueiro'. 

Na visão do juremo, esse é o reflexo da má educação pública que "embranquece" as mentes e torna as pessoas vulneráveis a ideologias criminosas que não se justificam. “As pessoas olham para nossas vestimentas, por exemplo, e já estranham. Não estão acostumados com isso, não conhecem. Para eles,  isso é considerado anormal”.  

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