As várias faces de um Multiartista

Escultor, ceramista, gravurista, pintor, poeta: genialidade artística de Abelardo da Hora encontrou muitas formas de expressão

 
 
 

1.1 Na casa do artista

Muito além de um escultor. Muito além de um pintor ou de um ceramista. De um desenhista, gravurista ou um poeta. Abelardo da Hora, do alto dos seus 89 anos, continua sem descanso a produção artística que o tornou conhecido no Brasil e no mundo. Diariamente se dedica à criação artística em sua casa, que é uma verdadeira galeria de arte, com dezenas de peças que fazem o visitante imergir no universo anguloso, sensual e crítico da sua obra.

Quando recebeu o LeiaJá, Abelardo dava os últimos retoques em um busto iniciado na noite anterior. Uma menina sorridente, com os cabelos ondulados. Enquanto trabalha na sua mais nova escultura, revela estar ansioso para que a modelo - sua neta Bia, de 8 anos - volte logo da escola para ver o resultado. "Ela posou para mim ontem à noite. Estou apenas ajeitando para quando ela chegar da escola não vir feito uma louca para cima de mim, porque ela é braba", revela o artista.

O interesse por arte surgiu de forma inusitada, quando Abelardo tinha 12 anos. Instigado pela mãe, que ansiava em ver os filhos formados e com uma profissão, o então garoto, juntamente com o irmão mais novo Luciano, matriculou-se na Escola Industrial Professor Agamemnon Magalhães, atual ETEPAM, que fica no bairro da Encruzilhada. Por falta de vaga no curso de Técnico Mecânico, o menino que era apaixonado por zeppelins e queria ser engenheiro mecânico acompanhou o irmão no curso de Artes Decorativas.

Pouco tempo depois, já se destacava pelas esculturas que fazia. Um dia, durante uma aula livre, o garoto franzino surpreendeu um dos professores ao esculpir dois violeiros. O resultado foi uma bolsa de estudos na antiga Escola de Belas Artes, extinta em 1976. "Tinha um dia da semana em que o professor dava um dia de liberdade para os alunos para fazer qualquer coisa da sua imaginação. Neste dia eu estava trabalhando e meu professor de pintura entrou e perguntou: 'Seu professor já mexeu na sua escultura?', eu: 'Ainda não', ele 'Pois você acabou de ganhar uma bolsa de estudo para a Escola de Belas Artes, quando você terminar aqui eu vou levar você'. E quando eu terminei o curso ele realmente me levou", relembra. Na Escola de Belas Artes, a admiração dos professores não foi diferente. Na aula de Desenho Figurado, em uma semana ele fez o trabalho de um ano inteiro.

1.2 O artista relembra seu começo

A história de Abelardo da Hora é também a história do Brasil no século 20. Já durante o período de estudo na Escola de Belas Artes, o Artista se confunde com o Político. No último ano, ele foi eleito Presidente do Diretório Estudantil. "Eu não me candidatei, mas as moças da escola me candidataram na surdina. Foi um negócio principalmente comandado por Rosa Soares, Ana Paz e Ana Galvão. Foi um trio desses violentos mesmo, viu? Umas moças muito bonitas, interessantes. Resultado: eu venci", brinca, com seu conhecido estilo galanteador.

Seu espírito revolucionário fez com que fosse trabalhar como ceramista para o ex-chefe do seu pai, o industrial Ricardo Brennand, pai do também artista plástico Francisco Brennand. Francisco foi aluno de Abelardo, no tempo em que este morava no antigo Engenho São João da Várzea. No áudio abaixo você pode conferir mais detalhes dessa história, contada pelo próprio Abelardo.

A primeira exposição de Abelardo da Hora aconteceu em abril de 1948, na Associação dos Empregados do Comércio de Pernambuco, localizada na Rua da Imperatriz, Centro do Recife. Devido ao cunho social empregado por ele nas obras, assim como à própria efervescência política da época, a mostra teve uma resposta bastante positiva. "A associação fica pertinho da Livraria Imperatriz. Então foi uma coisa maravilhosa, porque ali era ponto de encontro da intelectualidade. Os poetas, escritores, jornalistas, professores iam para lá, comprar livros, conversar e passavam na minha exposição, que tomou um impulso muito grande, teve uma divulgação maravilhosa", relembra o artista. A principal peça da primeira exposição foi a A Fome e o Brado, escultura que ele guarda com carinho até hoje em casa.

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Vamos acabar com esse negócio de ficar desenhando e pintando dentro da sala e vamos desenhar e pintar a vida lá fora.

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No áudio abaixo você pode conferir mais detalhes dessa história, contada pelo próprio Abelardo

1.3 Feitos para a arte Brasileira

Algumas de suas obras foram feitas em homenagens a nomes da história de Pernambuco, como Gilberto Freire, Luiz Gonzaga e Arraes. Todos os dias Abelardo da Hora reserva algumas horas do seu dia para o trabalho com a sua arte. A beleza feminina é presença marcante na obra do escultor Outro tema recorrente na sua arte são as expressões culturais do povo nordestino, como é o caso da obra Monumento ao Frevo, que fica na Rua da Aurora, e tem uma versão menor no ateliê do artista. As suas obras começam com um rascunho que depois tomam forma através do concreto, mármore e bronze. Além das mulheres com formas voluptuosas, Abelardo também retrata grandes amigas, como acontece nessa escultura feita em homenagem à Margot Monteiro, diretora do Museu do Estado de Pernambuco. As suas gravuras também denunciam os problemas sociais. A beleza feminina retratada na obra de Abelardo é marcada pelo seu traço expressionista. Em A Fome e o Brado, presente na sua primeira exposição, em 1958, Abelardo faz uma denúncia contra as injustiças sociais. Ela (a neta Bia, de 8 anos) posou pra mim ontem à noite. Estou apenas ajeitando para quando ela chegar da escola não vir feito uma louca para cima de mim, porque ela é barba, revela. Uma vez um jornalista me perguntou por que eu fazia a bunda das minhas mulheres tão grande, aí eu prontamente respondi: 'E tem coisa melhor, meu filho?'

Foi nessa época que Abelardo criou a Sociedade de Arte Moderna do Recife, que segundo o professor de História da Arte da Universidade Federal de Pernambuco, Fernando Guerra, foi muito importante para a arte no Estado. "Esse grupo era fortemente marcado pela Semana de Arte Moderna de 1922. Abelardo tinha uma preocupação muito forte com a cultura popular. Por isso, na Sociedade, e posteriormente também no Ateliê Coletivo, ele criou cursos de iniciação às artes, com ele dando aulas de desenho, Geraldo Manuchi (maestro) dando aulas de música e Luiz Mendonça (diretor) trabalhando com teatro. Já em 58, durante a prefeitura de Miguel Arraes, juntamente com nomes como Paulo Freire, Germano Coelho, Anita Paes Barreto, Menuchi e Luiz Mendonça, ele criou o Movimento de Cultura Popular - MCP, que desenvolvia a alfabetização, além de espetáculos públicos e cursos", explica Guerra.

No período, o Abelardo formador de outros artistas influenciou nomes como Gilvan Samico, José Cláudio e Aloísio Magalhães. "Eu ensinei de graça durante dez anos uma geração de grandes artistas conhecidos no país todo. Pra mim, Samico é o maior gravador não só do Brasil, mas da América do Sul toda. Começou comigo, ele não sabia desenhar nada. Aliás, todos eles. E eu ensinei a eles com carinho, como se fossem meus filhos", se emociona Abelardo.

Outro feito importante foi a criação do projeto de lei que obriga prédios no Recife, que tenham mais de 1500m², a terem obras de arte na sua decoração. O projeto foi levado à Câmara Municipal ainda na década de 1960, e foi aceito por unanimidade. Dessa forma, "O Recife se transformou em uma galeria de arte a céu aberto", como classifica o próprio autor da lei.

1.4 Obras

Boa parte das obras de arte de Abelardo da Hora pode ser encontrada na própria casa do artista, que desde a sua entrada está completamente cheia de peças que representam períodos da sua história. No mesmo endereço, na Rua do Sossego, área central do Recife, fica o Instituto Abelardo da Hora, criado para divulgar e manter o acervo do escultor, além de reviver a ideia do próprio Movimento de Cultura Popular, uma vez que há planos de futuramente promover cursos e exposições. Como tudo que rodeia Abelardo, o IAH também se confunde com a família da Hora: filhos e netos são os fundadores e dirigentes do grupo.

Abelardo sempre começa suas peças com um desenho ou uma miniatura, que se transforma em um molde, usado para a construção da obra em si. São obras expressionistas que expõem sua preocupação com as mazelas do mundo, a cultura nordestina e a beleza do corpo feminino. As mulheres de Abelardo também são consequência da expressão de sentimentos dele sobre o mundo. Ele as faz como ele as sente. "Uma vez um jornalista me perguntou por que eu fazia a bunda das minhas mulheres tão grande, aí eu prontamente respondi: 'E tem coisa melhor, meu filho?'", finaliza Abelardo, envolto em risos.

Com tantos trabalhos expostos pelas ruas da cidade, uma dúvida é recorrente: quantas obras foram produzidas por Abelardo? O próprio não tem certeza: "Ah, foram tantas, não tem como eu lembrar de todas". Já Abelardo da Hora Filho, Diretor Executivo do IAH, arrisca um número encontrado através do trabalho da Instituição: "Temos um levantamento de aproximadamente 1800 obras e a circulação delas em mais de 50 países, com menção especial à iniciativa do Clube de Gravura de Porto Alegre que levou obras como O enterro do camponês para vários países da Europa, União Soviética e Mongólia, entre outros".

Com certeza esse número ainda pode crescer muito, uma vez que Abelardo Germano da Hora está em plena atividade artística. "Eu adoro trabalhar, minha arte me alegra muito", finaliza.

No vídeo, o artista plástico fala sobre
a essência do seu trabalho.

 

A luta de uma vida

As mais de 70 prisões de um artista politizado

 

2.1 Insatisfação com a realidade social

Na vida de Abelardo da Hora, a insatisfação com a realidade social não é vista apenas no forte expressionismo das suas obras. Para ele, o Artista tem que ir além de ser um mero criador (ou recriador) de belezas, e usar o seu trabalho como forma de contribuição para a melhoria da sociedade. Por isso, desde muito cedo, ele viu na política uma forma de luta para a mudança das mazelas da sociedade.

Já durante o período em que estudava na Escola de Belas Artes, mais precisamente no último ano do seu curso, em 1941, sob a conspiração de amigas da instituição, Abelardo foi eleito presidente do Diretório Acadêmico. Logo como primeira medida, ele instituiu a visitação a vários bairros do Recife, para que os alunos pudessem produzir as suas obras de acordo com o que captavam da realidade.

Em janeiro de 1946, um mês depois de ter saído da Usina São João da Várzea, onde trabalhou como ceramista durante quatro anos, Abelardo seguiu para o Rio de Janeiro, com o intuito de participar do Salão Nacional de Belas Artes, cujo prêmio era uma viagem para a Europa, com estadia de dois anos paga pelo Estado. Durante o período, ele trabalhava em uma fábrica de manequins e usava a garagem de Abelardo Rodrigues como ateliê. E foi lá que ele fez a peça A Família, com a qual iria participar do Salão, e que representava a saudade dos entes que ficaram em Pernambuco.

"Mas o presidente da república naquela época (Eurico Gaspar Dutra, 1946-1951) era militar, e militar é cabeça oca, não entende nada, não gosta de nada, só entende de bala. Eu sei que ele acabou com o Salão, que vinha se realizando desde o Império. Então os críticos de arte, os jornalistas, com quem eu me encontrava no (bar) Vermelhinho, que ficava vizinho ao Museu Nacional de Belas Artes, começaram a encher a minha cabeça com aqueles problemas, contra o governo que estava dando as costas para um programa cultural importantíssimo. Eu não tinha nada de política na minha cabeça, mas começou ali", conta Abelardo.

A não realização do Salão gerou uma publicação na primeira página do Jornal do Brasil, periódico carioca que anos depois seria colaboradora do Regime Militar. O texto apresentava A Família, de Abelardo, seguida de falas de críticos e jornalistas, exaltados com o cancelamento do concurso. Na ocasião, o pernambucano prometeu que na sua volta à sua terra natal criaria uma entidade artística de defesa à cultura.

E foi exatamente isso que fez, juntamente com o arquiteto Hélio Feijó Sampaio. Feijó foi apontado pela Prefeitura do Recife, patrocinadora da primeira exposição de Abelardo, em 1948. Aliado a Feijó, que ele conheceu na ocasião da produção da exposição, ele fundou a Sociedade de Arte Moderna do Recife, que foi a inspiração para os posteriores Ateliê Coletivo e o Movimento de Cultura Popular. Já nas obras desta época Abelardo apresentava a sua preocupação com o fator social, tão recorrente no seu trabalho.


O expressionismo de Abelardo é marcado pelos seus ideais políticos. Do grupo grupo que formava o Comitê Estadual do Partido Comunista, Abelardo da Hora é o único que continua vivo. O sociólogo Gilberto Freyre Nos seus discursos políticos, Abelardo também denunciava o descaso do poder público em relação à família. Por causa da sua forte participação no Partido Comunista, Abelardo foi detido mais de 70 vezes. 'Eu perdi a conta. Toda vez que eu fazia um discurso, ia preso. Eu tenho um catatau aí, que o pessoal da anistia me deu, com o prontuário com as prisões que tive, é dessa grossura', relata. No monumento Os Retirantes, Abelardo homenageia a família do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, de quem ele não esconde a sua admiração. 'O surgimento de um líder operário, como Lula, é uma coisa fora do comum, porque ele teve uma escola política, uma luta permanente em defesa dos seus companheiros, em defesa do trabalho e em defesa da vida', comenta. Gilberto Freire Para Abelardo, o artista tem uma função social importante e não pode fechar os olhos para os problemas que o rodeiam.

2.2 Partido comunista

Também foi nesse momento que ele entrou para o Partido Comunista, no qual que teve grande participação, fazendo campanhas a favor da proteção do petróleo brasileiro, da paz mundial e contra a bomba atômica. Os seus atos quanto participante da direção estadual do partido foram os primeiros que tiveram como consequência a série de prisões que resultaram no impressionante número de mais de 70 detenções que Abelardo tem no "currículo". No áudio abaixo, ele conta como aconteceu uma dessas ocasiões.

Do grupo que formava o Comitê Estadual do Partido Comunista, apenas Abelardo da Hora não foi assassinado. Todos os outros tiveram sua vidas ceifadas antes ou durante a ditadura militar. "Eu sou o único sobrevivente da Direção Estadual do Partido Comunista daquela época. Eu tive pena de morte decretada contra mim. Não me mataram porque eu era casado com a irmã do político Augusto Lucena", comenta.

Após o Golpe de 1964, Abelardo, juntamente com o político Gregório Bezerra e o deputado Hugo Martins, saíram do partido, irritados com a posição do mesmo. "O partido não tomou posição. Nós tivemos uma reunião logo no outro dia de manhã, com o companheiro da direção nacional. Estava eu, Gregório Bezerra e Hugo Martins. O companheiro da direção disse, 'Companheiros, a direção manda dizer a vocês que salve-se quem puder'. Aí Gregório fechou o punho e falou 'Com uma direção de comadres como essa, eu saio do partido agora mesmo'. Ele saiu da sala, seguido por mim e Hugo" conta.

Abelardo da Hora e Gregório Bezerra foram presos pouco tempo depois do início do Regime Militar, quando tentavam organizar uma resistência em defesa ao governo de Miguel Arraes. Bezerra foi brutalmente torturado, sendo arrastado por um carro pelas ruas de Casa Forte, além de ter os pés mergulhados em solução de bateria de carro. Abelardo teria o mesmo tratamento, porém, foi salvo tanto pela influência de Augusto Lucena, que em 1964 assumiu a prefeitura do Recife, quanto pelo apelo de diversas entidades, que o protegiam devido ao seu trabalho gratuito com as aulas de arte.

2.3 Cargos Públicos

O envolvimento político também levou o artista plástico a acumular alguns cargos públicos, sendo Diretor de Parques e Jardins quando Arraes foi prefeito da capital pernambucana, além de Secretário da Educação, durante os mandatos de Arraes, Liberato Costa Júnior e Pelópidas Silveira. "No golpe militar eu era Secretário da Educação de Pelópidas Silveira. Perderam o prefeito e perderam o Secretário da Educação, um rapaz bom, um rapaz de bom aspecto. As meninas gostam de mim, nunca fiz mal a ninguém, sou amigo de todo mundo, mão aberta, não sou papagaio no arame, não sou de jeito nenhum. Esses camaradas devem estar zanzando por aí. A maior parte deles já morreu e eu tô aqui vivo, trabalhando, fazendo muita coisa, namorando", finalizou.

Atualmente, Abelardo da Hora está afastado do envolvimento com a ação política, preferindo envolver-se mais com sua arte e sua família.

 

O homem por trás do artista

O lado pessoal de um dos maiores nomes da arte brasileira

 

3.1 As origens

'Lembro-me que no corredor para o banheiro ficavam os bustos de pessoas célebres e mortas. Eu tinha muito medo daqueles bustos se levantassem para vida', comentou Abelardo da Hora Filho. A residência da família da Hora é recheada de obras de arte do artista. Ana da Hora é a quarta filha do artista plástico e, como todos da prole, participa da organização o Instituto Abelardo da Hora (IAH). Abelardo posa ao lado do busto que fez em homenagem à sua esposa Margarida, falecida em 2010. O artista plástico Abelardo da Hora e a poetiza Margarina Lucena foram casados durante 62 anos e tiveram sete filhos: Iuri, Abelardo Filho, Lenora, Sandra, Lêda, Ana e Sara. Na sala da sua casa, Abelardo expõe uma escultura feita em 1975, em homenagem à sua filha mais velha, Lenora. 'Eu disse, Minha filha, venha cá que você vai dar o visual do seu bumbum para a posteridade. Então eu deitei ela em cima da mesa, pincelei com óleo Johnson, que se coloca em bumbum de bebê, aí meti gesso em cima dela e fiz uma forma. Depois fiz ela em cimento e em gesso', explica. O Instituto Abelardo da Hora foi criado e é organizado pelos filhos e netos do artista, para divulgar e manter o acervo de Abelardo.

Natural de São Lourenço da Mata, Região Metropolitana do Recife, Abelardo Germano da Hora, 89 anos, artista plástico pernambucano, é conhecido no Brasil e no mundo, sobretudo, pelo seu trabalho artístico, e pela sua ativa participação no Partido Comunista. Entretanto, o que nem todos sabem, é que Abelardo da Hora foi e continua sendo um homem apaixonado pela família.

Segundo filho de uma família de sete irmãos, ele fala com orgulho de todos os seus companheiros de brincadeiras infantis e faz questão de citá-los. "Foram sete irmãos. O mais velho era Bianor da Hora, escritor e médico, catedrático de anatomia das duas universidades daqui. Eu, nascido em 1924. Também teve Luciano da Hora, que era advogado e empresário, Edvaldo Germano da Hora, médico veterinário, Leonor da Hora, Clarice da Hora e Claudionor Germano da Hora, cantor de frevo", lembra.

Quando Abelardo ainda era criança, a família Germano da Hora mudou-se para a capital, onde, em um primeiro momento, o progenitor, José Germano da Hora, trabalhou como chefe de tráfego na Usina São João da Várzea, de propriedade do industrial Ricardo Brennand, que posteriormente foi um dos primeiros empregadores de Abelardo. Dono de uma personalidade característica, ao lembrar dos quatro irmãos já falecidos, Bianor, Luciano, Edvaldo e Leonor, ele brinca: "Esse pessoal morre com uma facilidade grande. Só quem não morre sou eu. Minhas taxas são uma coisa de dar raiva. Eu tenho pressão baixa e tesão alto ainda hoje", fala, arrancando risos.

O músico Claudionor Germano, de 81 anos, dono do recorde de ser o intérprete que mais cantou músicas de um compositor, Capiba, relembra com carinho da época de brincadeiras de rua. "Abelardo nasceu em São Lourenço da Mata, e eu nasci já aqui em Recife. Foi uma infância bem vivida, foi muita irresponsabilidade que eles (os irmãos) fizeram quando meninos, principalmente Abelardo e Luciano, que eram muito unidos", afirma. Luciano da Hora foi o responsável por Abelardo começar seus estudos no curso de Artes Decorativas, assim como também foi um grande companheiro de brincadeiras com os irmãos mais novos. No áudio abaixo Claudionor relembra da peça que a dupla pregou nele quando este ainda iniciava sua carreira na música:

3.2 Casamento

O Artista, o Político e o Homem tiveram um momento importante em abril de 1948, quando Abelardo realiza a sua primeira exposição de escultura, e onde suas ideias recém-formuladas sobre o cenário político nacional estavam bem evidentes. Na ocasião, ele conheceu a companheira com quem passaria 62 anos da sua vida, a poetiza Margarida Lucena, irmã do político Augusto Lucena.

A então concluinte do curso de Direito foi visitar, junto com a sua turma da faculdade, a exposição na Rua da Imperatriz e se interessou pela construção das peças. Para impressioná-la, Abelardo a levou até sua casa para mostrar o seu mais recente trabalho.

"Quando cheguei em casa com Margarida, minha mãe foi logo dizendo 'meu filho, essa sim era que você devia namorar e casar'. É que na época eu era quase noivo de um violoncelo (mulher), mas não dava certo não, era briga demais. Resultado, eu comecei a namorar com Margarida. Isso foi em abril de 1948, em 21 de outubro daquele ano, nos casamos. Vivemos juntos 62 anos e tivemos sete filhos: cinco moças e dois rapazes", relembrou. "Agora em novembro vai fazer três anos que eu a perdi. Tenho saudade demais, porque ela foi uma grande companheira, me ajudou demais e foi o meu amor, com quem eu construí uma família maravilhosa", se emociona.

Sexto filho dessa união, Abelardo da Hora Filho, Diretor Executivo do Instituto Abelardo da Hora (IAH), fala sobre a relação familiar com carinho. "Em uma família de sete irmãos nunca houve sossego: foram muitas brincadeiras, muitas brigas. Com meus pais sempre foi uma relação de muito respeito e liberdade, cada um sempre fez o que quis", ressalta. Na casa em que todos foram criados juntos, e que em certos momentos também foi habitada pelos cinco irmãos de Margarida, há uma reunião de inúmeras obras de arte de Abelardo. Desde a peça emblemática A Fome e o Brado, presente na sua primeira exposição, assim como vários exemplares das suas mulheres, baseadas em figuras conhecidas ou não.

Por isso, os filhos cresceram rodeados de esculturas, a quem davam apelidos, com as quais brincavam e de onde surgiam os mais variados sentimentos. "A casa era um templo de mitos, fantasmas e figuras, como o Menino de Mocambo, que chamávamos carinhosamente de 'Seu Birunga'. Lembro-me que no corredor para o banheiro ficavam os bustos de pessoas célebres e mortas. Eu tinha muito medo que aqueles bustos se levantassem para vida", relembra Abelardo Filho.

3.3 A família e a política

As constantes prisões, seguidas do tolhimento dos direitos políticos durante a época da Ditadura Militar, ocasionados pela sua atividade no Partido Comunista, atingiram a família como um todo. "Durante o Golpe, foi muito difícil crescer em meio às prisões de papai. Ele era comunista e, nessa época, nós não tínhamos direito nem de frequentar a escola pública. Nem a casa dos meus amigos de rua. Isso fez com que nossa família ficasse muito unida para superar as adversidades. Ainda hoje, somos assim", conta Abelardo Filho.

Apesar dos problemas, a família sempre foi o porto seguro do Artista e do Político, como afirma seu irmão: "Essa amizade, essa amistosidade nos levou a vida inteira. Permanecemos unidos, muito unidos, defendendo sempre o ponto de vista de cada um", ressaltou. Essa união é percebida não só nas falas, mas também na ativa participação da família na proteção das obras do artista plástico.

Além de parceiro, Claudionor Germano, que idealizou com Abelardo a obra Monumento ao Frevo, que fica na Rua da Aurora, área central do Recife, também confessa ser um grande admirador do irmão. "Na minha concepção, Abelardo é um dos maiores escultores do mundo, e aquele grito de guerra dele, aquele grito de liberdade dele através das suas figuras, denunciando essa quase escravidão do povo brasileiro, que passa fome, passa necessidade... Ele retrata isso muito bem na sua obra", finaliza o cantor.

O carinho é mútuo e fica evidente no vídeo, em que os irmãos relembram um fato importante de suas vidas.

O carinho é mútuo e fica evidente no vídeo, em que os irmãos relembram um fato importante de suas vidas.

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