Mangá, animes, games: retalhos da cultura japonesa

No aniversário de 109 anos da imigração japonesa para o Brasil, conheça pessoas que tiveram suas vidas marcadas pela cultura pop oriental

por Lara Tôrres dom, 18/06/2017 - 11:00

A cultura pop japonesa é mundialmente famosa pelos personagens de vídeo games, de animes - os desenhos animados de características típicas do estilo japonês - e dos mangás, que são revistas de histórias em quadrinhos com temas, traços, estilo e sequência de leitura oriental. Neste domingo, 18 de junho, se celebra o 109º aniversário da imigração japonesa para o Brasil, o LeiaJá preparou uma reportagem sobre a influência que mangás e animes, como Pokémon e Dragon Ball, e vídeo games, como Super Mario, Street Fighter e Zelda, influenciaram os gostos e marcaram a vida de pessoas de diversas idades no Brasil. 

Aquele lugar mágico da infância

Diego Torres é estudante de Direito, tem 34 anos e conta que desde a infância aprendeu a gostar da cultura pop japonesa através principalmente dos jogos de vídeo game pelos quais sempre foi apaixonado. “Dragon Ball foi o que me fez procurar o anime e o mangá, mas naquela época jogar em console era sinônimo de jogar coisas do Japão. Os consoles eram da sega e Nintendo e a maioria das software houses eram as japonesas: Konami, Capcom, Nanco, Sega, Nintendo, então quem jogava em console estava em íntimo contato com o Japão”, conta Diego. Ele também explica que em tempos em que a cultura japonesa não era muito disseminada no Brasil, além de mangás e animes serem produtos de difícil acesso, os fãs dessas histórias eram um nicho, e vistos como estranhos pelas pessoas que não tinham contato com o estilo japonês. 

“Isso tudo era enquadrado em ser nerd, que era algo pejorativo. Minha família tinha preconceito, então você tinha que gostar mesmo para fazer, porém nunca quis me identificar com grupos. Acho que foi quando as crianças de 90 viraram adultos, crianças do meio para o fim de 90, que essa cultura foi se tornando massiva e mais ‘normal’, por assim dizer”, explica ele.

Hoje, num contexto de globalização e de produtos japoneses disseminados no gosto dos brasileiros, além de haver mais aceitação e acesso aos mangás, aos animes através da televisão aberta e também pelo universo dos jogos digitais, há um sentimento lúdico e saudosista dos fãs de cultura japonesa que tiveram sua vida marcada por essas histórias, fizeram coleções e seguem em contato com o oriente. 

Para Diego, seus jogos, animes e histórias dos mangás são lugares lúdicos onde ele esquece de aflições e revisita uma época feliz da sua vida. “Super Mario e Zelda, por exemplo, sempre estarão presentes no meu coração e resgatam sempre o que há de melhor em mim. Ao jogar um Mario Galaxy eu esqueço de concurso, dinheiro, problemas da vida, sou teleportado para aquele meu lugar mágico da infância onde eu era feliz sem essas preocupações” explica Diego, que também destaca a cultura japonesa, especialmente nos jogos e mangás, como um refúgio. 

“Acho importante isso, de não perder nossa criança interior. Mario, Zelda, Goku, todos eles estiveram na minha formação e estão em um lugar muito caro no meu coração. Também sofri muito bullying na escola, Mario e Zelda sempre estiveram lá para mim, quando eu estava em Hyrule ou Mushroom Kingdom não me sentia mal”, contou ele.

“Despertou a vontade de criar”

Pedro Augusto Ferreira tem de 23 anos e encontrou na cultura japonesa mais do que um hobbie. A influência dos mangás e animes fez com que ele começasse a desenhar personagens e decidisse fazer curso superior de design, transformando em profissão um amor que nutre desde a infância. 

“Ler mangás e quadrinhos em geral despertou a vontade de criar, sabe? personagens, histórias, disso para decidir fazer design foi um pulo. Você pode ver só de olhar meu quarto, cheio de pôster, boneco, tudo isso que também ajudou a construir minha personalidade, era a influência que eu tinha quando criança e certas coisas marcam muito a gente”, explica Pedro.

Influenciado na infância por um primo e pelo pai, que gostava de desenhos animados, Pedro, que sempre preferiu bonecos a futebol, como ele diz, virou fã de vários mangás e animes. Além de ter aprendido a desenhar, ele começou a se fantasiar como os personagens de que tanto gostava, prática conhecida como cosplay. 

“Eu gostava muito de cavaleiros do zodíaco, yu gi Oh, Pokémon, monster ranger, tenchi muyo, Sakura, inu yasha, ThunderCats, a lista é enorme. Além de assistir eu comecei a colecionar os mangás que eu conseguia achar para comprar brinquedos, foi quando comecei a desenhar e a fazer cosplay também”, contou ele.

No seu dia a dia de trabalho, Pedro mantém a influência de sua paixão pela cultura pop japonesa, deixando aparecer referências nos desenhos que cria no trabalho e nos trabalhos universitários. “Meu traço e jeito de desenhar é bem 2d, sempre uma coisa mais lúdica. As histórias que crio sempre tem muita fantasia, isso é influência direta desses meus gostos que se desenvolveram desde cedo”.

Os animes e mangás ensinam que nada vem fácil

A carioca Lúcia Lemos também decidiu estudar design influenciada pelos mangás e animes desde a sua infância. Hoje, aos 23 anos, ela faz pesquisas sobre a influência dos mangás no Brasil para ajudar na escrita de um livro no qual a protagonista desenha, é fã de mangás e salva seu herói predileto. Na visão de Lúcia, as histórias que vêm do oriente têm muitas peculiaridades, entre pontos positivos e negativos, que os distinguem dos quadrinhos ocidentais para além da estética do desenho. 

Como pontos negativos, Lúcia aponta o tratamento que o Japão dá a algumas questões sociais e algumas heranças culturais que em geral são mal vistas para o público ocidental. “O lado ruim da coisa é a sexualização de crianças, a péssima abordagem deles sobre suicídio e depressão. Isso está mudando, mas é muito comum personagens abusadas se matarem para se libertar do sofrimento. Também há aquela coisa de ‘servir para algo, ter o que oferecer, ter a quem proteger’, quase uma herança samurai mesmo, e se você não puder fazer isso, deve morrer”, explica Lúcia. 

No sentido contrário, ela também afirma que muitos mangás e animes trazem grandes lições de vida, ensinando sobre amizade, companheirismo, persistência e esforço pessoal em prol dos objetivos pessoais. Além disso, a presença de personagens de gênero não-binário, de mulheres fortes que lidam de igual para igual com os homens inclusive em situações de luta física. “Muitas vezes o herói é um cara comum que precisa estar sempre treinando para subir de nível ou lidar com seu poder, ele não cai do céu com superpoderes e já sabe usá-los. Os animes e mangás ensinam que nada vem fácil, que é preciso muito esforço e dedicação, isso cria jovens dedicados que sempre lutarão pelos seus sonhos. Também ensinam muito sobre união e amizade, que são temas muito frequentes em vários mangás e animes, as histórias te motivam a não desistir”, disse ela.

Quando perguntada sobre a influência da estética pop japonesa em produções nacionais, Lúcia afirma que é possível perceber desenhos e histórias em quadrinhos brasileiros com sinais de inspiração nos mangás, especialmente no que diz respeito à temática das histórias e ao traço dos desenhos. “Eu destacaria os Studio Seasons e Erica Awano, que é maravilhosa em desenho”, apontou Lúcia.

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