'Fake news' cairá no Enem da gestão Bolsonaro?

Grave compartilhamento de informações falsas marcou as eleições presidenciais de 2018. Professores explicam se o tema pode ou não aparecer no Enem

por Nathan Santos sex, 12/04/2019 - 15:05
Pixabay . Pixabay

O compartilhamento de informações falsas marcou as eleições presidenciais de 2018. As “fake news” despertaram intolerância e fomentaram o ódio, fazendo das redes sociais um amplo campo de ataques desrespeitosos entre eleitores e representantes políticos.

Um dos casos mais emblemáticos, cuja informação era de que o candidato petista Fernando Haddad iria distribuir “kits gays” nas escolas brasileiras, foi disseminado entre muitos eleitores brasileiros. Pesquisa conduzida pelo IDEIA Big Data constatou que 98,1% das pessoas entrevistadas no levantamento que votariam em Jair Bolsonaro foram expostas a algum conteúdo inverídico e quase 90% acreditaram que as informações poderiam ser verdadeiras.

No livro ‘Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news’, o jornalista inglês Matthew D´Ancona analisa a postura do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, outro grande líder acusado de disseminar informações falsas. “No cerne dessa tendência global está um desmoronamento do valor da verdade, comparável ao colapso de uma moeda ou de uma ação. A honestidade e exatidão não são mais consideradas com a maior prioridade nas trocas políticas. Como candidato e presidente, Donal Trump depreciou a suposição de que o líder do mundo livre deve ter ao menos uma familiaridade oblíqua com a verdade: de acordo com o site PolitiFact, que checa informações e é ganhador do Prêmio Pulitzer, 69% das declarações de Trump são predominantemente falsas, falsas ou mentirosas”, diz trecho da obra.

Além do universo político, as informações falsas também fazem vítimas. Não raro presenciamos notícias de alguém acusado de um crime inocentemente, sendo agredido e até mesmo assassinado pela ira da sociedade. Primeiro compartilham a postagem acusatória e apenas posteriormente checam a informação. Uma checagem tardia, já que a justiça acabara de ser feita com as próprias mãos.

Ao nos deparamos com uma série de notícias falsas jogadas de um lado para o outro, o tema ganha forças nas escolas brasileiras. Tornou-se necessário discutir a problemática e conscientizar os estudantes sobre a gravidade do compartilhamento de fake news. Nesse sentido, há questionamentos se o assunto pode ser, de alguma forma, cobrado em uma das provas educacionais mais importantes do Brasil, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Para o professor de atualidades e geopolítica Benedito Serafim, o Enem se limitará a cobrar “fake news” em acontecimentos históricos. De acordo com ele, sob a gestão de Bolsonaro, abordar notícias falsas no cenário contemporâneo seria um erro contra o próprio governo.

“Pode ter fake news no Enem, mas não envolvendo atualidades; pode aparecer no contexto histórico. As grandes bandeiras que o comunismo pregava na época da Guerra Fria eram o próprio fake news, mas na época não era esse nome. A União Soviética pregava muitas mentiras para poder se espalhar em vários países. Por exemplo, aconteceu um caso de um soldado que atirou contra o próprio comando na guerra do Vietnã, só que esse soldado era americano. E aí poderia ter atirado por qualquer outro motivo, mas a União Soviética iria utilizar que o soldado atirou porque se rendeu aos encantos do comunismo. Eles usavam mentiras para dizer que estavam vencendo na guerra ideológica”, argumenta Serafim.

“A mentira era a base do comunismo ou do próprio nazismo, já que eles tentam pregar que o nazismo é de esquerda. Um dos grandes pais das mentiras mais históricas é Joseph Goebblels, ministro de comunicação do nazismo. Uma das frases mais faladas dele era ‘Uma mentira repetida mais de uma vez se torna uma verdade’”, acrescenta o professor de geopolítica.

Considerada uma das etapas mais importantes do Enem, a redação também desperta a curiosidades dos estudantes brasileiros. A pergunta é frequente: fake news pode ser o tema do Exame? O professor Felipe Rodrigues rapidamente aposta: “Fake news não vai ser tema da redação”.

Para justificar sua posição, Rodrigues também acredita que trabalhar a problemática das notícias falsas seria um tiro no próprio pé da gestão de Jair Bolsonaro, já que sua campanha foi acusada de compartilhar conteúdos falsos. “A gente pode encontrar algum texto co-relato dentro da prova de Linguagens, mas seria um tiro no pé. Fake news chegou a ser um assunto pincelado no último Enem, mas o aluno perdeu ponto se falou só sobre isso. Quando a prova traz o tema sobre manipulação de usuários, o aluno poderia falar da internet e citar como exemplo dessa manipulação a fake news”, explica o professor de redação.

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