Representatividade: a voz de Kalor Pacheco é a de muitas

Artista e jornalista pernambucana, a roteirista da animação 'Bia Desenha', exibida pela TV Brasil, consegue furar bloqueios e luta pela desopressão artística das classes periféricas

por Lídia Dias qua, 13/02/2019 - 10:30
Júlio Gomes/LeiaJáImagens Através de personagens negros e periféricos, 'Bia Desenha' leva representatividade à TV brasileira Júlio Gomes/LeiaJáImagens

No final do mês de janeiro deste ano, a TV Brasil estreou mais uma animação infantil e, desta vez, uma produção pernambucana ganhou espaço e está sendo exibida para todo o Brasil. ‘Bia Desenha’ conta com 13 episódios de 7 minutos e tem roteiro de Karol Pacheco e Neco Tabosa. O desenho se passa na periferia da capital pernambucana e conta a história de uma família não convencional que vive em um quintal, onde Bia, de 6 anos e, Raul, de 5 anos, são criados por pais solos.

Com o mote ‘desobediência poética’, a dupla de roteiristas conseguiu levar representatividade à TV brasileira, através de protagonistas negros e periféricos. Segundo Karol, que assina alguns de seus trabalhos como 'Kalor', ainda houve a preocupação de saber quais profissionais, dos que trabalhariam na produção, se encaixavam nesse perfil.

“Não adianta estar na cara aquilo tudo lá (representatividade), quando na realidade os recursos estão indo para os mesmos bolsos. Isso é muito importante de se pensar, porque ter política que não é pública, é muito preocupante”, enfatizou.

Foto: Divulgação

Com arte de Raul Souza e direção de Neco Tabosa, o projeto foi financiado pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual (Prodav), do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), promovido pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) e conta com a produção da Carnaval Filmes e REC Produtores Associados.

Questionada sobre novas temporadas da animação, Pacheco revelou que não sabe qual será os próximos passos da série. “Apesar de ‘Bia Desenha’ trazer à tona essa realidade tão próxima de tantos brasileiros e brasileiras, não sabemos como o mercado receberá, e se de fato será incentivada a continuar. Bia Desenha combina um modo quilombo de se viver, em comunidade, em face a um Estado que deixa seus cidadãos muitas vezes na mão", aponta.

O cenário da animação foi inspirado no quintal da casa de Kalor, localizada em Camaragibe, a 16 km do Recife. Cercado por ruas íngremes e descalçadas, o quintal da casa da comunicadora é um prato cheio para crianças brincarem. Com um espaço amplo, tem pé de manga, acerola e canela e foi com base em suas vivências nesse lugar que a história de Bia ganhou vida. Assim como a protagonista da animação, ela também foi criada por mãe solo, pois seu pai foi assassinado quando ela tinha 3 anos.

Kalor, que é autora e membro de projetos destinados a desopressão artística das classes periféricas e abraça iniciativas que põem a mulher negra no centro das discussões, faz parte de uma estatística que abrange muitos brasileiros. De acordo com últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geográfica e Estatística (IBGE), em 2015 o Brasil tinha mais de 11,6 milhões de famílias comandadas sem a existência de uma figura masculina. Desse percentual, 59,9 % vivem abaixo da linha da pobreza e o número se intensifica para 66,4 % quando se fala de mulheres negras.

Mesmo com os obstáculos impostos pelas condições financeiras e raciais, a artista conseguiu furar bloqueios e ingressou no ensino de nível superior. Cursando jornalismo na UNINASSAU, com uma bolsa do Programa Universidade para Todos (Prouni), estagiou em alguns veículos de comunicação, incluindo o LeiaJá, e teve uma importante participação em diferentes edições da revista Outros Críticos, sobre arte e cultura.

#tecnologiaserviçodaorgia

Escolhida em 2016 para integrar um grupo de 10 artistas participantes de uma iniciativa realizada pelo Museu do Sexo da Putas, interversão artística concebida na capital mineira com foco em desnudar o dia a dia de prostitutas, Kalor apostou na performance e criou o projeto #tecnologiaserviçodaorgia.

Foto: Mayara Menezes/Divulgação

A ação proposta pela Associação das Prostitutas de Minas Gerais, e contemplada pelo Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais, hospedou os artistas, durante um mês, em um hotel na rua Guaicurus, considerado um dos maiores centros de prostituição do Brasil, onde eles conviveram com as profissionais do sexo e puderam, através de diferentes linguagens, dar voz a essas mulheres que vivem à margem da sociedade.

Apresentando um trabalho com quatro partes, Kalor concluiu duas durante a residência: ‘Eu Tive que Engolir or Engolir Porra Nem1a’ e ‘Modos de fazer sabão’. O primeiro fala sobre os assédios machistas que as mulheres são ‘obrigadas’ a engolir diariamente e usou o leite como metáfora       Foto: Mayara Menezes/Divulgação 

para esses ataques, já o segundo foca na higienização exacerbada imposta pela sociedade ao órgão sexual feminino.

Outra parte do projeto foi concluída em Pernambuco. Intitulada ‘Certidão de aborto’, a performance foi baseada numa experiência vivenciada pela artista na Maternidade Barros Lima, localizada em Casa Amarela, Zona Norte do Recife. “Eu fui vítima de um aborto espontâneo. Na verdade eu estava num processo de sangramento em outras maternidades, onde o atendimento demorou. Eu já fui pra o Barros Lima para fazer a curetagem e era um ambiente muito hostil: violência obstétrica, pessoas que estão dando à luz junto com pessoas que estão perdendo no mesmo ambiente, ausência de forrar a cama, ausência de luz no banheiro”, relata.

As performances feitas por Kalor no #tecnologiaaserviçodaorgia foram apresentadas no II FINCAR – Festival Internacional de Cinema de Realizadoras, exibido no Cinema São Luiz, no 27º Festival de Inverno de Garanhuns e na Performances negras e caboclas pela DesCÚlonização Social na Udesc, entre outros.

Diante de um contraste gritante entre performances sexuais e animação infantil, Kalor diz que após um pouco mais de dois anos da criação de #tecnologiaaserviçodaorgia, ela vê o projeto com um novo olhar.

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Políticas públicas

Em 2017, Pacheco era diretora de Comunicação e Igualdade Racial na Fundação de Cultura de Camaragibe e foi eleita presidente do Conselho de Cultura. Ela foi uma das responsáveis pelo restabelecimento e fortalecimento da Fundação de Cultura do município. Enxergando o órgão como ferramenta aliada da população, Kalor diz que encontrou um gerenciamento da esfera cultural desigual, em que determinados grupos e festas eram mais beneficiados do que outros. “Em vez de me preocupar de colocar na capa determinado político, eu me preocupava em deixar o cidadão informado, em saber sobre  Sistema de Cultura, o que é Fundo, o que é Plano e assim a gente encontrou uma Camaragibe que na cultura estava muito vinculada as festas, aos ciclos”, ressaltou.

No período em que integrou a gestão da instituição, esforços foram investidos, tanto pela administração da organização como pela classe artística de Camaragibe, rica em teatro, música e audiovisual, para que a 'Cultura’ se reerguesse. Foram abertos espaços para que linguagens e grupos excluídos fossem contemplados pelas políticas públicas do município. “A gente sabe que a música está em detrimento de outras linguagens, muito dinheiro, muita visibilidade pra música. Por exemplo no edital de Carnaval, de São João, mas não tem edital de audiovisual. Então, a gente percebeu que tinha muita gente de audiovisual e grafite aqui em Camaragibe e começamos a dar espaço pra esse pessoal’, contou.

Para Kalor, suas realizações são resultados de um contato mínimo de conhecimento adquirido através da faculdade, onde ela pode se entender como cidadã e teve possibilidade de acessar os serviços públicos destinados à Cultura. “Existe um grupo muito restrito de pessoas que acessam esses recursos, que são de impostos pagos por toda população e ano após ano, vemos a aprovação no Funcultura dos mesmos nomes,” revela.

Reconhecendo a cultura como espaço de luta social, a comunicadora e performista ainda falou sobre privilégios dados a pessoas de classes sociais elevadas, que não enfrentam os mesmos obstáculos vivenciados por periféricos e negros. Pacheco também defende a inclusão de cotas nos editais de projetos culturais, em que mulheres, índios e negros têm espaço garantido. “Assim nós vamos tendo uma reparação”, ressalta. O sistema de cotas em editais de Cultura foram aderidos após estudo realizado pela Comissão de Gênero e Diversidade da Agência Nacional do Cinema, que apontou que 75,4% dos filmes produzidos em 2016 pelo órgão foram dirigidos por homens brancos.

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