Após longa pausa, Ballet do Rio volta aos palcos

Alguns bailarinos não se viam há muito tempo

qua, 24/10/2018 - 10:50
CARL DE SOUZA Bailarinas do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ensaiam em 20 de junho de 2018 CARL DE SOUZA

O balé geralmente é reservado para o público culto, uma elite. Isso pode ser verdade em muitos casos. Mas no Rio de Janeiro, uma cidade que ilustra claramente a incrível divisão entre ricos e pobres do Brasil, onde as favelas compartilham os morros com os apartamentos de luxo, o local que o balé ocupa é uma exceção surpreendente em um país em crise.

O Teatro Municipal, um majestoso edifício Art Nouveau que se ergue no centro do Rio de Janeiro, construído no início do século passado, é inspirado na Ópera Garnier de Paris. Recebe subsídios públicos e os cidadãos comuns podem comprar ingressos para assistir a um espetáculo de balé a preços populares.

Os espetáculos são apresentados em uma luxuosa sala com acabamentos em mármore que se assemelham aos dos melhores teatros de ópera do mundo.

Ao olhar para os arredores do teatro, no entanto, os estragos da crise econômica brasileira são evidentes.

Em 2017, muitos dos bailarinos da companhia de Ballet do Theatro Municipal foram forçados a aceitar doações de alimentos. Alguns se tornaram motoristas da Uber para sobreviver. A companhia em geral foi duramente atingida.

Em 23 de junho de 2018 se apresentou pela primeira vez em um ano. A emoção e a tensão se misturavam, enquanto os dançarinos se preparavam para atuar em seu grande espaço histórico.

Alguns bailarinos não se viam há muito tempo. Mas todo mundo estava ciente da importância desta primeira noite.

Eles praticaram e ensaiaram com uma disposição renovada, repassando cada mínimo detalhe.

Nos camarins, era palpável a emoção que embriagava a atmosfera. Eles estavam de volta e queriam que o público soubesse.

A cortina subiu na noite de esteia e até os dançarinos mais experientes respiraram fundo enquanto observavam por trás das enormes cortinas do palco.

Será que tinham se esforçado o suficiente? Seriam eles capazes de se apresentar com o nível de perfeição e precisão esperado?

A orquestra começou a tocar e finalmente, depois de um ano, o momento havia chegado.

"Assim que sai do palco senti vontade de chorar. Ficamos separados por muito tempo. Tempo demais, devido a lesões e dificuldades financeiras. Chorei de alívio por poder estar ali mais uma vez, dançando com os meus colegas", contou Margueritta Tostes, uma das bailarinas.

A última cortina desceu sob uma chuva de aplausos.

Os dançarinos entraram pelos dois lados aos bastidores gritando, chorando, abraçando, comemorando.

Parecia mais o apito final de uma partida de futebol do que uma apresentação de gala elegante e moderada.

Mas, em vez de camisetas e chuteiras de futebol, sapatilhas de balé e tutus brancos saltaram de novo no palco, no meio do burburinho.

Os brasileiros são conhecidos por demonstrar suas emoções abertamente. Naquela noite, após um ano de espera, toda frustração e tensão reprimidas foram liberadas, dando lugar a uma onda da mais genuína alegria.

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