Por dentro do passinho, nova febre das favelas do Recife

Gerando na alta, 'passinho dos malokas' aproveita o bom momento do brega-funk em Pernambuco e grupos apostam nas coreografias produzidas para as redes sociais

por Eduarda Esteves sex, 25/01/2019 - 11:06

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No último dia 20 de janeiro, o Marco Zero do Recife, área central da capital pernambucana, ganhou ares de Carnaval. Domingo a tarde e o local estava completamente tomado por jovens se divertindo e ouvindo muita música. A garotada se dividia em núcleos e muitos deles, uniformizados com trajes coloridos, exibiam orgulhosos as roupas que serviam para diferenciar os grupos e exaltar os bairros de cada um. Ao som do onipresente brega-funk, os meninos e meninas apresentavam, em um ritmo frenético, as coreografias mandando o ‘passinho dos maloka’, gíria para "maloqueiro", dança com características locais que nasceu nas favelas recifenses.

Cabelos descoloridos e sempre com um corte de cabelo degradê nas laterais, riscos nas sobrancelhas, meiões de cores diferentes e muito glamour. A cada chegada de um grupo novo ao local, os fãs gritavam, pediam para tirar fotos. Era a terceira edição do evento conhecido localmente como “encontro do passinho”, no qual grupos de dançarinos da modalidade se encontram em espaços públicos, como o Marco Zero e o Parque Treze de Maio.

Dentre os objetivos do movimento, os principais são mostrar uns aos outros as novidades nas coreografias, ter um momento de lazer, comemorar a conquista de mais seguidores no Instagram dos grupos, sortear brindes, conhecer os fãs e realizar a “disputa do passinho”. Essa última carrega grande inspiração dos subúrbios de Nova Iorque, nos anos 1960, quando o hip hop começa a ganhar força no gueto e as divergências entre os bairros são disputadas, muitas vezes, nos combates de dança.

Na dança, o gingado é principalmente com os ombros, quadril e braço. Foto: Danilo Campello/LeiaJáImagens

Em Pernambuco, o brega-funk é um dos ritmos mais populares dos últimos anos. Subgênero do brega e com efeitos sonoros que trazem referências sobretudo do funk carioca, o novo estilo musical do momento é completamente eletrônico. Mixagens, batidas aceleradas e muito swing. É no embalo desse novo brega que os grupos do passinho começaram a ganhar vida. Eles gravam a coreografia ao som da música “estourada” do momento e postam nas redes, principalmente no Instagram. Na dança, o gingado é principalmente com os ombros, quadril e braço.

De acordo com Thiago Soares, professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFPE e autor do livro Ninguém é perfeito e a vida é assim: a música brega em Pernambuco (2017), as características do “passinho dos maloka” em Pernambuco tem muito a ver com os vídeos de dança, de fit dance, postados no YouTube com frequência, além da representação do que os MCs do brega-funk cantam em suas músicas, sempre ostentando e se referindo a mulher como um objeto sexual.

“Essa plataforma criou uma rede de dança que é muito interessante e faz com que qualquer pessoa possa dançar, seja lá passos mega difíceis que são colocados neste site ou coreografias mais fáceis. Nessa analogia,  a gente percebe que a dança voltou a ter protagonismo nas músicas periféricas. Podemos dizer que é uma dança conectada o tempo todo com a rede. Seja pelo Instagram, Facebook ou Youtube, o importante também é o compartilhamento. Eles dançam, filmam, de forma amadora até, postam na rede e marcarm encontros, a ideia de rede só se fortalece. É uma dança em rede”, explicou o pesquisador.

Em janeiro de 2019 o grupo completa sete meses e já conta com mais de 15 mil seguidores no Instagram. Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

E foi através da rede social que o quatro amigos do Alto de Santa Terezinha, Zona Norte do Recife, Nalberthy Pereira, 15, Sandro Batista, 18, Gabriel da Silva, 16, e Igor Inaldo, 17, tiveram a ideia de criar o grupo “Os lokos do passinho”. Eles costumavam brincar de dançar swingueira todas as noites na casa do Gabriel. “Quando o brega-funk começou a estourar, a gente decidiu mandar o passinho e gravamos um vídeo dançando a música Gera Bactéria. Foram muitos compartilhamentos e ninguém imaginava o que estava acontecendo porque todo mundo comentava do vídeo”, relembra Nalberthy, criador do grupo.

Ele conta que não imaginava que a dança fosse agradar tantas pessoas porque era uma brincadeira improvisada da molecada das favelas, não achou que teria grande repercussão. Mas, após mais de 200 mil visualizações e milhares de comentários no vídeo, os autores da música, os MCs Shevchenko e Elloco, convidaram os rapazes para gravar o clipe oficial do som. “A gente mal tinha um grupo formado e nesse momento, decidimos nos organizar com camisas padronizadas, mais ensaios, e até arrumamos patrocinadores de comida, roupa e óculos”, destaca o líder dos Lokos do passinho.

Em janeiro de 2019 o grupo completa sete meses e já conta com mais de 15 mil seguidores no Instagram. Atualmente se apresentam em shows com os MCs Shevchenko e Elloco e cobram em média R$ 150 por apresentação. O valor é dividido igualmente pelos quatro integrantes. “A gente nunca imaginou essa fama do passinho, esse número de pessoas nos encontros, as fotos e as fãs. As vezes arengamos na criação das coreografias, mas o importante é ter união para que tudo possa dar certo”, explica Nalberthy.

No Brasil, o termo “passinho” tem origem do funk do Rio de Janeiro e das batalhas entre grupos de dançarinos do ritmo que faziam disputas nos bailes funks cariocas. Thiago Soares destaca que na virada dos anos 2000 essas competições emergem como uma prática muito comum no Rio, só que feitas para o ao vivo. Esses grupos de dançarinos tinham uma certa notoriedade e começavam a criar passos específicos para as músicas no intuito de disputar quem se daria melhor. “Interessante que era sempre algo muito virtuoso da dança, passos elaborados, difíceis de fazer, tendo até a relação com o frevo e os movimentos da tesoura para tornar a disputa mais complexa”, explica o estudioso. Já a partir da década de 2010, a cultura do passinho também integra mais a internet e as disputas começam a ser mediadas pelas tecnologias, nas redes sociais, principalmente no YouTube.

Para Thiago Soares, a única semelhança entre o passinho do Rio e de Pernambuco é o termo, que é quando um grupo de jovens geralmente a partir de contextos periféricos se unem e montam coreografias para postar na rede social. “A palavra evoca essa prática, são músicas mais periféricas de sujeitos que vivem nas comunidades”, contextualiza o estudioso. Em Pernambuco, o passinho assume as características de um ato sexual, uma dança mais ligada ao universo do brega dos MCs recifenses. “Isso é muito interessante, pensar que não há uma relação corporal com o passinho do funk, mas apenas algo mais subjetivo, uma dimensão de aproximação com o termo. É mais a sensibilidade da nomenclatura que engloba as músicas pop das periferias, em todo o mundo. Temos o Kuduro, o Reggaeton e outras práticas de danças coletivas que estão ligadas a dinâmicas da competição em festas populares periféricas. Mas, é importante ressaltar que essa prática assume características específicas em cada local”, complementa.

Sandro Batista, integrante dos Lokos do Passinho, conta que o estilo do “passinho dos maloka” é das comunidades, diferente de tudo, é de favelado. “A nossa dança é muito pernambucana. Não é igual ao passo do Rio de Janeiro, é o movimento da brecada que a gente pegou da swingueira e a cultura do brega. Acho muito legal esse espaço que estamos tendo, mesmo o preconceito ainda rolando porque acham que dança é para as mulheres”.

O grupo já se apresenta em shows e cobra um cachê de R$ 200. Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

Considerada um ícone dentro do movimento do passinho no Recife, a dançarina Clara Araújo, 15, já conta com mais de 50 mil seguidores no Instagram e faz muito sucesso compartilhando as coreografias individuais e de seu grupo “As do Passinho S.A”, que nasceu em uma praça da Avenida Norte, no bairro de Santo Amaro, região central do Recife.

Enquanto conversamos, Clara segue com o celular nas mãos, sempre de olho nas atualizações das suas redes. Ao chegar para a gravação da entrevista, ela esqueceu a caixinha de som, daqueles portáteis. Caminhamos na volta para a sua casa, na comunidade do bairro de Santo Amaro, e os olhares eram de muitos lados. “Olha aí, as meninas do passinho estão famosas, vão para a televisão”, diziam os moradores ao perceber que estavam sendo filmadas.  

Apaixonada pela dança desde a infância, ela conta que dançava de tudo, mas gostava mesmo era da swingueira porque podia praticar os movimentos mais agitados do corpo. Em 2018, ela começou a perceber uma crescente desses vídeos em que garotos e garotas mostravam o gingado ao som do brega-funk na web. Para ela, a decisão de montar o grupo causou muitas dúvidas porque o ‘passinho dos maloka’ é uma dança corporalmente feitas pelos homens.

Longe dos tradicionais rebolados e do empinado da bunda, que geralmente ela estava mais acostumada a fazer em outros estilos musicais, o passinho era desafiador. No dia 29 de outubro de 2018, Clara chamou duas amigas, inicialmente, e depois anunciou que precisava de mais duas garotas para fundar o grupo. Clara e Poliane Raquel, 15, Karina Kemily, 13, Vitória Kaiury, 12, e Thamires Calares, 15, hoje são as responsáveis pelas coreografias e apresentações à frente do “As do Passinho S.A”.

Como outros grupos, as meninas já fazem shows, assinam contratos, tudo com o apoio da família, gravam clipes de MCs e já estabeleceram até patrocínios, que vão desde a barraca do pastel do bairro a marcas de roupas da comunidade.  As coreografias seguem o mesmo formato das que são dançados pelos meninos, com os movimentos que chamam de “brecada”, em que o quadril se movimenta para frente no zigue-zague.

Foi em uma praça de Santo Amaro que a carreira das meninas do passinho S.A começou. Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

Apesar de Clara e as amigas serem muito queridas no movimento das periferias, nem tudo são flores. Os comentários preconceituosos começaram a aparecer com frequência porque a sociedade entende que a dança do passinho é apenas para os meninos. “A gente costuma enfrentar muitas críticas, nos xingam dizem que isso é dança de homem porque as letras são masculinas e os passos são de menino. Mas eu não ligo para o que os outros pensam, a minha família me apoia e aprendi que não devemos dar bola para o que os invejosos falam”, declarou Clara, que também comentou sobre as letras mais pornográficas e machistas. “A gente sabe disso, mas as letras são feitas pelos homens e não podemos fazer muita coisa, né? Eles escrevem e só dançamos porque o importante é a batida boa”, diz.

Para Thiago, o fato das dançarinas falarem que o passinho é uma dança mais masculina, para os homens, se justifica ao observar por quem é feito o brega-funk. “É um gênero muito masculino, ele consagra a figura do MC maloqueiro, do homem com status. É uma dança sem rebolado e com o  quadril sempre no formato do coito, concentrados no universo masculino, no corpo do homem. É algo de engatar, gestos ligado ao ato sexual, movimentos bruscos. E se você parar para pensar, quase não tem mulher nesse gênero. Temos a MC Loma, mas a própria feminilidade dela é um pouco maloqueira e talvez isso tenha feito com que ela tivesse essa adesão local e até nacional”, aponta.

Clara relembra que um dos dias mais felizes de sua vida foi no último 8 de janeiro, quando se surpreendeu ao chegar no Marco Zero para o encontro que tinha marcado, no intuito de celebrar a quantidade de seguidores, e perceber que tinham mais de 3 mil pessoas. “Nunca imaginei isso, marcar um evento e tanta gente aparecer para nos ver”, comenta. Nos últimos encontros, a dinâmica dos grupos do passinho tem sido diferente. Em vez de só um grupo marcar o evento, agora vários núcleo de bairros diferentes dialogam e agendam o encontro para o mesmo dia. Principalmente nesse mês de férias, sexta, sábado e domingo é possível notar a grande presença dos dançarinos sempre pelo Recife Antigo, local historicamente conhecido por agregar diferentes guetos da sociedade.

A garotada da periferia desceu dos morros e mais uma vez ocupou os asfaltos

A criação das coreografias do grupo fica por conta de todos. Cada um traz uma ideia e eles tentam adequá-las aos passos. Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

Há um ano, os amigos Rafael Smitth, 18, Wydson Pereira, 17, Doguinha, 17, Athison de Oliveira, 15, também moradores do Alto de Santa Terezinha, gravaram um vídeo da música “Sonho louco”, do MC Reino e logo depois das boas visualizações, também decidiram montar o grupo “Os Mulekes do Passinho”. Eles costumam ensaiar os novos passos para postar mais vídeos na rede no Compaz do Alto Santa Terezinha, que fica próximo de onde eles moram.

Agendar uma entrevista com os meninos foi fácil. Assim como a maioria dos grupos de passinho, eles também possuem um assessor de comunicação para facilitar a marcação de entrevistas com a imprensa e elaborar parcerias com marcas locais. Geralmente a escolha do assessor é feitas pelos integrantes do grupo. São pessoas de confiança que estão envolvidas no processo desde o início. Diferente do mundo corporativo, a assessoria de comunicação não é um profissional com formação na área, mas a função é basicamente a mesma: promover o grupo.

Tímidos durante a entrevista, os meninos estavam preocupados com a imagem. Postar tudo nas redes, gravar ao vivo, filmar a coreografia, atualizar o feed. O que para muitos é uma brincadeira, para eles é uma oportunidade de melhorar de vida fazendo o que mais gostam, dançando. O estilo dos integrantes dos Mulekes do Passinho é de chamar atenção. Para eles, estar sempre arrumado e com o visual “no grau” é tão importante quando os passos da música.

É com uma caixinha de som e um celular que o grupo consegue gravar as coreografias, além de ensaiar para os shows que às vezes fazem com o MC Metal e também sozinhos. Geralmente são quatro apresentações por fim de semana, mas o número deve crescer com a proximidade do Carnaval, já que uma das apostas para o hit da festividade é a música "Tome Empurradão", de Shevchenko, Elloco e Balakinha. A composição é praticamente onipresente nos encontros do passinho, todos sabem dançar a coreografia.

Para Shevchenko, o brega-funk é o ritmo que mais toca em Pernambuco, seja nas festas da periferia ou da elite e na visão do cantor, em pouco tempo o mundo todo vai conhecer o estilo musical. “Eu não sei se Tome Empurradão vai ser o hit do Carnaval, mas já fico feliz que o passinho está sendo conhecido cada vez mais. Quando os encontros começaram a acontecer, percebi que estavam rolando confusões, gravei um vídeo e fiz um apelo ao pessoal para prevalecer a paz, deixar de lado isso de bairro porque o brega precisa ser respeitado e isso só queima a nossa imagem”, afirma.

Mãe e pai assumiram o papel de assessores para acompanhar os filhos no encontro dos passinhos. Foto: Danilo Campello/LeiaJáImagens

Grupo criado há pouco mais de duas semanas, os Kedeleys dos irmão Breno Torres, 15, e Cauã Torres, 12, nasceu dessa febre do passinho no Recife. Os garotos gostaram da nova moda e por já terem familiaridade com a dança logo se interessaram pelo estilo da coreografia. “Tudo começou com uma brincadeira e já estamos com 400 seguidores na rede social. Dançar é muito bom e se pudermos profissionalizar isso, seria top”, conta Breno.

Os irmãos participam do encontro do passinho no Marco Zero acompanhados dos responsáveis, devidamente uniformizados como “assessores”. Patrícia Torres, mãe dos meninos, lembra que eles dançaram quadrilha durante algum tempo e perderam a timidez por causa da dança. “Eu perguntei se eles queriam investir na ideia do passinho e eles toparam, estamos aqui para apoiar, juntos”, diz. Ela complementa ainda que para acabar com o preconceito das pessoas com quem escuta o brega-funk é preciso que seja menos marginalizado. “A periferia tem muita cultura para mostrar, somos do Ibura e viemos até o centro para ver nossos filhos dançando”.

Quem também apoia a realização dos encontros é Jaqueline Castro, 22, uma das responsáveis por ajudar o grupo “Os caciques”. “O espaço é público e todos podem fazer o uso deles, só porque tá cheio de gente negra, da periferia e dançando, não precisa desse monte de policial. Essa dança é cultura, somos da favela e estamos afastando essas crianças de tudo de ruim, como as drogas e o crime. Isso aqui é importante demais”, avalia.

Sem dúvida, a chegada mais barulhenta e digna da quantidade de fãs das boy bands norte-americanas foi a do grupo Magnatas do Passinho S.A. O grupo é formado por Artur Borges, 24, Robert Ferreira, 15; Mauricio da Silva, 17; Eduardo da Silva, 18; Sérgio Roberto, 19; e Kelviny Guimarães, 20. A fama dos meninos de Santo Amaro começou a crescer depois de um vídeo postado no YouTube, dançando a coreografia da música "Barulho da Kikada", dos MCs Niago, Seltinho Coreano e Reino.

Foto: Danilo Campello/LeiaJáImagens

Eles chegaram ao encontro no Marco Zero por volta das 15h do último domingo e quase que a reportagem não consegue um espaço na disputada agenda dos meninos para a entrevista. Fotos, gravação de clipe, abraços e muito calor humano. Os meninos estavam atendendo os fãs ao lado da lateral do Seu Boteco, restaurante que fica nos Armazéns da localidade. Apesar do espaço ser de uso público, a gerência do estabelecimento parece não ter gostado do tumulto e após alguns minutos colocou uma fita zebrada para isolar toda lateral do bar.

Durante o encontro, também era possível perceber a grande qualidade de policiamento, guarda municipal e seguranças no local. Artur sabe que o preconceito com o movimento ainda é muito grande por uma série de fatores, mas prefere focar nas coisas positivas que têm acontecido na vida da garotada cada vez melhor no passinho. “A nossa meta é se apresentar no Olinda Beer esse ano, fazer sucesso como a MC Loma, levar o brega-funk para o brasil todo. Quem sabe um programa de auditório não nos chama para apresentar nosso movimento? Estamos aqui para sonhar mesmo”, conclui.

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